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domingo, 29 de dezembro de 2013

Cátaros, Albigenses e Valdenses (uma história que precisa ser contada ou, porque deixei de ser católico) – Parte 1/2


"E respondeu-me, dizendo: Esta é a palavra do Senhor a Zorobabel, dizendo: Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos." (Zacarias 4:6)

O fato é que, para os perseguidores religiosos militares e para inquisidores católicos que os seguiram na história, as congregações de crentes denominadas de “os valdenses”, “os cátaros” e “os albigenses”, eram todos uma mesma coisa: hereges, enquanto significavam efetivos obstáculos às suas políticas de poder centralizado e de domínio distribuído, que incluía intolerância a quaisquer opiniões ou doutrinas que discordassem de uma posição oficial.

Porém, uma olhada mais atenta aos registros históricos remanescentes, pode apontar para detalhes que revelam algumas consideráveis diferenças entre tais grupos. Todavia, antes de tudo, é preciso deixar claro, também, algo que eles tiveram em comum: tais diferentes denominações (Cátaros, Albigenses e Valdenses) não foram colocadas pelas próprias pessoas relacionadas a tais grupos, pois eles se recusavam tomar qualquer nome sobre si, com exceção de "cristãos" ou "irmãos".

Em primeiro lugar, existiam disseminados pela Europa ocidental, pequenos grupos de crentes que haviam se separado da cristandade organizada, desde antes mesmo do tempo do imperador romano Constantino dar os primeiros passos em prover para a Igreja cristã de Roma uma presença institucional dentro no Estado, a partir do ano 317, mas não sem influenciar em grande parte, na inclusão nesta mesma igreja, de dogmas baseados nas tradições daquele mesmo Estado.

Quando se tornou imperador de Roma, no ano de 249, Décio observou com desconfiança o poder crescente dos cristãos, e determinou-se a reprimi-los. Ele construiu novos templos pagãos, reforçou os cultos e sacrifícios do passado em todo o império. Porém, vendo as igrejas cheias de prosélitos e os templos pagãos esvaziados, decidiu empreender uma perseguição generalizada, tanto contra ao clero, quanto aos leigos do cristianismo.

Durante as perseguições de Décio, o Papa Fabiano foi um dos primeiros a sofrer o martírio (início do ano 250), porém, ocorreu que vários cristãos batizados negaram a sua fé em Cristo e alguns chegaram a realizar sacríficios aos deuses pagãos durante o período da perseguição; Quando, dois anos depois o imperador foi morto e as perseguições cessaram, estes quiseram retornar à comunhão cristã.

Surgiu ai o termo Lapsi (caduco), que foi o termo utilizado para denominar aqueles apóstatas que, quando eram perseguidos pelo Império Romano renunciavam à sua fé mas, uma vez cessada a perseguição, queriam voltar atrás. Com a sede vacante de Roma depois do martírio do Papa Fabiano, a necessidade de eleger um novo papa, associada as necessárias deliberações sobre a questão se aqueles apostatas poderiam ou não ser reintegrados a igreja e a forma como tal reintegração poderia se dar, gerou uma certa confusão e muitas disputas dentro da igreja.

As disputas eram agravadas pelo fato que, entre os apóstatas podia se contar com muitos líderes, pessoas influentes do clero da própria igreja, capazes de realizar gestões em favor de sua própria causa. Tais circunstâncias fizeram surgir um primeiro grande sisma: de um lado se levantou o Padre Novaciano, que exigia uma posição de rigor de critérios para aceitar os ex-cristãos arrependidos de volta e, do outro lado, a posição oficial da igreja, a partir da eleição de Cornélio como novo papa, no ano 251, que foi a de que os apostatas poderiam voltar ao corpo da igreja e ministrar os sacramentos, desde que o fizessem seguindo o ritual correto, sem a necessidade de rebatismo ou de reordenação.

Porém, depois de alguns anos, sob o imperador Diocleciano, deu-se início a uma nova onda de perseguições aos cristãos (do ano 303 até o ano 311), a última, maior e mais sangrenta perseguição oficial implementada pelo império contra o cristianismo, e a história se repetiu novamente. Muitos cristãos cederam às pressões e caíram em apostasia novamente.

