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sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O Sinédrio


O Sinédrio era um conselho de juízes, que exercia a função de Corte Suprema da lei judaica. Esta entidade teve como mais remota origem, os desdobramentos da lamentação de Moisés à Jeová Deus, após Moisés ouvir o murmúrio dos israelitas pela falta de ter carne por alimento, no deserto, enquanto Moisés, por sua vez, considerou a carga pedida por Deus, para cuidar sozinho do povo, como muito grande, dizendo que ele, sozinho, não poderia suportar. (Números 11).

"E o Senhor disse a Moisés: "Reúna setenta autoridades de Israel, que você sabe que são líderes e supervisores entre o povo. Leve-os à Tenda do Encontro, para que estejam ali com você.  Eu descerei e falarei com você; e tirarei do Espírito que está sobre você e o porei sobre eles. Eles o ajudarão na árdua responsabilidade de conduzir o povo, de modo que você não tenha que assumir tudo sozinho." (Números 11:16,17)

Com isso, Deus permitiu a divisão da carga de Moisés com outros setenta anciãos, que foram ungidos por Espírito Santo, para cuidar do povo de Israel. Com isso Deus aprovou a criação de um conselho de anciãos do povo e seus oficiais, para cuidar do povo israelita, mesmo que, quando o Espírito repousou sobre eles, eles profetizaram, mas depois nunca mais. (Números 11:25).

Em verdade, o termo “setenta anciãos de Israel” já havia surgido, antes, quando o povo ainda se encontrava próximo ao Sinal, por que “ali se acampou em frente ao monte” (Êxodo 19:2), e após Jeová ter discorrido a Moisés sobre toda a Lei que era necessária àquele povo, setenta dos anciãos de Israel foram autorizados a subir (por apenas uma parte do percurso) e adorar de longe (Êxodo 24:1), no dia seguinte após Moisés escrever todas as palavras (da Lei) do Senhor (Êxodo 24:4).

Quando os filhos de Israel, segundo a ordem de marcha, partiram do deserto de Sinai; e a nuvem parou no deserto de Parã (Números 10:12), aquele povo já não era mais o mesmo. Muito embora a maioria deles não percebesse, ele estava transformado, fortalecido, organizado e cheio de moral. Já não se falava mais em temores, mas falava-se em ordem de exércitos, segundo as tribos. Sim, eles pareciam prontos para avançar, mesmo por um caminho por onde muitos perigos lhes aguardasse. 

Todavia, isso não bastou para evitar que, depois de um certo tempo, novamente queixava-se o povo, falando o que era mal aos ouvidos do Senhor Deus (Números 11:1). Mesmo castigados, o vulgo, que estava no meio deles, veio a ter grande desejo; pelo que os filhos de Israel tornaram a chorar, e disseram: Quem nos dará carne a comer? (Números 11:4). E irritaram, ainda mais a Deus, dizendo: coisa nenhuma há senão este maná diante dos nossos olhos. (Números 11:6).

É interessante notar que, já não era a primeira vez que o povo murmurava por causa de alimento e, desde antes do povo ter chegado ao Sinai, Jeová já vinha cuidado com zelo das necessidades deles: eles tinham o maná diariamente (exceto no sétimo dia, compensado com o dobro, de conservação especial, no sexto dia, ver Êxodo 16). Codornizes como alimento, o povo recebia frequentemente (creio que diariamente, pela tarde (Êxodo 16:12)), na medida da necessidade deles, coisa muito bem conhecida pelo Senhor. Mas o que muitos do povo queria, na verdade (como quer, até os dias de hoje), era sempre mais e mais, mesmo quando o "mais" não lhe fosse, de fato, nada conveniente.

Deste modo, pela "saudades" que o povo expressava sentir pela vida que haviam deixado para trás, no Egito, de onde o próprio Senhor, com grande poder, os havia tirado, mesmo Jeová tendo aprovado a criação daquele conselho de anciãos do povo e seus oficiais (que, muito mais tarde resultará na tradição de criação do sinédrio), para cuidar daquele murmurante povo israelita (que não são diferentes dos humanos de toda Terra de hoje em dia), tal instituição, também não bastou, segundo a Justiça de Deus, para livrar aquele povo de (mais) castigo.

Então soprou um vento do Senhor e trouxe codornizes do mar, e as espalhou pelo arraial, e o povo se levantou todo aquele dia e toda aquela noite, e todo o dia seguinte, e colheram as codornizes; o que menos tinha, colhera 10 gômeres (cerca de 44kg), e as estenderam para si ao redor do arraial. (No entanto,) quando a carne estava entre os seus dentes, antes que fosse mastigada, se acendeu a ira do Senhor contra o povo, e feriu o Senhor o povo com uma praga terrível. (Números 11:31-33).

Aqueles setenta homens, que haviam sido ungidos com Espírito, para ajudar na administração do povo, não foram o bastante para impedir que o povo continuasse errando, pecando contra Deus, de modo que, exceto Calebe, filho de Jefoné o quenezeu, e Josué, filho de Num (se é que estes dois homens deveras estiveram inscritos entre aqueles primeiros setenta), porquanto perseveraram em seguir ao Senhor (Números 32:12), entrariam na Terra Prometida, e, assim se acendeu a ira do Senhor contra Israel, e fê-los andar errantes pelo deserto quarenta anos até que se consumiu toda aquela geração, que fizera mal aos olhos do Senhor. (Números 32:13).

Apesar de que o numeral de contagem setenta, apareça em diversos momentos nos seis primeiros livros da Bíblia, tal numeral só voltaria a aparecer como contagem de pessoas das tribos de Israel, já no tempo de Juízes, ao fazer referência a casa de Gideão (também chamado Jerubaal, querendo dizer, Baal contenda contra ele, pois derrubou o seu altar. (Juízes 6:32).), após a vitória de Jeová usando ele contra os dominadores midianitas: E teve Gideão setenta filhos, que procederam dele, porque tinha muitas mulheres. (Juízes 8:30).

Antes de Gideão e de os trezentos, os filhos de Israel fizeram o que era mau aos olhos do Senhor Deus; e Ele os deu nas mãos dos midianitas por sete anos. (Juízes 6:1).

E logo em seguida, o mesmo numeral aparece mais uma vez, no início de Juízes 9, mencionado por um outro filho que Gideão teve, Abimeleque, ao falar contra os seus setenta irmãos, porém com Gideão estando já falecido, após ele mesmo ter tropeçado em servir ao Senhor, e com boa parte do povo de israel, ingrato a Jeová, o seu Deus libertador, tendo retornado a idolatria que lhes fora ensinada pelos seus dominadores estrangeiros, pondo imagens de baal-berite por deus.(Juízes 8:33).

De parte dos despojos dos midianitas vencidos, Gideão havia feito um éfode, e colocou-o na sua cidade, em Ofra; e todo o Israel se prostituiu (idolatrando) ali após ele; e (isso) foi por tropeço a Gideão e à sua casa (Juízes 8:27), até que aquele irmão enjeitado, porquanto era filho ilegítimo, nascido fora da casa de Gideão, foi à casa de seu (falecido) pai, a Ofra, e matou a seus irmãos, os filhos de Jerubaal (Gideão), setenta homens, sobre uma só pedra. Mas Jotão, filho menor de Jerubaal, ficou, porquanto se tinha escondido. (Juízes 9:5). Todavia, por fim, Deus fez tornar sobre Abimeleque o mal que tinha feito a seu pai, matando a seus setenta irmãos. (Juízes 9:56). 

Ou seja, a seus sessenta e nove irmãos, e mais a ele próprio, pois havia pedido ao seu servo: mata-me; para que não se diga de mim: uma mulher o matou. (Juízes 9:54).

Muito tempo depois, já tendo passado o reinado de Davi, e depois dele, o de seu Filho Salomão e, tendo após este, o reino sendo dividido, numa situação que já perdurava por várias gerações, também Acabe (rei do reino do norte, que se vendeu para fazer o que é mau aos olhos de Jeová, instigando-o Jezabel, sua esposa (1 Reis 21:25)) tinha setenta filhos em Samaria. Jeú (vaso de ira do Verdadeiro Deus) escreveu cartas, e as enviou a Samaria, aos chefes de Jizreel, aos anciãos e aos aios dos filhos de Acabe, dizendo:

Logo, em chegando a vós esta carta, pois estão convosco os filhos de vosso senhor, como também os carros, os cavalos, a cidade fortalecida e as armas. Olhai pelo melhor e mais reto dos filhos de vosso senhor, o qual ponde sobre o trono de seu pai, e pelejai pela casa de vosso senhor. Porém eles temeram muitíssimo, e disseram: Eis que dois reis não puderam resistir a ele; como, pois, poderemos nós resistir-lhe? (2 Reis 10:4).

O numeral setenta continua aparecendo em várias outras passagens da narrativa bíblica, associada a outros numerais e, principalmente associada a exata contagem do tempo em anos, até que ela volta a aparecer, com maior precisão e com maior poder de significado, associada a "um grupamento de setenta anciãos", no livro de Ezequiel, no capítulo 8, quando aquele profeta, tomado pelo Espírito do Deus Vivo, recebe revelações proféticas que incluem a visão de toda a forma de répteis, e animais abomináveis, e de todos os ídolos da casa de Israel, (que) estavam pintados na parede em todo o redor. (Ezequiel 8:10).

E estavam em pé diante deles setenta homens dos anciãos da casa de Israel, e Jaazanias, filho de Safã, em pé, no meio deles, e cada um tinha na mão o seu incensário; e subia uma espessa nuvem de incenso. Então (o Espírito) me disse: Viste, filho do homem, o que os anciãos da casa de Israel fazem nas trevas, cada um nas suas câmaras pintadas de imagens? Pois dizem: O Senhor não nos vê; o Senhor abandonou a terra. (Ezequiel 8:11-12).

Aqui, o Espirito de Jeová Deus permitiu a Ezequiel compreender como e porque a presença de Deus, deixaria o seu templo, o Templo de Salomão em Jerusalém, por causa da corrupção da justiça e dos pecados de idolatria que os líderes do país estavam fazendo em segredo. Pensando que Deus não os via, líderes da nação adoravam abominações no templo. Deus pergunta a Ezequiel: "Você viu o que os anciãos da casa de Israel fazem nas trevas", para que Ezequiel fosse por testemunha do por quê a presença de Deus estava deixando o Templo.