Mesmo alguns bispos de então colaboraram com o Estado perseguidor, surgindo, dai, o emprego do termo traditores (traidores), para designar os apostatas que cederam livros religiosos às autoridades, para serem destruídos, conforme exigia o édito do imperador. Mais uma vez, muitos quiseram voltar atrás depois de cessada a perseguição. Dai, as questões associadas a tal assunto foram sendo sempre tratadas de uma forma tropega pela igreja oficial, ora com grande rigor, ora com total liberalidade, reflexo de que as decisões, recheadas de controvérsias, eram calcadas por influências políticas.

O padre Novaciano foi morto em uma daquelas perseguições e, após a sua morte, os seus seguidores se espalharam rapidamente e podiam ser encontrados em diversas províncias romanas, em grande quantidade em algumas delas. Eles eram chamados pela igreja oficial de novacionistas, mas chamavam a si próprios de καθαροι (em grego: "katharoi" - "puritanos" ou "puros"), refletindo que se mantinham puros durante perseguições e seu desejo de se manterem cristãos, mas separados da igreja oficial, não se misturando com o que consideravam práticas frouxas de uma igreja corrupta e subservientes a poderes mundanos.

Além disso, desde o início da idade média, existiu uma contínua corrente migratória de irmãos que, uma vez sendo perseguidos no oriente, como os denominados paulicianos (grupo de cristãos considerados hereges pelo catolicismo, que floresceu entre os anos de 650 e 872 na Armênia e partes orientais do Império Bizantino, como Anatólia e os Balcãs, até serem massacrados pelo  Império Bizantino, que foi a continuação do Império Romano durante a Antiguidade Tardia e a Idade Média) e os bogomilos (que surgiram, posteriormente, no que é hoje a Macedônia), ambas seitas pregando a igualdade social e o afastamento dos pobres do domínio do clero e da nobreza, imigravam e, ao chegarem ao ocidente europeu, entraram em contato com as igrejas dos cátaros.

Assim, vários séculos depois, o termo cátaro ainda voltaria a ser usado, agora pela própria igreja oficial de Roma, para designar o grupo considerado de dissidentes, que surgiu na região centro-sul da França, na verdade, como uma forma pejorativa de seus perseguidores se referirem a eles, por causa do costume dos seus pregadores itinerantes de venderem todas as suas propriedades e se fazerem assim "perfeitos" para seguir o Senhor e pregar o evangelho, tomando literalmente o conselho do Senhor em Mateus 19:21:

"Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me."

Por outro lado, o termo “albigense” apareceu já na alta idade média, em meados do século XII, na cidade francesa de Albi, onde grupos de milhares de irmãos (dos quais, nem todos eram, verdadeiramente, cristãos), foram mortos a espada ou queimados em fogueiras sob a acusação de heresia maniqueísta (embora isto não pudesse ter sido provado).

A partir de então, acostumou-se a associar os irmãos do sul da França com o termo “a heresia de Albi” e, dai o nome “albigenses”, ainda em conjunção com a denominação “cátaros”, passou a se aplicar aos grupos de irmãos que floresceram no sul da França e norte da Espanha e mesmo do norte da Itália, estes também conhecidos por “valdenses”.

A corrupção generalizada que uma grande parte da cristandade oficial então perpetrava, motivada por ostentação de poder político e econômico, levou, em um curto período de poucas décadas, irmãos cristãos sinceros a apartar-se dos seus males e abusos.

Entre esses irmãos se destacaram homens de grande zelo espiritual, que denunciaram abertamente os males da cristandade e ganharam um considerável número de seguidores para uma fé mais bíblica e singela, entre os quais se destacam Pedro de Bruys, Henrique de Cluny e Pedro de Valdo, este último que daria origem a um novo grupo de cristãos sinceros, os quais viriam também a ser perseguidos, chamados de “valdenses”.

Por isso, ao longo da história dos irmãos esquecidos, encontraremos sempre, lado a lado com a fé genuinamente bíblica, sempre distinta, algumas crenças realmente heréticas e distorcidas. Este fato, unido à ilimitada ambição da cristandade organizada por ser considerada a única e verdadeira "igreja de Cristo", contrastando com atitudes que denotavam o mascaramento de pretensões de poder político mundano, a levou a perseguir infatigavelmente os cristãos dissidentes que não reconheciam a sua “autoridade oficial”, deformando e destruindo, quase que completamente, os registros de sua passagem pela história.

De modo lamentável, isso teve algum certo grau de êxito em fazer de muitos daqueles valentes irmãos, "hereges", ainda aos olhos de outros sinceros irmãos que vieram depois. Esta é a trágica história daqueles mártires que corajosamente levantaram o estandarte de Cristo na hora mais obscura da fé.

Nesta primeira parte desta dissertação, eu darei ênfase à história dos “cátaros” e dos “albigenses” e, na parte que virá posteriormente, talvez maior que esta primeira, será dedicada, exclusivamente, a narrar a saga dos cristãos valdenses, os primeiros dentre os povos da Europa a obter a tradução das Sagradas Escrituras. Centenas de anos antes da Reforma, possuíam a Bíblia em manuscrito, na língua materna.  Tinham a verdade incontaminada, e isto os tornava objeto especial do ódio e perseguição.

Origens da Dissensão Religiosa na Europa Medieval:


O rápido aumento do comércio, no século XI, trouxe consigo grandes mudanças nas estruturas socioeconômicas da Europa medieval. Surgiram cidades para abrigar o crescente número de artesãos e mercadores. Isto deu margem a novas ideias. A dissensão religiosa arraigou-se na província francesa de Languedoc, onde prosperava uma civilização notavelmente mais tolerante e avançada do que em outros lugares da Europa.

O sul da atual França, na região antigamente conhecida como “Ocitânia” e que hoje é denominada “Languedoc” – ambos os termos significando “terra da língua do sim” - surgiu o movimento fundamentalista cristão (ou, que no mínimo pretendia, sinceramente, ser cristão), pacífico, que via no exemplo de vida de Jesus, simples e sem luxo algum, a base para a sua doutrina. Acima de tudo, a palavra de ordem entre eles era a humildade - desprezando a soberba, a arrogância e os valores mundanos.

A cidade de Toulouse, em Languedoc, era a terceira metrópole mais rica da Europa. Era o mundo em que prosperavam os trovadores, cujos poemas, entre outras coisas, às vezes aludiam a assuntos políticos e religiosos. Descrevendo a situação religiosa nos séculos XI e XII, a Revue d’histoire et de philosophie religieuses declara: “No século XII, como no século anterior, a moral do clero, sua opulência, sua venalidade e sua imoralidade continuavam a ser questionadas, mas acima de tudo se criticavam sua riqueza e seu poder, seu conluio com as autoridades seculares e sua subserviência a estas.”


Foi neste contexto que Pedro de Bruys, enquanto ainda era um padre católico, começou a sua pregação e viajou infatigavelmente por mais de vinte anos, percorrendo diversas províncias da França: em Delfinado, Provença, Languedoque e Gasconia. Multidões de pessoas assistiam as suas pregações em que denunciava abertamente o uso de imagens, a veneração a Maria, o batismo de recém-nascidos e a doutrina da transubstanciação dos sacramentos, como costumes da igreja que eram contrários às Escrituras.

Para escutá-lo, as pessoas deixavam os serviços religiosos oficiais e se reuniam em qualquer ponto onde ele estivesse. Como também não reconhecia a autoridade da Igreja organizada, foi detido e açoitado em 1116. Pedro de Bruys renunciou ao sacerdócio porque não conseguia conciliar com as Escrituras os ensinos católicos. Também acreditava que as cruzes e outras relíquias também não deveriam ser objeto de veneração por parte dos crentes. Ele as estava queimado publicamente na praça de Saint Gilles, entre 1126 e 1131 quando uma turba da população católica local, irritada lançou-o nas chamas da própria fogueira. Não obstante, os seus seguidores continuaram com a sua obra e com o tempo se uniram ao resto dos irmãos perseguidos.

Henrique de Cluny continuou com a obra de Pedro de Bruys, de quem foi discípulo. Este era monge e diácono do famoso monastério de Cluny. Possuía uma grande capacidade de oratória e um aspecto físico imponente. Mas era, além disso, um homem extraordinariamente devoto e inflamado de zelo espiritual. Suas pregações atraíam milhares de pessoas, e produziam centenas de conversões, entre elas, as de alguns reconhecidos pecadores, que mudavam radicalmente as suas vidas. O avivamento que ele ajudou a acender se estendeu rapidamente por todo o sul até o meridional da França.