Assim, bastante tempo posteriormente, quando a ideia de se ter um conselho baseado naquela antiga tradição mosaicas ressurgiu, tal conselho veio a adotar a formação de setenta mais um membros, tal como se supunha, por serem herdeiros das tarefas desempenhadas por aqueles setenta anciãos que ajudavam a Moisés na administração do povo, além do próprio Moisés.

Muito provavelmente, a ideia de Sinédrio desenvolveu-se integrando representantes da nobreza sacerdotal e das famílias mais notáveis, possivelmente durante o período persa, ou seja, a partir do século V – IV a.C.

Depois da morte de Alexandre Magno (também dito Alexandre, o grande), morto na Babilônia, em 323 a.C., os generais de Alexandre passaram a disputar entre si o domínio do império e, com isso, a parte oriental daquele império se dividiu entre os Ptolomaicos (partidários do também falecido general Ptolemeu), no Egito e os Selêucidas (partidários de Seleuco I Nicator, filho do general Antíoco e sobrinho de Ptolomeu), na Síria, e, assim, iniciou-se um período marcado pela helenização, que foi o confronto entre religião judaica tradicional e a cultura helenística, que ora havia se tornado uma mescla entre a cultura grega, com a cultura do oriente próximo.


A princípio, Jerusalém ficou sob influência ptolomaica, com relativa liberdade para o culto do judaísmo, porém, com a morte de Ptolemeu IV em 204 a.C., Antíoco III, que se tornara o mais notório dos governantes selêucidas após o próprio Seleuco I, entendeu que a situação mostrava-se propícia para nova campanha ocidental (Quinta Guerra Síria). Antíoco e Filipe V da Macedônia então fizeram um acordo para dividir as possessões ptolemaicas fora do Egito, e preparou uma invasão da Celessíria (que incluia a Judeia).

Antíoco arrasou depressa a região e, após um breve revez em Gaza, deu um esmagador golpe aos Ptolemeus perto da cabeça do rio Jordão, obtendo o importante porto de Sídon. Em 200 a.C., emissários romanos chegaram a Filipe e Antíoco exigindo que se abstivessem de prosseguir, e invadisse também o Egito, pois os romanos temiam, assim, sofrer alteração na sua importação de grãos do Egito, que era importante para a manutenção da população cidadã em Roma, mas a Judeia ficaria, doravante, sob o domínio dos selêucidas.

O termo “Sinédrio” não provém da língua hebraica, mas vem da junção de duas palavras gregas que são syn- (junto) e hedra (assento, lugar que se ocupa). O Sinédrio operava em Israel no período em que Jesus viveu como homem, propondo-se à missão de administrar a justiça, interpretando e aplicando a Torá (Pentateuco ou Lei de Moisés), tanto oral, como escrita, e segundo a orientação na tradição judaica.

Ao que tudo indica, não houve, precisamente, referências a efetiva existência de um conselho de anciãos com o nome de Sinédrio, até o tempo em que a dinastia dos reis selêucidas passaram a dominar sobre a judeia, tendo sido mencionado pela primeira vez, com o nome de Gerousia (conselho dos anciãos), no tempo do rei Antíoco III da Síria (223-187 a.C.).

Mais adiante, em 189 a.C. o reino selêucida perdeu a guerra contra Roma, o que teria como consequências a perda da Ásia Menor e o pagamento anual de 15 mil talentos aos Romanos. Numa tentativa de conseguir os fundos necessários, Heliodoro, um dos ministros do rei Seleuco IV, tentaria se apoderar, em vão, do tesouro do Segundo Templo de Jerusalém.

Tal como sucedeu em outras partes, a cultura e os modelos de vida gregos difundiram-se, também, pela Judeia. Alguns membros da elite judaica sentiam-se atraídos pela cultura grega e desejavam uma integração nesse mundo. Em 175 a.C., o sumo sacerdote Jasão obteve a autorização de Antíoco IV para transformar Jerusalém numa cidade helénica, o que incluíu a fundação de um ginásio, onde os jovens se exercitavam nus.

Estas medidas pareceram excessivas para muitos judeus, que mostraram o seu descontentamento. Em resposta a esta contestação, Antíoco IV tomou medidas que visavam impor de forma coerciva o helenismo. Os judeus passaram a ser obrigados a fazer sacrifícios em nome dos deuses pagãos e proibidos de praticar a circuncisão e de observar o Sabbat. Em dezembro de 168 a.C., o Templo de Jerusalém seria profanado com a instalação de uma estátua de Zeus.

Com a proibição em 167 a.C. da prática do judaísmo pelo decreto de Antíoco IV, e com a introdução do culto do Zeus Olímpico no Templo de Jerusalém, muitos judeus decidem resistir a esta assimilação, e acabaram sendo perseguidos e mortos. Conforme diz o apócrifo de 1 Macabeus, em seu capítulo 1:56-64:

"rasgavam e queimavam todos os livros da lei que achavam; em toda parte, todo aquele em poder do qual se achava um livro do testamento, ou todo aquele que mostrasse gosto pela lei, morreria por ordem do rei. Com esse poder que tinham, tratavam assim, cada mês, os judeus que eles encontravam nas cidades e, no dia vinte e cinco do mês, sacrificavam no altar, que sobressaía ao altar do templo. As mulheres, que levavam seus filhos a circuncidar, eram mortas conforme a ordem do rei, com os filhos suspensos aos seus pescoços. Massacravam-se também seus próximos e os que tinham feito a circuncisão. Numerosos foram os israelitas que tomaram a firme resolução de não comer nada que fosse impuro, e preferiram a morte antes que se manchar com alimentos; não quiseram violar a santa lei e foram trucidados. Caiu assim sobre Israel uma imensa cólera."

Judas Macabeu, filho de Matatias
Entre os judeus que permanecem fiéis à Torá, estava o sacerdote Matatias, chamado de Hasmoneu devido ao nome do patriarca de sua linhagem (Hasmon). Recusando-se a servir no templo profanado, Matatias se exila com sua família em sua propriedade em Modin. Matatias tem cinco filhos: João, Simão, Judas, Eleazar e Jônatas. Convocados para os sacrifícios pagãos, Matatias acaba matando o emissário real e um outro sacerdote que se propõe a oficiar os sacrifícios. Convoca então os judeus fiéis à Torá e foge com seus filhos para as montanhas, iniciando o movimento de resistência contra o domínio estrangeiro, destruindo altares, circuncidando meninos à força e recuperando a Torá das mãos dos gentios.

Todavia a história do livro de Macabeus é bastante clara em mostrar que foi apenas após uma aliança ocorrida entre os macabeus e os romanos, uma aliança defensiva contra os gregos com o senado romano, que permite expelir definitivamente os invasores helenistas o que põe um termo, ao movimento guerrilheiro liderado por Judas Macabeu, filho de Matatias, e de seus irmãos. Paralelamente a isso, ocorria que do ponto de vista militar, a Grécia havia entrado num declínio tal, que os romanos conquistaram todo o seu território, de 168 a.C. em diante, ainda que, em contrapartida, a arte, a cultura e a religião grega, é que houvessem, de fato, conquistado os romanos.

Na Judeia, sucedendo ao terceiro irmão Macabeu, Simão, encontramos o filho deste, João Hircano, que consolida o poder em suas mãos realizando ainda mais alianças com Roma e outros impérios de sua época. Esta dinastia, a dinastia da casa de Matatias, conhecida como "os asmoneus", passa governar a Judeia. Para Governar, João Hircano e seus sucessores, usurpam tanto o título de etnarca como o de sumo-sacerdote.

Os assideus, alarmados com as ambições dos asmoneus, e com o caráter secular que assume o seu reinado, rompem com eles. Segundo este grupo, ao se fazer sacerdote sem possuir o direito de família os asmoneus cometem uma terrível falta. Isto gerou a ruptura profunda entre os descendentes dos assideus (fariseus e essênios) e o partido ligado aos asmoneus (saduceus), os três partidos judaicos que, então, se formam.

Não obstante ao fim do domínio do helenismo grego sobre a Judeia, as diversas controvérsias entre os partido judaicos, agravado por dissidências internas, de continuo mantinham os judeus enfraquecidos como nação e o seu reino, agora sob o permanente olhar rapinante da águia romana. A questão a ser levantada é: O que o povo judeu poderia ter em haver com a politeísta idolatria estatal romana, que não fosse a mesma coisa que tivesse em haver com o panteísmo helênico dos gregos?

A Roma cuja fama empolgara os macabeus, levando-os a  fazer com ela um pacto, sem consultar a Deus (ver Capitulo 8 do livro apócrifo I Macabeus), agora era o que se tornava em ameaça maior. O fato é que, em 64 a.C., em meio a um novo acirramento das disputas internas dos judeus, o general romano Pompeu marchou com suas tropas, invadiu e conquistou Jerusalém, e fez do débil reino judeu um estado vassalo de Roma.

Sabe-se que o Sinédrio era composto de 71 membros, escolhidos entre varões eminentes, entre os quais estava o sumo sacerdote, pertencendo também ao grupo, pessoas de relações deste e que a sua existência com o nome de synedrion, pode ser comprovada desde o tempo do rei Hircano II ( 63 a 40 a.C.). Nesses tempos, era presididos pelo monarca asmoneu (da linhagem dos macabeus), que era, também, o sumo sacerdote.

Entre 57 a.C. e 55 a.C., Aulo Gabínio, procônsul romano para a Síria, tripartiu o antigo reino em Galileia, Samaria e Judeia, com cinco sinédrios (côrte de juízes). Herodes o Grande, no começo de seu reinado, mandou executar grande parte dos membros do grande sinédrio de Jerusalém (quarenta e cinco, segundo o historiador e apologista judaico-romano Flávio Josefo, em Antiquitates Judace 15.6), porque o conselho se atrevera a recordar-lhe os limites dentro dos quais deveria situar-se o seu poder. Herodes substituiu-os, durante seu reinado, por personagens submissos aos seus desejos e, depois, no tempo de Arquelau, teve limitada importância.