Os líderes da igreja organizada se encontravam intimidados e até aterrorizados diante do poder da sua pregação, e não se atreviam, a princípio, a fazer nada contra. Foi tão grande o seu impacto nessas regiões que grande parte dos templos e monastérios ficaram abandonados.

Finalmente, Bernardo de Clarvaux, um dos homem mais poderosos da Europa, foi chamado para detê-lo. Este era um homem de caráter santo e devoto, cujos hinos em honra a Cristo são lembrados até hoje. No entanto, neste assunto, ele atuou com todo o mesmo zelo da cristandade oficial, pois considerava Henrique o pior dos hereges, um demônio saído direto do próprio inferno.

E com respeito aos irmãos, que se negavam a reconhecer a sua identidade com homem algum, inclusive com Henrique de Cluny ou Pedro de Bruys, queixava-se: "Inquiram deles o nome do autor da sua seita e não a atribuirão a ninguém. Que heresia há, que, entre os homens não tenha o seu próprio heresiarca?... Mas, por que sobrenome ou por qual título arrolam eles a estes hereges? Porque a sua heresia não se derivou do homem, nem tampouco a receberam de um homem". Sua conclusão foi que, consequentemente, tinham recebido o seu ensino dos demônios!

Henrique se viu forçado a fugir de Bernardo, e continuou com o seu infatigável trabalho, até que foi finalmente preso e condenado a um destino desconhecido (talvez ser emparedado vivo, ou a pena de morte) em Toulouse. Os irmãos, não obstante, continuaram adiante com o seu valente testemunho e passaram a formar parte daqueles grupos de irmãos perseguidos, conhecidos por seus inimigos como “cátaros” e “albigenses”.

Diferente da dos cristãos evangélicos valdenses, as crenças dos cátaros, embora se ajustassem a fé cristã em alguns pontos, agregavam, de fato, uma farta mistura de dualismo oriental e de gnosticismo, talvez importadas por mercadores e missionários estrangeiros. The Encyclopedia of Religion define o dualismo cátaro como crença em “dois princípios: um bom, que governa tudo o que é espiritual, o outro, mau, responsável pelo mundo material, inclusive pelo corpo do homem”. Os cátaros acreditavam que Satanás criou o mundo material, irrevogavelmente condenado à destruição. Sua esperança era a de escapar do mundo mau, material.

Muitos ensinos cátaros estavam em flagrante contradição direta com a Bíblia. Por exemplo, eles acreditavam na imortalidade da alma e na reencarnação e baseavam também suas crenças em textos apócrifos. Não obstante, no que se refere às partes das Escrituras traduzidas pelos cátaros para o vernáculo, línguas de domínio público, até certo ponto tornaram a Bíblia um livro mais bem conhecido na Idade Média.

Os cátaros estavam divididos em duas classes, os perfeitos e os crentes. Os perfeitos achavam que eram os sucessores legítimos dos apóstolos, de modo que se chamavam de “cristãos”, enfatizando isso por acrescentar “verdadeiros” ou “bons”. Na realidade, porém, muitas crenças cátaras eram alheias ao cristianismo. Embora os cátaros reconhecessem a Jesus como o Filho de Deus, rejeitavam o fato de ele ter vindo em carne, bem como seu sacrifício resgatador.

Interpretando erroneamente a condenação bíblica da carne e do mundo, acreditavam que toda a matéria se originou do mal. Por isso, sustentavam que Jesus só podia ter tido um corpo espiritual e que, enquanto na terra, apenas parecia ter um corpo carnal. Iguais aos apóstatas do primeiro século, os cátaros eram ‘pessoas que não confessavam Jesus Cristo vindo na carne’. — 2 João 7.

Todavia, isso não poderia ter sido considerado um problema tal que não pudesse ter sido resolvido por meios verdadeiramente cristãos de pregação e de ensino bíblico, coisa que faltava totalmente ao povo da época, na medida inversa em que a igreja oficial se preocupava muito mais com a ostentação de poder político e econômico no mundo.