O termo Sinédrio é usado vinte e duas vezes no Novo Testamento e, muito embora aldeias e cidades espalhadas pela Judeia possuíssem os seus próprios conselhos de anciãos locais, formado por fazendeiros, comerciantes, escribas e sacerdotes locais, por ser Jerusalém reconhecida pelos romanos como a capital religiosa do Judaísmo, contendo ela, ainda, as instalações do templo histórico, o Sinédrio de Jerusalém era o conselho que exercia, oficialmente, a representação judiciária de todo povo judeu perante a autoridade romana, que era, em última instância, quem de fato governava sobre a Judeia do tempo de Jesus.

O Sinédrio era uma importante instância de poder na Judeia no tempo de Jesus, apesar do poder político estar nas mãos dos Romanos. Governos leais a Roma exerciam o poder outorgado por Roma. O Sinédrio em Jerusalém era composto por:
  • Grandes sacerdotes, normalmente os saduceus: um sumo sacerdote era o capitão do templo e um outro supervisionava os procedimentos e comandava o guarda do templo (Atos 5:24-26), ambos responsáveis pelo andamento do culto e, também, outros sacerdotes que serviam de tesoureiros, controlando os salários de trabalhadores e de sacerdotes de outras localidades, monitorando a arrecadação de fundos que vinha através do templo de Jerusalém;
  • Anciãos, constituídos de chefes patriarcais de grandes famílias, aristocracia financeira e distintos leigos religiosos da Judeia, ricos comerciantes e latifundiários. Homens como José Arimateia (Marcos 15:43), dividiam a visão conservadora dos saduceus e davam a assembléia à diversidade de um parlamento moderno;
  • Escribas que eram considerados os intelectuais da época. Podiam ler, escrever e interpretavam as leis judaicas. A maioria deles eram fariseus. Eles eram advogados profissionais treinados em teologia, direito e filosofia, e eram organizados em grêmios, normalmente seguindo a um rabinos ou professor célebre. Gamaliel, um escriba famoso do sinédrio, que aparece no Novo Testamento (Atos 5:34), foi o erudito que instruiu o Saulo de Tarso (futuro apóstolo Paulo)  (Atos 22:3), antes dele se tornar cristão.
Nós sabemos mais sobre alguns aspectos do Sinédrio nos dias de Jesus, do que podemos dizer sabemos sobre ele antes ou depois. Uma coisa que sabemos é a extensão de sua influência. Funcionava em Jerusalém, mas sua ação e decisões oficialmente se estendiam em toda a Judeia. Porém, mas, na prática, apesar do Sinédrio ter jurisdição restrita a Judeia, de fato, ele tinha influência para além da província da Galileia e até mesmo em Damasco (Atos 22:5).

O Senhor intervém e aborta a missão do funcionário do Sinédrio,
Saulo de Tarso, discípulo de Gamaliel, próximo a Damasco.
A narrativa bíblica nos mostra: E Saulo, respirando ainda ameaças e mortes contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo sacerdote. E pediu-lhe cartas para Damasco, para as sinagogas, a fim de que, se encontrasse alguns deste Caminho (ou seja, cristãos), quer homens quer mulheres, os conduzisse presos a Jerusalém. (Atos 9:1-2). Anos mais tarde, com seu nome já mudado para Paulo, ele próprio contaria a narrativa disso em Atos 22. 

Na época dos governadores romanos, inclusive na de Pôncio Pilatos, o Sinédrio exerceu de novo suas funções judiciais em processos civis e penais, dentro do território da Judeia. O trabalho do conselho era basicamente o de julgar assuntos da lei judaica, quando surgiam discórdias, mas, era um tribunal com poderes criminais, políticos e religiosos, e, em todos os casos, sua decisão era final.

Eles julgavam acusações de blasfêmia como nos casos de Jesus (Mateus 26:65) e Estevão (Atos 6:12-14) e também participavam na justiça criminal. Nesse momento, suas relações com a administração romana eram tensas, e o relativo âmbito de autonomia que lhe foi outorgado estava em consonância com a política romana nos territórios conquistados.

O sumo sacerdote indicado pelos romanos, em exercício entre 18 e 36 d.C. era Josefo ben Caifás, que havia se casado com a filha de Anás ben Sete, antigo sumo-sacedote e pai e outros cinco também sumo sacerdotes, que exerceram em períodos distintos, tanto antes, quanto depois de Caifas. No entanto, como nos explica Lucas: "Sendo Anás e Caifás (ambos) sumos sacerdotes, veio no deserto a palavra de Deus a João, filho de Zacarias." (Lucas 3:2), Anás era quem, na verdade, ainda detinha o maior efetivo poder no Sinédrio, sendo seguido por seu genro.
Sendo Anás e Caifás sumos sacerdotes, veio no deserto a palavra de Deus a João, filho de Zacarias.

Lucas 3:2
Sendo Anás e Caifás sumos sacerdotes, veio no deserto a palavra de Deus a João, filho de Zacarias.

Lucas 3:2
Sendo Anás e Caifás sumos sacerdotes, veio no deserto a palavra de Deus a João, filho de Zacarias.

Lucas 3:2
Sendo Anás e Caifás sumos sacerdotes, veio no deserto a palavra de Deus a João, filho de Zacarias.

Lucas 3:2

O filósofo judeu Filo, indica que no período romano, o sinédrio podia julgar violações ao templo, cuja pena era capital, e isso explicaria as mortes de Estevão (Atos 7:58-60) e Tiago. Gentios que eram pegos ultrapassando o recinto do templo eram avisados sobre a pena de morte automática. Porém, o Novo Testamento e o Talmude discordam de Filo nesse ponto de vista, de modo que não podemos afirmar se o sinédrio tinha, ou não, um poder de punição capital, ou se as mortes de Estevão e Tiago foram atos de exceção.

No julgamento de Jesus, as autoridades estavam convencidas em envolver o governador romano Pilatos, que por si só poderia mandar matar Jesus (João 18:31). De acordo com o Talmude, o sinédrio perdeu o privilegio de executar punição capital "quarenta anos antes da destruição do (segundo) templo", que se deu no ano 70 d.C, ou seja, por volta da época da morte de Jesus, não sendo possível se precisar ao certo.

Não obstante, o mais provável é que nesses momentos, a “potestas gladii”, isto é, a capacidade de ditar uma sentença de morte, estivesse reservada ao governador romano (“prefectus”), que como era habitual, teria recebido do imperador romano amplos poderes judiciais, entre eles e os de pena de morte. O Sinédrio, portanto, embora pudesse julgar as causas que lhes eram próprias, não tinham poder de condenar ninguém a morte.

De qualquer modo, o seu lugar de referência do Sinédrio era o templo de Jerusalém e, por oportunizar decisões políticas e criminais, o templo passou a ser considerado, simultaneamente, um centro político, jurídico e religioso. Após ser preso Jesus tinha que ser julgado pelo Sinédrio de Jerusalém pois, sendo Judeu, tinha que passar por aquela instância. Todavia, a reunião de seus membros do Sinédrio, durante a noite, para interrogar Jesus, foi apenas uma investigação preliminar, com a finalidade de definir as acusações que poderiam ser formuladas e que mereceriam a pena capital, para apresentá-las, na manhã seguinte contra Jesus, no processo perante o Prefeito romano.

Sabemos, ainda, que o apostolo Paulo, quando preso, temendo que o condenassem a morte, alegou o título de cidadão Romano exigindo julgamento em pela justiça romana, foi o que aconteceu, em parte, tendo ele sido enviado a Roma. Antes disso, o mesmo Paulo havia se indignado por saber que o entendimento sobre a morte e a ressurreição de Jesus Cristo havia sido removido da mente dos Gálatas. Se a lei estava prestes a ser restabelecida na Igreja, a morte de Cristo não havia surtido efeito naquela comunidade.

As palavras de Paulo foram, então, aparentemente duras. Ele, que no passado foi grande defensor da lei e que percebeu ser ela um grande empecilho para enxergar a graça de Jesus, se vê agora fazendo o papel oposto: Mostrar que a graça é superior à lei. Quando Paulo apresentou o Evangelho àquela igreja, a igreja creu na sua pregação, agora distante, ouviu rumores sobre “Outro Evangelho”.

Assim, Paulo confronta os irmãos, argumentando severamente com os Gálatas:

Ó insensatos gálatas! quem vos fascinou para não obedecerdes à verdade, a vós, perante os olhos de quem Jesus Cristo foi evidenciado, crucificado, entre vós? Só quisera saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé? Sois vós tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, acabeis agora pela carne? Será em vão que tenhais padecido tanto? Se é que isso também foi em vão. Aquele, pois, que vos dá o Espírito, e que opera maravilhas entre vós, o faz pelas obras da lei, ou pela pregação da fé? (Gálatas 3:1-5)

O apóstolo Paulo ficou perplexo com a rapidez com que os crentes gálatas haviam se desviado da fé. Eram filhos da fé de Paulo, foram evangelizados e doutrinados pelo apóstolo. Tão depressa se desviaram para seguir a estranhos, e o pior, um evangelho contraditório.

Paulo começa a defesa de seu evangelho relembrando aos Gálatas de que sua vida cristã, que teve início com Cristo crucificado e foi certificada pelo Espírito Santo, estava completamente separada da lei. Eles seriam tolos de abandonar o caminho de Deus e tentar alcançar a perfeição por seus próprios esforços, como vinham fazendo muitos dos judeus do tempo de Jesus, e muitos o fazem até os dias de hoje.

Sobre esse evangelho, cuja ação é questionada, como dom espiritual dos Gálatas, encontramos a mesma argumentação em Galatas 2:7-9. Paulo explica aos Gálatas que sua preferência na obediência da lei significa uma recaída na situação que eles há muito haviam superado. A lei, por sua vez, não pode modificar a superioridade do Evangelho dado por Cristo.

Paulo finaliza esta passagem revelando que o Espírito Santo, que opera milagres, que dá entendimento e que foi concedido mediante a Fé, adquiriu algo que em muito supera a lei (Galatas 3:5). Foi muito difícil para a Igreja primitiva, constituída a princípio de judeus, aceitarem também que a porta da fé foi aberta, igualmente, aos nós gentios. Todos os pactos, a adoção de filhos, as alianças, as promessas, que antes foram dados ao povo judeu, agora passavam aos cristão de todas as raças, línguas e nações: Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência. (Romanos 9:8)

Deus trouxe uma revelação bem clara ao apóstolo Pedro, através daquele lençol que descia do céu, com todo tipo de animais, que para os judeus eram imundos (Atos 10:9-48), que nós gentios também fomos feitos um com eles (Efésios 2:14). Os legalistas desviam os olhos de cristão incautos, da graça de Jesus para a letra morta da lei feita para o velho homem. Entretanto, os gálatas não tinham desculpas, pois Paulo havia lhes deixado bem claro o significado da morte e da ressurreição de Jesus.

Os judeus consideravam Abraão como seu pai e fonte de suas bênçãos espirituais. Eles acreditavam (e muitos ainda creem) que a simples ascendência física de Abraão os torna justos. Paulo mostra que Abraão agradou a Deus pela fé, e não por realizar obras da lei, uma vez que a lei sequer existia na época de Abraão.

Ele também insiste que os verdadeiros filhos de Abraão, e herdeiros da bênção prometida, são aqueles que vivem pelo princípio da fé. Paulo apresenta as alternativas da fé (Gálatas 3:11), e da lei (Gl 3:12) como formas de justificação. Entretanto, ao invés de justificar, a lei mal diz (Gl 3:10), pois ela faz exigências que o homem, de fato, nunca logrou cumprir.


O legalismo está fundamentado no uso inadequado da lei. Quando abraçamos o legalismo, abrimos a porta para a feitiçaria entrar nas nossas vidas. O legalismo libera uma feitiçaria, um fascínio demoníaco (tal qual as abominações do conselho de anciãos que o Espírito de Jeová mostrou a Ezequiel), que se manifesta através da manipulação, da dominação e da intimidação, que roubam nossa sensibilidade e nosso bom senso em relação ao Evangelho.

Ao invés de desenvolver uma comunhão entre os irmãos, o legalismo faz com que os líderes ajam com extrema severidade e, em geral, sem misericórdia. No sei da igreja a pessoa legalista se irrita por questões insignificantes e amorais, fazendo com que a igreja se distraia do seu real propósito. Assim, qual é o fruto do legalismo, se não a morte? Por isso, produzir fruto é uma questão de relacionamento pessoal com Deus, e não de esforço em agradar a homens. Na verdade, o legalismo pode, mesmo, destruir o relacionamento e a unidade do corpo de Cristo.

Que intrigante e curioso é esta passagem de gálatas 3. O Apóstolo Paulo chamando uma Igreja, pessoas ditas evangélicas, chamando "Ò Gálatas insensatos!". Ora, parece uma postura arrogante e provocativa do Apóstolo. A impressão que se tem é que ele estava provocando aquelas pessoas, sendo arrogante, mas não, esta passagem nos mostra o quanto isso indignava Paulo e quanto Jeová os amava por meio dele, porque o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho. (Hebreus 12:6). Ver os gentios que eram selos do apostolado de Paulo vivendo debaixo das obras da lei. Isto indignava o coração daquele Apóstolo.

Alguém pode se perguntar: Uma Igreja que se diz cristã, evangélica pode se tornar insensata? Eu achei que todos os lugares que tem uma placa dizendo “igreja” são bons! São lugares de Deus onde se vive corretamente o evangelho: pode uma igreja se tornar insensata? Porque Paulo está dizendo isto a uma igreja: “vocês são insensatos”? Pode uma igreja se tornar ignorante espiritualmente? Viver algo que não está correto? Tanto pode que isto estava, de fato, acontecendo com os Gálatas.

A verdade a ser aplicada é que a pregação do evangelho tem por objetivo a apresentação de Cristo como o provedor, não apenas da salvação para a vida eterna para os que nele creem, como, também, de uma liberdade superior, desde já, como integrantes da ordem superior, que é o corpo de Cristo. A lição a ser apreendida reitera que pela lei ninguém é justificado diante de Deus, e alerta sobre as distorções teológicas que solapam a fé de muitos, se não estiver sabido, plenamente, que o evangelho é o único meio externo da graça salvadora.

A Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes. (Gálatas 3:22). Se fosse possível o homem ser salvo por meio da lei ou de seus próprios recursos, não haveria necessidade de Jesus, o Salvador, vir ao mundo. Como podeis murmurar, cristãos, duvidando, se aquilo que recebestes é algo que supera, em muito, qualquer coisa que foi recebida, por quaisquer dos outros que temem o nome do Senhor, mas que não atingem reconhecer a glória do seu Cristo?

O cristão foi colocado, em sua conversão, em um excelente lugar: no próprio corpo de Cristo, segundo Paulo já havia escrito aos coríntios (1 Co 12:13). Estando nele, estamos envolvidos na obra que Deus está realizando no mundo, e nessa posição, veremos diversas portas grandes e eficazes de abrindo diante de nós. Deus nos chamou para, por intermédio de nossas vidas, cumprir Seus propósitos soberanos, enquanto aguardamos o retorno do Salvador. Mas não devemos ignorar que teremos oposição, sempre.

A fé nos diz que nós já fomos curados, restaurados, perdoados, a fé nos diz que já somos mais que vencedores, e podemos todas as coisas naquele que nos fortalece, a fé. É justamente a fé, que nos impede, inclusive, também, de tropeçarmos murmurando contra o nosso Deus. Enfim, não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo, que abundantemente ele derramou sobre nós por Jesus Cristo nosso Salvador. (Tito 3:5-6). Acredite, se quiser!

sábado, 3 de março de 2012

Breve História do Cristianismo, da Judeia para Roma e para o Mundo


De fato, não houve grande interferência direta do governo de Roma contra o cristianismo, desde a morte do Senhor Jesus, em 29 d.C. até que o imperador Nero veio a se tornar o primeiro perseguidor romano de cristãos, acusando-os de terem provocado o incêndio de Roma, no ano 64 d.C.

Nesse nada curto período de tempo, que durou cerca de 35 anos, a perseguição contra os cristãos era exercida, essencialmente, pelos judeus. Todavia, quanto mais alastrada e intensa se tornava a perseguição judaica contra os cristãos, por todo império romano, o cristianismo também se alastrava e se fortalecia, ainda mais.

Até se tornar também um cristão, o notável apóstolo de Jesus, Paulo, antes chamado de Saulo de Tarso, um dos principais servidores do sumo sacerdote do Sinédrio que havia condenado Jesus, Caifás, havia sido qualificado como um dos mais zelosos perseguidores de Cristãos. A sua conversão foi resultado de uma fracassada tentativa dele se deslocar desde Jerusalém até a distante cidade de Damasco, a fim de trazer cativo um grupo de cristãos, que se encontravam naquela localidade Síria. Algum tempo antes, Paulo havia participado do martírio do cristão Estevão, e possivelmente, participou também, do martírio de outros cristãos, talvez menos notórios, e não mencionados na Bíblia.

Os judeus manipulavam, com uma certa maestria, as estruturas administrativas locais do Estado romamo. Ao contrário do Estado grego, seu antecessor, que havia sido marcadamente especulativo, o romano era jurídico por excelência. Sem a conivente autorização dos romanos, os judeus não poderiam ter perseguido os primeiros cristão, nestas primeiras três décadas e meia.

Para os judeus, o cristianismo havia nascido como uma seita indesejável, que se desenvolvia no seio do próprio judaísmo. O próprio Jesus, autor e consumador da fé cristã, era, para os judeus, como provável messias, uma grande decepção, que frustrava de modo contumaz as suas circunstanciais expectativas.

As relativas autoridades judaicas da época, esperavam por alguém com uma outra aparência e poder, para ser o líder que libertaria a região da Judeia da dominação romana, um rei poderoso que lideraria, politicamente, os judeus rumo à independência. Contudo, por ser Jesus como era, e se parecer apenas, não mais do que um simples profeta, como muitos dos que já haviam sido, anteriormente, desprezados, os judeus preferiam considerar que Jesus era, tão somente, um blasfemo, e não o messias que ele se autodenominava perante eles.

Como ele apenas pregava a paz, o amor a Deus e ao próximo e a remissão dos pecados, pregando, quase que exclusivamente, para algumas multidões das camadas sociais mais baixas da Judeia, as autoridades romanas não lhe deram grande importância e o consideraram, apenas, como um simples agitador popular, menos importante até, do que um ativista zelote qualquer, os quais, com entusiasmo, rebelavam-se contra o império romano com desejo de expulsá-lo pela força das armas. Todavia, com o período que se iniciou desde a morte de Jesus, foram as relativas autoridades judaicas que, com o mesmo entusiasmo, não deram trégua alguma em perseguir severamente os cristão, e de modo terrível, sempre com a conivência administrativa romana da localidade.

As circunstâncias em que Jesus Cristo, já adulto, teria surgido na cidade de Jerusalém formavam um quadro altamente explosivo, pois, de fato, a Judeia jamais se submetera totalmente ao controle do domínio imperial romano, ocorrendo frequentes sublevações, levando o Estado dominador a uma postura de ações puntuais mais repressivas, em relação à população local, do que aquela que ele praticava em outras regiões mais complacentes com a dominação do império.

Lendo-se os livros apócrifos de Macabeus I e II é possível se constatar que não houve intervalo algum entre o fim da dominação grega e o inicio da dominação romana sobre a região da Judeia. Houve, sim, simplesmente uma substituição imediata de domínios, de modo que os judeus vinham reagindo, mesmo desde antes do início da dominação romana, ainda sob o domínio grego, por meio de movimentos armados, contra a presença imperial estrangeira.

Em 175 a.C., Antíoco IV Epífanes chegou ao trono do império grego Selêucida e iniciou uma campanha de assimilação contra os habitantes da Judeia. Num esforço de unificar os elementos Gregos do seu império, Antíoco determinou a destruição da fé Judaica e a helenização dos Judeus. Um Édito foi publicado impondo os rituais religiosos aos Judeus em Jerusalém, sob pena de morte.