Até mesmo o Papa Inocêncio III (a partir de 1198) chegou a reconhecer que se devia à corrupção prevalecente dentro da Igreja a culpa pelo crescente número de dissidentes e aos pregadores itinerantes na Europa, em especial no sul da França e no norte da Itália. A maioria dos que haviam, ou era de cátaros ou de valdenses. Ele repreendeu os sacerdotes por não instruírem o povo, dizendo: “Os filhos têm falta de pão, que vós não quereis repartir com eles.”

No entanto, em vez de promover a educação bíblica do povo, Inocêncio afirmou que “a profundeza da Escritura divina é tal, que não somente os simples e iletrados, mas até mesmo os prudentes e os instruídos, não são plenamente capazes de tentar entendê-la”. A leitura da Bíblia foi proibida a todos, exceto aos clérigos, e depois foi permitida apenas em latim.

Para contra-atacar a pregação itinerante dos dissidentes, o papa Inocêncio III, que já havia declarado a "heresia" como crime de lesa-majestade e condenado as traduções não autorizadas da Bíblia para o francês, em 1203 enviou dois monges cistercienses da Abadia de Fontfroide para ensinar aos Albigenses na França a fé e os ensinamentos católicos: Raoul de Fontfroide e Pierre de Castelnau, um inquisidor da ordem do cister que se conduzia com a intransigência de um juiz seguro da lei que aplicava.

Em dezembro dirigiram-se a Toulouse, onde fizeram jurar ao conde que extirparia a heresia. Em fevereiro de 1204 aconteceu uma reunião em Béziers presidida pelo rei Pedro II de Aragão. O rei reconhecera-se vassalo da Santa Sé mas, quanto ao pedido dos legados, manifestou que não estava disposto a usar a espada contra os seus vassalos ocidentais.

Uns meses mais tarde Arnaud Amaury, abade de Cîteaux, incorporou-se à delegação, mas, ainda com o reforço de Amaury os legados não obtinham sucessos, porquanto a sua apresentação não era a mais adequada, pois percorriam o país em luxuosos carros de cavalos acompanhados por todo um cortejo de servidores, quando precisamente o luxo e a suntuosidade era o que mais reprochava o povo occitano à igreja romana.

Em maio de 1206 os abades decidiram regressar às suas respetivas abadias, porém, no caminho de regresso fizeram uma parada em Montpellier e ali coincidiram com dois castelhanos que regressavam de Roma. Eram Diego de Acebes, bispo de Osma, e o seu vice-prior, Domingos de Gusmão, posterior fundador da Ordem dos Frades Pregadores, ou Ordem Dominicana.

Os legados expuseram as suas dificuldades: quando pregavam, eram objetados por conta do comportamento detestável dos clérigos, mas se dedicavam-se a reformar os clérigos, teriam de renunciar a dedicar tempo à pregação. Os castelhanos expuseram uma solução: pôr de lado a reforma dos clérigos e dedicar-se exclusivamente à pregação mas, para que esta fosse eficaz, era preciso que cumprisse uma condição imperativa: a pobreza, ou seja, viajar com humildade, ir a pé, sem dinheiro, em duplas, imitando os costumes dos Perfeitos cátaros e que antigamente fora utilizado pelos apóstolos.

Os próprios Diego de Acebes e Domingos de Gusmão colocaram a prática desse método que eles propuseram a prova e, pouco a pouco, conseguiam os seus efeitos, convertendo crentes cátaros e até mesmo alguns Perfeitos. Em contraste com o opulento clero católico, eles atuaram como pregadores viajantes, ainda que comissionados a defender a ortodoxia católica contra os “hereges” no sul da França.

Contudo, Diego regressou para Osma e Domingos de Gusmão escolheu, então, como companheiro a Guillem Claret, clérigo de Pamiers, com quem se instalou em Fanjeaux, no centro da região, onde converteram um grupo de Perfeitas e mulheres crentes cátaras, instalando-as no Mosteiro de Prouilhe, perto de Fanjeaux, tornando o num centro educacional e hospitalar de garotas, a semelhança das "Casas das Perfeitas".