O sacerdote Matatias, recusou publicamente a adotar o helenismo, e iniciou uma revolta, escapando de Jerusalém, primeiramente para a aldeia de Modin, e depois para o deserto, levando consigo outros combatentes. Com a morte de Matatias, seus filhos Judas, cognominado "macabeu", e depois da morte deste, Jônatas, assumem a liderança do movimento de revolta e conseguem importantes conquistas e impõem uma certa liberdade a Israel frente à dominação grega e acabam por conseguir restabelecer o culto, purificado e dedicando novamente o Templo de Jerusalém, em 165 a.C..

Todavia a história do livro de Macabeus é bastante clara em mostrar que foi apenas após uma aliança ocorrida entre os macabeus e os romanos, uma aliança defensiva com o senado romano, e contra os gregos, que permitiu expelir definitivamente os invasores helenistas, o que pôs um termo, ao movimento guerrilheiro liderado por Judas Macabeu, filho de Matatias, e de seus irmãos. Paralelamente a isso, ocorria que do ponto de vista militar, a Grécia havia entrado num declínio tal, que os romanos conquistaram todo o seu território, de 168 a.C. em diante, ainda que, em contrapartida, a arte, a cultura e a religião grega, é que houvessem, de fato, conquistado os romanos.

Na Judeia, sucedendo ao terceiro irmão Macabeu, Simão, encontramos o filho deste, João Hircano, que consolida o poder em suas mãos realizando ainda mais alianças com Roma e outros impérios de sua época. Essa dinastia, a dinastia da casa de Matatias, conhecida como "asmoneus", passa governar a Judeia. Para governar, João Hircano e seus sucessores, usurpam tanto o título de etnarca como o de sumo-sacerdote. Os assideus, alarmados com as ambições dos Asmoneus e com o caráter secular que assume o seu reinado, rompem com eles. Segundo este grupo, ao se fazer sacerdote sem possuir o direito de família os Asmoneus cometem uma terrível falta. Isto gerou a ruptura profunda entre os descendentes dos Assideus (fariseus e essênios) e o partido ligado aos asmoneus (saduceus), os três partidos judaicos que então se formam.

Não obstante ao fim do domínio do helenismo grego sobre a Judeia, as diversas controvérsias entre os partido judaicos, agravado por dissidências internas, de continuo mantinham os judeus enfraquecidos como nação e o seu reino, agora sob o permanente olhar rapinante da águia romana. A questão a ser levantada aqui é: O que o povo judeu supunha ter em haver com a politeísta idolatria estatal romana, que não fosse a mesma coisa que tivesse em haver com o panteísmo helênico dos gregos?

A Roma cuja fama empolgara os macabeus, levando-os a buscar com ela aquele pacto, mas sem consultar a Deus (ver Capitulo 8 do livro apócrifo I Macabeus), agora era o que se tornava em ameaça maior. O fato é que, em 64 a.C., em meio a um novo acirramento das disputas internas dos judeus, o general romano Pompeu marchou com suas tropas, invadiu e conquistou Jerusalém e fez do débil reino judeu um estado vassalo de Roma.

Entre 57 a.C. e 55 a.C., Aulo Gabínio, procônsul da Síria, dividiu o antigo reino em Galileia, Samaria e Judeia, com cinco sinédrios (côrte de juízes). Em 40-39 a.C. Herodes, o Grande foi apontado Rei dos Judeus pelo senado romano, no entanto em 6 d.C. seu sucessor e filho, Herodes Arquelau, etnarca da Judeia, foi deposto pelo imperador romano Augusto.

A deposição de Herodes Arquelau (4 a.C. - 6 d.C.) como governante do reino a Judeia, foi o primeiro grande acontecimento histórico envolvendo o povo judeu, após o nascimento de Jesus e a frustrada tentativa daquele rei, de eliminar a vida de Jesus, enquanto Jesus ainda era pequeno, por ordenar a matança dos inocentes referida nos evangelhos. Mas o messias sobrevivera, porquanto Deus havia escolhido o momento perfeito para a sua vinda.

O cruel e despótico Arquelau, foi banido para a Gália e os territórios que ele antes governava, a Judeia e a Samaria, foram anexados à administração romana direta, estabelecida em Cesareia, enquanto que em Jerusalém, foi sediado um destacamento militar sob o comando de um tribuno, aquartelado na Torre Antônia, no ângulo nordeste do Templo.

Esse fato marcou o fim de Judá como um reino, mesmo que apenas teoricamente independente, e mostraram ainda que, as promessas da aliança entre Roma e os Macabeus, jamais se cumpriram, de modo efetivo, simplesmente porque, muito embora Judas Macabeu tivesse ficado deveras impressionado com os relatos que ouviu, sobre a grandeza daquele império diante das nações do mundo, ele, por infelicidade, perdera o olho singelo, por não ter buscado consultar ao Senhor Jeová sobre um assunto tão importante, de modo que a aprovação de Deus, jamais esteve presente naquela aliança, muito embora, quisesse Roma ou não, gostasse ela ou não, daquela ocasião em diante, ela passaria a ter uma participação mais ativa, no contexto dos planos de Deus.

Anos mais tarde, um dos irmãos de Arquelau, Herodes Antipas, tetrarca da Galileia, foi o responsável pela prisão do profeta João Batista, e, posteriormente, também pela sua morte, por causa de Herodias, a ex-mulher de um outro seu irmão, Herodes Filipe. Herodias, por ambição de se tornar rainha deixara o marido para viver com Antipas em 27 d.C. e por isso era censurada por João Batista. Ardilosamente provocado á lascívia por sua sobrinha Salomé, a mando da mãe, Herodias, durante o festejo da celebração de seu próprio aniversário, Antipas acabou por concordar em executar a morte João Batista, a quem já mantinha em cárcere. João o Batista era seis meses mais velho que Jesus e seu primo, consanguíneo, em segundo grau.

Foi em meio a esse clima politicamente tenso que Jesus procurou exprimir uma mensagem baseada no amor ao próximo, no perdão às ofensas e no desapego aos bens materiais. Tal mensagem em nada ameaçava o domínio romano, mesmo porque, segundo os evangelhos, Jesus sempre enfatizou que a sua pregação nada tinha de política, e que o reino a que ele se referia, não era um reino terrestre.

No entanto, assim como as autoridades romanas buscavam formas de fazer agrados para com as corrompidas autoridades judaicas, também a recíproca precisava ser verdadeira. A tolerância romana quanto a liberdade de culto judeu no templo de Jerusalém, precisava ser compensada com os judeus dando lugar a liberdade de cultos estrangeiros em suas cidades. Por isso, de um lado, Antipas, homem de ânimo doble, fazia concessões à cultura dos gentios romanos, mas por outro cultivava a tradição religiosa judaica, deslocando-se, anualmente, de Tiberíades para Jerusalém, onde participava das festividades da Páscoa (Pessach). Desde modo foi que Jesus, já adulto, irritado, encontrou o templo profanado, enquanto casa de oração para todas as nações.

Tiberíades, foi mandada construir por Herodes Antipas, em homenagem ao imperador romano Tibério , exclusivamente para ser a capital da Galileia e sua construção foi acelerada, por contribuições romanas, sendo concluída em apenas dois anos. O historiador judeu Flávio Josefo escreveu sobre a população original de Tiberíades, com evidente desprezo, pela gente que Antipas implantou ali, vinda de todas as partes do império.

A dominação romana da Judeia, apesar de aparentemente tolerada pelas autoridades relativas judaicas, como fato estabelecido e consumado, continuava sendo, no fundo, algo extremamente detestável à consciência judaica da época de Jesus. No entanto, uma dissidência dentro da própria religião do judaísmo, como aquela a que se aparentava a pregação de Jesus, e ainda trazendo o desalento da decepção com respeito às expectativas sobre do messias pela ótica judaica de então, era algo ainda mais abominável àquela mesma consciência.

Já, para os romanos, o conturbado caráter político da região da Judeia, aliado à característica postura romana de combater sistematicamente o surgimento de toda e qualquer grande liderança que pudesse vir ofuscar o predomínio do Império, poderiam fazer de Jesus, um inimigo potencial para Roma. Todavia, o fator realmente preponderante, foi a atitude comum do Estado romano, de procurar, sempre, aliar-se às elites das áreas dominadas, utilizando-as como um elemento de controle sobre os setores populares.

Tal atitude significava mais do que simplesmente a manutenção do império, pois provia um instrumento adequado de expansão do mesmo. Dessa forma, a condenação imposta a Jesus pelos romanos foi, de fato, um ato de simpatia para com as autoridades religiosas judaicas, que já o haviam repudiado como blasfemo.

Segundo os Evangelhos, Jesus foi preso não pelos romanos, mas sim, pelo judeu e amigo Judas, acompanhado de um destacamento de soldados e dos oficiais dos principais sacerdotes e dos fariseus, com tochas, lâmpadas, e armas. A gota d'água, para Caifás e outros dos principais senhores do sinédrio, já havia sido a ocasião da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, montado em um singelo jumentinho, sob as saudações de vivas do povo, clamando "Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor! Bendito o reino que vem, o reino de nosso pai Davi! Hosana nas alturas!". Tendo Jesus entrado em Jerusalém, foi ao templo.

Assim Jesus foi levado, detido, para interrogatório. Todavia as autoridades judaicas sabiam não poder condená-lo por si sós e nem ao menos detê-lo, por muito tempo, sem que houvesse um tácito, porém manifesto, consentimento por parte da administração romana.

Com urgência, as autoridades judaicas, ora virtualmente submissas às leis romanas, encaminham o detento Jesus ao governador Romano, sob acusações de blasfêmia. Numa sequência de eventos aparentemente tumultuadas, porém manobrada pelas autoridades judaicas, Jesus foi entregue a tortura, a mando do procurador romano Pôncio Pilatos e por fim, ainda por instância dos judeus, Jesus foi condenado à morte por cruz (ou por estaca) no ano de 29 d.C.. A morte de Jesus foi executada pela administração romana, pois as autoridades judaicas relativas, não tinham poder de executar sentenças de morte em seu próprio território, por estarem sob o governo romano.

O apóstolo e médico Lucas é quem narra com maiores detalhes os fatos ocorridos, no capitulo 23 de seu escrito evangélico:

"E levantando-se toda a multidão deles, conduziram Jesus a Pilatos. E começaram a acusá-lo, dizendo: Achamos este homem pervertendo a nossa nação, proibindo dar o tributo a César, e dizendo ser ele mesmo Cristo, rei. Pilatos, pois, perguntou-lhe: És tu o rei dos judeus? Respondeu-lhe Jesus: É como dizes. Então disse Pilatos aos principais sacerdotes, e às multidões: Não acho culpa alguma neste homem.

Eles, porém, insistiam ainda mais, dizendo: Alvoroça o povo ensinando por toda a Judeia, começando desde a Galileia até aqui. Então Pilatos, ouvindo isso, perguntou se o homem era galileu e, quando soube que era da jurisdição de Herodes, remeteu-o a Herodes (Antipas), que também naqueles dias estava em Jerusalém (para a ocasião da festividade da páscoa).

Ora, quando Herodes viu a Jesus, alegrou-se muito; pois de longo tempo desejava vê-lo, por ter ouvido falar a seu respeito; e esperava ver algum sinal feito por ele e fazia-lhe muitas perguntas; mas ele nada lhe respondeu.

Estavam ali os principais sacerdotes, e os escribas, acusando-o com grande veemência. Herodes, porém, com os seus soldados, desprezou-o e, escarnecendo dele, vestiu-o com uma roupa resplandecente e tornou a enviá-lo a Pilatos. Nesse mesmo dia Pilatos e Herodes tornaram-se amigos; pois antes andavam em inimizade um com o outro.

Então Pilatos convocou os principais sacerdotes, as autoridades e o povo, e disse-lhes: Apresentastes-me este homem como pervertedor do povo; e eis que, interrogando-o diante de vós, não achei nele nenhuma culpa, das de que o acusais; nem tampouco Herodes, pois no-lo tornou a enviar; e eis que não tem feito ele coisa alguma digna de morte. Castigá-lo-ei, pois, e o soltarei. [E era-lhe necessário soltar-lhes um pela festa.]

Mas todos clamaram à uma, dizendo: Fora com este, e solta-nos Barrabás! Ora, Barrabás fora lançado na prisão por causa de uma sedição feita na cidade, e de um homicídio. Mais uma vez, pois, falou-lhes Pilatos, querendo soltar a Jesus. Eles, porém, bradavam, dizendo: Crucifica-o! crucifica-o!

Sedição significa: Perturbação da ordem pública; agitação, sublevação, revolta, motim, de modo que Barrabás, era um criminoso político no julgamento dos romanos mas, não o era para os judeus. Assim, Jesus foi torturado pelos romanos e, por fim, crucificado.

Antes do por do sol daquele mesmo dia, por intercessão do então ainda judeu, José de Arimateia, Jesus foi sepultado, segundo o costume dos judeus, por que ele era judeu, porém, com respeito a lei mosaica relativa aos delinquentes que são condenados a morte, como narrado em Mateus 27:59-

"E José, tomando o corpo, envolveu-o num pano limpo, de linho, e depositou-o no seu sepulcro novo, que havia aberto em rocha; e, rodando uma grande pedra para a porta do sepulcro, retirou-se.  Mas achavam-se ali Maria Madalena e a outra Maria, sentadas defronte do sepulcro.

No dia seguinte, isto é, o dia depois da preparação, reuniram-se os principais sacerdotes e os fariseus perante Pilatos, e disseram: Senhor, lembramo-nos de que aquele embusteiro, quando ainda vivo, afirmou: Depois de três dias ressurgirei. Manda, pois, que o sepulcro seja guardado com segurança até o terceiro dia; para não suceder que, vindo os discípulos, o furtem e digam ao povo: Ressurgiu dos mortos; e assim o último embuste será pior do que o primeiro.

Disse-lhes Pilatos: Tendes uma guarda; ide, tornai-o seguro, como entendeis. Foram, pois, e tornaram seguro o sepulcro, selando a pedra, e deixando ali a guarda." Mas Jesus ressuscitou como havia sido predito.

Por isso, ao vencer a sua própria morte, com a sua ressurreição, Jesus não apenas destruiu o poder da morte sobre toda a humanidade em si, mas superou também a própria lei e selou o estabelecimento uma nova aliança entre Deus e os Homens, a qual, todo ser humano existente na face da terra, passou a ter direito de escolha do perdão da parte de Deus.

Após ser preso e morto, a tendência esperada, compartilhada tanto por romanos, e mais ainda por judeus, era a de que seus seguidores se dispersassem e seus ensinamentos fossem, aos poucos, esquecidos. Todavia, por obra de um poder que os romanos nunca antes haviam conhecido e que os judeus já haviam esquecido quase que por completo, o Espírito Santo de Deus, ocorreu justamente o contrário.

É justamente nesse fato que se assenta a fé cristã. Como haviam antecipado os profetas no Antigo Testamento, Jesus, o Cristo, ressuscitou, apareceu a seus apóstolos, que estavam escondidos e temerosos e ordenou que se espalhassem pelo mundo pregando sua mensagem de amor, paz, restauração e salvação, a toda criatura. Durante as primeiras três décadas e meia da sua existência, em que o cristianismo foi, de contínuo, severamente perseguido e combatido pelo judaísmo, o governo romano esteve sempre em conveniente conivência, tentando agradar as autoridades dos judeus. Só mesmo um Espírito de poder sobrenatural verdadeiro e santo, poderia mover uns poucos humanos obedientes, acuados e simplistas, mesmo debaixo de tribulações, a agir de uma maneira tal, a causar a maior revolução libertadora de todos os tempos.

Neste período, o cristianismo se espalhou a ponto de, partindo da Judeia, já ter atingido a própria capital do império, Roma, para onde fora levado, notadamente, por prosélitos cristãos, principalmente os convertidos de origem étnica judaica. Estes, invariavelmente pertencentes às classes sociais mais baixas, que uma vez tornados cristãos conversos, viam na situação de tornarem-se empregados, servos ou mesmo escravos de senhores em Roma, melhores condições do que aquelas que existiam em se permanecer na miséria e tribulação, que lhes era infringida pela perseguição que sofriam vivendo na Judeia, que chegava ao ponto de lhes ameaçar, frequentemente, a própria vida.

Nesta época, em Roma, ainda não havia judeus em número muito considerável, principalmente para causar manipulação local contra os cristãos, devido ao genuíno ódio que os cidadãos judeus comuns nutriam por Roma, e assim, os cristãos podiam gozar, a princípio, de relativa liberdade e dignidade ali. Porém, a cumplicidade corrupta entre as autoridades judaicas e romanas continuava.

A queda de Herodes Antipas começou quando seu sobrinho, Herodes Agripa I, que herdara a tetrarquia da Traconítida (região histórica do antigo Israel, ao sul de Damasco, incluindo as montanhas Antilíbano e Batanea. Significa "região pedregosa.") de Filipe, foi reconhecido como rei pelo imperador romano Calígula.

Influenciado por Herodias (a mesma que causou morte de João Batista), Antipas foi a Roma para exigir a mesma honraria. Mas Agripa antecipou-se a ele, fazendo chegar uma mensagem ao imperador, onde acusava o tio de conspirar com os Partos, inimigos do Império Romano. Chegando a Roma, Antipas não somente teve suas pretensões negadas, como ainda perdeu sua tetrarquia (da Galileia), que foi entregue, em acúmulo, a Agripa. Exilado para Lião (Gália), em 39 d.C., Antipas, veio a morrer nesse mesmo ano.

Isso sucedeu dessa forma pois, desde a idade de 6 anos, após o assassínio de seu pai, Agripa I, havia sido criado em Roma, na corte do imperador Tibério, e havia tido a oportunidade de crescer como companheiro íntimo do futuro imperador Calígula e era também muito extrovertido e dado a boas relações com toda sorte de gente importante da corte romana. Entregando-se a uma vida dissoluta, desperdiçando todo o dinheiro que sua mãe lhe deixara, na busca desenfreada de prazeres exóticos, passou a ser perseguido pelos credores, de quem tomara altas somas emprestadas, a altos juros, viu-se obrigado a deixar Roma e a refugiar-se junto ao tetrarca Herodes Antipas, que concedeu-lhe apenas um modesto emprego de comissário comercial em Tiberíades.

De volta a Roma, Agripa caiu nas boas graças de Antônia, mãe de Cláudio e avó de Calígula, que lhe emprestou a quantia necessária para resgatar seus débitos pendentes. Algum tempo depois, uma conversa descuidada em uma carruagem, custou-lhe seis meses de liberdade. Ele comentara com Calígula, que seria bom que Tibério não demorasse a morrer, para que seu companheiro assumisse logo o trono. O comentário foi escutado pelo cocheiro e repassado ao Imperador.

Tibério morreu seis meses mais tarde e Calígula tomou seu lugar, mandando soltar Agripa e, como forma de compensação, nomeou-o rei dos territórios que tinham sido as tetrarquias de seu tio, Felipe, falecido em 37 d.C., e de Lisânias, compreendendo os distritos nordeste da Palestina e as áreas setentrionais em volta do monte Líbano. Agripa permaneceu mais um ano em Roma antes de assumir seu reino, mas quando o fez, promoveu uma volta triunfal, só pelo prazer de ver sua irmã e o marido, roerem-se de inveja.

Quando Calígula foi assassinado, em 41 d.C., Agripa estava, lá mais uma vez, visitando Roma e desempenhou um papel importante nas negociações entre os militares e os senadores, que desembocaram na confirmação de Cláudio, como novo imperador. Agradecido, Cláudio concedeu-lhe o governo da Judeia, Samaria e da Idumeia, que eram uma província romana desde a deposição de Herodes Arquelau, acumuladas as que agripa já tinha por direitos anterior.

Desse modo, apesar de ter sido tudo sob as benesses romanas, reconstituiu-se o reino que Herodes, o Grande, construíra e que fora desmembrado após sua morte. Parecia que que Agripa I tinha tudo em mãos para realizar "a grande virada judaica", que era o que os Judeus, mesmo após Jesus, continuavam esperando de um messias. Mas quando Agripa I decidiu construir novas muralhas em Jerusalém, teve que interromper as obras, por ordem de Cláudio. O historiador Josefo afirma que, se as obras fossem completadas, elas teriam tornado a cidade inconquistável.

Agripa morreu repentinamente, de complicações abdominais, após cinco dias de agonia, em 44 d.C., sob suspeitas de ter sido envenenado, porém a Bíblia nos narra o que realmente ocorreu: " ... por aquele mesmo tempo o rei Herodes [Agripa] estendeu as mãos sobre alguns da igreja, para os maltratar; E matou à espada Tiago, irmão de João. E, vendo que isso agradara aos judeus, continuou, mandando prender também a Pedro." (Atos 12:1-3).

Porém, Pedro foi liberto da prisão em pouco tempo, pela ação do poder sobrenatural de Deus, antes mesmo de tomar conhecimento do assassínio de Tiago, e antes também que Herodes Agripa pudesse ter tido a oportunidade de lançar mãos dele. Agripa, contrariado, deixa Jerusalém e retorna a Cesareia, e pelo mesmo poder que libertou Pedro, sucedeu que: " ... num dia designado, vestindo Herodes as vestes reais, estava assentado no tribunal e lhes fez uma prática. E o povo exclamava: Voz de Deus, e não de homem. E no mesmo instante feriu-o o anjo do Senhor, porque não deu glória a Deus e, comido de bichos, expirou. E a palavra de Deus crescia e se multiplicava." (Atos 12:21-24).

Assim, Agripa se fora e enquanto "a palavra de Deus crescia e multiplicava", em três décadas e meia de contínua migração, facilitada pela inexistência de fronteiras dentro do império e pela necessidade da capital por mão de obra escrava ou de servidores de baixo custo, e ainda com a multiplicação das conversões de cristãos na própria Roma, crescendo admiravelmente muito rapidamente em número, os cristãos passaram a chamar para si, a atenção do Estado romano.

De início, professado apenas pelos descendentes de judeus que viviam na periferia de Roma, o cristianismo logo difundiu-se, primeiramente pelas camadas mais pobres da população, especialmente entre os escravos, e pouco a pouco foi evoluindo, até passar a atingir também os cidadãos e mesmo algumas famílias da nobreza romana e se tornar, consequentemente, alvo de preocupação por parte do Estado, pois, afinal, eles pregavam uma total submissão apenas a Deus, e não ao império e ao imperador romano.

Além do mais, a presença do apóstolo Pedro, e por fim, também do apóstolo Paulo, em serviço missionário ali em Roma, estimulou, ainda mais, os cristãos a se multiplicarem e a começarem uma certa forma de organização de estrutura de serviço, maior e mais eficiente do que aquela experimentada, originalmente, em Jerusalém. Era frequente a necessidade da comunidade cristã de Jerusalém, de ajuda material por parte das comunidades cristãs que vinham surgindo em outras localidades.

Contudo, em Roma, por fim, aconteceu de o imperador Nero dar inicio a perseguição romana direta contra os cristãos, no ano 64 d.C.. Tal primeira perseguição durou quatro longos e terríveis anos, e, sob ela, tanto o apóstolo Pedro quanto Paulo, pereceram. Concomitantemente, a força da perseguição da parte judaica contra os cristão entrava em colapso, pois a partir de 66 d.C. com deflagração da revolta dos judeus em Jerusalém contra os romanos, que se espalhou por toda a Judeia, as autoridades Judaicas já não contariam mais com as benesses do Estado. Nesta ocasião os cristão que ali ainda restavam, sabiamente, se lembrando dos avisos proféticos de Jesus, se mobilizaram em grande número, para se afastar da região do conflito, antecipadamente.

Jerusalém foi sitiada e finalmente atacada pelos romanos em 70 d.C., com um saldo de mais de 100.000 mortos, tendo sido destruído, inclusive, mais uma vez, o templo de Jerusalém. Toda a região da Judeia continuou sendo varrida e arrasada pelos romanos, com grande parte da sua população sendo ou dizimada ou dispersa para fora da região, até nos três anos seguintes.

A perseguição romana contra os cristãos, e agora também, igualmente contra os judeus, voltaria a se acentuar, ainda mais, no reinado de Domiciano, notadamente de modo cruel, a partir do ano 92 d.C..

Todavia, isso não conseguiu impedir que, pouco a pouco, o espírito legalista típico do estado romano fosse se afirmando também na formação da subsistente comunidade cristã de Roma, dando-lhe uma ênfase cada vez maior na organização das estruturas eclesiásticas, a ponto de, entre os anos de 88 a 97 d.C., os cristãos de Roma, infelizmente, sentirem-se com força organizacional o bastante, para passar a dar o troco aos judeus que outrora os perseguiam, com Clemente, Bispo de Roma, terceiro sucessor do apóstolo Pedro, responsabilizando-os pela persecução que Nero havia impingido contra os cristãos. Por causa da atuação moderadora de Clemente, em uma crise da comunidade cristã de Corinto, para a qual ele escreveu uma longa e importante epístola, os cristão de Roma, mais tarde, viriam a reclamar a primazia da sua sede, Roma, sobre todas demais comunidades de cristãos.

A agora enraizada e justificada perseguição e o desprezo contra os cristãos por parte do Estado romano, persistiu por longo tempo, variando de intensidade de tempos em tempos. A recusa dos cristãos em aceitar o culto da divindade do imperador foi, para os romanos, com toda probabilidade, a base jurídica de tais seguidas perseguições. Clemente foi preso no reinado de Trajano e condenado a trabalhos forçados. Por continuava a atuar na conversão de outros presos, foi por isso martirizado, em 101 d.C..

Já, a primeira perseguição que envolveu todo o território imperial aconteceu sob o governo de Maximino, apesar do fato de que apenas o clero tenha sido visado. Foi somente sob Décio, em meados do segundo século, que a perseguição generalizada – tanto ao clero quanto aos leigos – tomou lugar em toda a extensão do Império. Gregório de Tours trata deste tema em sua História dos Francos, escrita no final do século VI:

“Sob o imperador Décio, muitas perseguições se levantaram contra o nome de Cristo, e houve tamanha carnificina de fiéis que eles não podiam ser contados. Bábilas, bispo de Antioquia, com seus três filhos pequenos, Urbano, Prilidan e Epolon, e Sisto, bispo de Roma, Laurêncio, um arquidiácono, e Hipólito tornaram-se perfeitos pelo martírio porque confessaram o nome do Senhor."

Apesar de confundir as épocas de perseguição (pois menciona, ao mesmo tempo, personagens que foram martirizados sob Maximino, Valeriano e Décio), o testemunho de Gregório mostra o quanto o tema da perseguição marcou o imaginário da Igreja nos primeiros séculos. As perseguições estatais seguintes foram inconstantes até o terceiro século, apesar do "Apologeticum" de Tertuliano, de 197 d.C., ter sido escrito ostensivamente em defesa de cristãos perseguidos e dirigido aos governantes romanos.

Todavia, mesmo debaixo de perseguição e adversidade, o cristianismo continuava sempre crescendo. No período de reinado do imperador Diocleciano, houve um clímax persecutório, no qual, a agora já muito bem organizada igreja de Roma, passou por um momento de terrível perseguição. O imperador fez mais essa tentativa, entre os anos de 303 a 305 d.C. de suprimir o cristianismo, por suprimir a igreja, eliminando tanto clérigos quanto leigos, e mais uma vez foi um fracasso.

Para saber muitos mais detalhes sobre as várias perseguições aos cristãos ocorridas sob o Império Romano, veja o excelente documentário: Documentário Espelho dos Mártires

Assim, a igreja de Jesus Cristo sofria de perseguição m perseguição, até que aconteceu um fato divisor de águas: Diocleciano abdicou do trono, e seus quatro generais, que governavam regiões administrativas, entraram em guerra. Os dois generais que mais tinham possibilidade de chegar a ser imperador eram Constantino e Magêncio. A vitória de Constantino sobre Magêncio, na Batalha da Ponte Mílvio, em 28 de outubro de 312 d.C., perto de Roma, a qual Constantino, posteriormente, atribuiu ao Deus cristão, explicando, na noite anterior à batalha, ele havia sonhado com uma cruz, e que nela estava escrito: “In hoc signo vinces”, do latim que significa: "Sob este símbolo vencerás".

A partir de Constantino tornado imperador, em 313 d.C., os imperadores passaram a “proteger e estimular cada vez mais a fé cristã”, promovendo uma crescente fusão entre a igreja e o estado, nas qual muitos ajustes, de ambos os lados, foram feitos para que cada um se adaptasse às necessidades do outro, até que, na época de Teodósio I, em 380 d.C., o Império Romano tornou-se oficialmente um “estado cristão”.

Muito embora aquela aparentemente conveniente “conversão estatal”, em seguida o império romano continuaria com o seu já existente declínio, caminhando, até mesmo, ainda mais rapidamente para a sua ruína, até que por fim a humanidade ocidental, herdeira do legado do império romano, passou a entrar num longo período de obscurantismo histórico, com a queda de Roma a partir de 476 d.C..

Isso ocorreu, não que o cristianismo, em si, causasse o declínio do império romano pois, no início do século IV apenas de 5% a 7% dos romanos tinham se tornado cristãos, e, por essa época, em sua grande maioria, estes estavam vivendo na parte Oriental do império, exatamente o lado que permanecerá mais forte e estruturado durante a crise final do século V.

Já, no século III, que havia sido a fase mais aguda de crise econômica e social, enquanto os cristãos, embora bastante organizados, ainda não passavam de uma minoria que se reuniam nas catacumbas da Capital, nas fronteiras de expansão do império, as elites dirigentes das legiões romanas e suas ações em consonância com as estratégias oficiais do estado, exigiam um número incessantemente crescente de soldados, de elevação de soldos e recursos para as guerras.

Por outro lado, houve ainda uma diversificação cultural e religiosa, que a sociedade romana expandida experimentou, após o contato com as populações das colônias e com a naturalização dos bárbaros. Tal fato possibilitou à população insatisfeita do núcleo do império, passar a duvidar da influência dos deuses oficiais greco-romanos nas decisões políticas, explicação que até então legitimava o poder do império e do imperador, levando um bom número deles a buscar adesão a crescente religião cristã.

O fato é que, depois das dificuldades experimentadas do século III, vários imperadores procuraram centralizar ainda mais o Estado, a fim de obter um maior controle dos cidadãos de um tão vasto império, agora existentes em grande diversidade sócio cultural e religiosa, para que deste modo fosse mais fácil mobilizar os enormes recursos humanos e financeiros para defender, sem em nada abrir mão, a estupidamente expandida fronteira do império e o fragilizado núcleo imperial, e, principalmente, unificar isso tudo em torno de uma ideologia única.

Com Constantino I, passou-se a eleger o cristianismo, devidamente fundido e adaptado, de maneira discreta, à antiga religião greco-romano oficial do Estado, como a religião capaz de produzir aquele desejado monopólio ideológico unificado. Afinal de contas, o cristianismo era, de fato, contra todas a possibilidades e expectativas, a religião que mais crescia, e passava a influenciar a nata romana, mesmo debaixo de adversidades.

Creio que Roma foi devorada por si própria e por seu incessante e compulsivo desejo expansionista e, eu, particularmente não creio, que imperador romano algum, que tenha vivido até a queda do império do ocidente, efetivamente tivesse crido, verdadeiramente, no Deus dos cristãos, e, principalmente enxergado, que a real fonte de sucesso do cristianismo, contra todas as adversidades as quais ele era submetido, era o poder daquele mesmo Deus.

Roma, enquanto Estado imperial, tentou “usar” em seu benefício o cristianismo, mas o cristianismo era algo que até então as elites romanas, verdadeiramente, não entendiam e nem sequer conheciam ao certo. Por isso, não é de estranhar não ter obtido exito em extrair o efeito expectado disso.

O fato é que Roma estava se condenando, por não vislumbrar a possibilidade de retroceder em sua política de expansão já realizada e, nem mesmo o “esforço final” de “absorção” do cristianismo ocorrido, apesar de dar algum alento e sobrevida, de modo algum conseguiu reverter a falência final do império.

Durante toda a “Pax Romana” a instituição militar tinha se visto orientada para múltiplos objetivos. Além da defesa fronteiriça de mais de 9000 Km, da fortificação de pontos estratégicos, construção de estradas e segurança pessoal das mais altas magistraturas imperiais, transmitir elementos da cultura, religião e língua latina às regiões onde se fixavam as guarnições militares, bem como a criação de condições favoráveis para o desenvolvimento das economias locais, a sua presença impunha o respeito e a aceitação incondicional da soberania de Roma: assim era a paz romana.

A manutenção da paz e da estabilidade no mundo romano era atribuída aos militares como tarefa primordial e de grande importância: Era uma paz armada e atingível apenas com a presença das legiões. Essa era a única forma de assegurar uma harmonia mínima e a articulação entre o poder imperial e as vastas regiões a governar, servindo de instrumento de apoio à execução de medidas de carácter administrativo, todavia, de maneira notória, isso também fez com que o império, de modo inevitável e continuamente, consumisse a si próprio, em termos de recursos.

Por outro lado, influenciada pelos decretos da oficialização e da resultante “adaptação” que propiciariam a “liberdade” de culto e de manifestação, “o cristianismo”, ou melhor, a agora oficialidade do cristianismo, a igreja, passou, de modo infeliz, a tornar-se, para alguns, veículo de promoção social e de meio para a obtenção de cargos e benefícios públicos.

Na medida em que essa nova nomenclatura romana de “fé cristã” se consolidava como religião, os territórios onde ela “desabrochava”, dividiram-se em dioceses e paróquias, à frente dos quais foram postos bispos e párocos, sob a chefia do papa, sucessor de Pedro e bispo de Roma, a capital, e agora sob as benesses diretas do Estado romano em decadência.

Assim, como religião oficial e marcadamente urbana que se tornara a partir de fins do século IV, os demais cultos “não ajustados” que existiam, notadamente, nas regiões mais remotas e de fronteira do império, passaram a ser severamente perseguidos, ainda nas derradeiras décadas do moribundo império. Por conseguinte, os seguidores das várias diversificações de paganismo bárbaro, tiveram que se refugiar na zona rural, donde vem o uso costumeiro do termo “pagão”, de modo generalizado, a essas populações. Pagão significa tão somente habitante do campo.

A perseguição sofrida pelas mãos desses “cristãos oficiais do império romano” era exercita, em concomitância, com as ações puramente militares de manutenção da fronteiras do império e de mobilização forçada de recursos em colonias insubmissas, de um modo cruel e pernicioso. Curiosamente, o primeiro grande saqueador de Roma, o rei Visigodo Alarico I, havia recebido treinamento militar romano para atuar como comandante de tropas auxiliares a serviço do próprio império, antes de rebelar-se e promover três cercos a capital, até saqueá-la, em 410 d.C.

Isso fez com que os povos bárbaros aprendessem, inicialmente a reagir, pela força das armas, com maior consistência pelo uso de táticas essencialmente de guerrilhas, contra as incursões das legiões romanas, para em seguida, se organizarem a ponto de poderem partir para o contra-ataque e para o ataque, que desferiu os golpes finais que encerram com a existência do “império romano cristão do ocidente”.

Porém, após o fim do império, o agora “poluído” cristianismo, pela sua nomenclatura centrada em Roma e seu culto ritualístico deformado, sobrevivera, e até se arvorava herdeiro do império vencido, passando de perseguido a perseguidor, continuaria a crescer nas sombras do obscurantismo da idade média, e ainda teria, para o bem e para o mau, muita história para escrever, arvorando-se muitas vezes, de modo truculento, do nome de Jesus.

A mensagem da verdade da nova aliança, é e sempre foi a mesma: “Por meio disso saberão que sois meus discípulos, se tiverdes amor entre vós” Jo 13:35 e Jesus vai além, desafiando a nossa condição imperfeita e nos mostrando que é mesmo debaixo dela que devemos buscar santidade: “Ouvistes que se disse: ‘Tens de amar o teu próximo e odiar o teu inimigo.’ No entanto, eu vos digo: Continuai a amar os vossos inimigos e a orar pelos que vos perseguem; para que mostreis ser filhos de vosso Pai, que está nos céus, visto que ele faz o seu sol levantar-se sobre iníquos e sobre bons, e faz chover sobre justos e sobre injustos. Pois, se amardes aos que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem também a mesma coisa os cobradores de impostos? E, se cumprimentardes somente os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não fazem também a mesma coisa as pessoas das nações? Concordemente, tendes de ser perfeitos, assim como o vosso Pai celestial é perfeito." Mt 5:43-48

Sob a nova aliança de Jesus, nenhum ato mais de violência, de qualquer espécie, se justifica, por mais elevados que possam parecer os objetivos ou intenções a estes associados. Na nova aliança, tudo é sugerido, nada exigido e, consoante a isso, assim também deve ser os salutares propósitos evangélicos que um cristão coloca em seu próprio coração.

Deste modo, por exemplo, acontecimentos aparentemente positivos para o desenvolvimento da "igreja", como o da ordem de fechamento da academia platônica de Atenas, por mandado do imperador bizantino Justiniano, no ano de 529 d.C. trouxeram, efetivamente, nenhuma glória para o nome de Deus. Comparativamente com aquilo que se nos pareceu um discurso frustrado, louco e solitário, proferido pelo apóstolo Paulo, aos atenienses no Areópago, séculos antes, de fato, a determinação de Justiniano foi, deveras, contraproducente para o serviço do reino de Deus. Neste segundo evento, embora falando a uma plateia, por cultura e por orgulho, notadamente inamistosa, por fazer uso de legítimo amor cristão, centrado na graça do livre-arbítrio da parte do Senhor, mesmo que tenha parecido pouco aos nossos olhos, o apostolo de Jesus gerou, bons frutos do Espírito. Já, quanto ao primeiro evento, aquele obteve tão somente, um exito maior, em criar celeumas de relações humanas que, até os dias de hoje, representam obstáculos ainda maiores, em que as boas novas do evangelho venham a atingir as mentes e os corações daqueles que se fazem a si mesmos ateus e agnósticos.

Não é por falta de avisos da parte de Jeová que tais fatos, a saber: a vazão da nossa força violenta corrupta, ocorrem de contínuo entre nós humanos, pois Ele mesmo nos tem também acusado a consciência cauterizada desde muito cedo: “Que hei de fazer-te, ó Efraim? Que hei de fazer-te, ó Judá, quando a vossa benevolência é como as nuvens da madrugada e como o orvalho que logo desaparece? Por isso terei de talhá-los por meio dos profetas; terei de matá-los por meio das declarações da minha boca. E os julgamentos sobre ti serão como a luz que sai. Pois, agrado-me da benevolência e não do sacrifício; e do conhecimento de Deus antes do que de holocaustos. Eles, porém, como Adão, transgrediram o pacto; É nisso que agiram traiçoeiramente para comigo. Gileade é uma vila de malfeitores; suas pegadas são sangue. E como que atocaiados contra um homem, a associação dos sacerdotes são guerrilhas. À beira do caminho cometem assassinato em Siquém, porque só se empenharam em conduta desenfreada. Vi uma coisa horrível na casa de Israel. Há ali fornicação da parte de Efraim. Israel se aviltou. Também para ti, ó Judá, está determinada uma ceifa. Ao querer eu trazer do cativeiro o meu povo.” Os 6:4-11.

Vinde, pois, e retornemos para o Senhor, enquanto Ele pode ser achado, pois para o fim dos tempos está reservado: "E ele julgará entre as nações, e repreenderá a muitos povos; e estes converterão as suas espadas em relhas de arado, e as suas lanças em foices; uma nação não levantará espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra." Is 2:4
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Este trabalho de André Luis Lenz, foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.
 
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