Os sucessos de Domingos de Gusmão manifestavam a eficácia dos seus métodos. Entretanto, tratava-se de uma pregação longa e trabalhosa que exigia modéstia e paciência, Domingos de Gusmão parecia plenamente adaptado para aquela situação, mas não os legados papais cistercienses que aguardavam uma conversão massiva e entusiasta e, em lugar disso, tinham de seguir, em conjunto, aquele método de ir de povoação em povoação, enfrentando a oposição dos contra-pregadores cátaros, que ocasionalmente demonstravam conhecer o Evangelho melhor que os seus próprios clérigos.

Assim, a campanha em 1207 era sentida, na verdade, como um insucesso pelos legados papais que, originalmente, haviam sido enviados para argumentar com os cátaros e para tentar trazê-los de volta ao aprisco católico, rapidamente. Neste clima, com a heresia em pleno auge e a crescente humilhação da Igreja Romana frente da passividade e conivência dos senhores occitanos, somente faltava uma chispa que servisse de argumento a Inocêncio III para tomar as armas.

Enquanto Domingos e os outros cistercienses se dedicavam a pregação do Evangelho, o legado papal Pierre de Castelnau tomou a iniciativa de expor um acordo geral de paz a todos os condes e senhores do Languedoque, pedindo que se comprometessem a não empregar judeus na sua administração (para evitar empréstimos que não fossem eclesiásticos), devolver o dinheiro não pago às igrejas em forma de tributo, e, sobretudo, perseguir os hereges cátaros pela força.

Ao conde Raimundo VI de Toulouse era impossível aceitar tais condições sem quebrantar os fundamentos do seu poder, de modo que ele se negou e, por isso, foi excomungado a 29 de maio de 1207, excomunhão que foi ratificada, meses depois, numa reunião em Saint-Gilles.

Então, eis que a chispa que faltava chegou: A 14 de janeiro de 1208, Pierre Castelnau foi assassinado quando se dispunha a cruzar o rio Ródano, ao voltar da reunião de Saint-Gilles, ainda em território dos Albigenses.

Não obstante o fato de que não se pode comprovar que o assassinato tenha sido ordenado por Raimundo, o Papa Inocêncio III acusou-o abertamente, e toda a responsabilidade caiu, não apenas sobre ele, as suas terras, e sobre os senhores feudais occitanos com os quais o Conde de Toulouse mantinha algum tipo de vínculo mas, também, e principalmente, sobre todo o povo daquela região de condados.

Visto que "os esforços falharam" e, até mesmo um dos legados católicos foi morto (supostamente por um herege), alterou o foco das missões, que passaram  a incluir a violência, enquanto a cruzada militar iria substituir a cruzada pacífica. A 9 de março de 1208, o Papa dirigiu uma carta a todos os arcebispos do Languedoque e a todos os condes, barões e senhores do reino da França. Um fragmento daquela carta dizia:

"Despojai os hereges das suas terras. A fé desapareceu, a paz morreu, a peste herética e a cólera guerreira cobraram novo alento. Prometo-vos a remissão dos vossos pecados se puserdes limite a tão grandes perigos. Ponde todo o vosso empenho em destruir a heresia por todos os meios que Deus vos inspirará. Com mais firmeza ainda que com os Sarracenos, pois são mais perigosos, combatei os hereges com mão dura."

Inocêncio III ordenou em 1209 a Cruzada Albigense: o papa pronunciou um anátema contra Raimundo VI, o conde de Toulouse e declarou as suas terras "entregues como presa". Isto equivalia a uma chamada direta a Filipe II Augusto, rei da França, bem como a todos os condes, barões e cavaleiros do seu reino para acudir à cruzada.

Albi era uma das cidades onde os cátaros eram especialmente numerosos, de modo que os cronistas da Igreja oficial chamavam os cátaros de albigenses (em francês: albigeois) e usavam o termo "albigense" para designar todos os que consideravam “hereges” daquela região, inclusive, até mesmo, os cristãos valdenses do Piemonte (norte da Itália). Curiosamente, a primeira concentração de tropas dos exércitos da cruzada do papal de Inocêncio III (20 000 cavaleiros, mais de 200 000 cidadãos e camponeses, sem contar o clero) aconteceu na cidade de Lyon.

Poucas décadas antes, em 1179 um zeloso grupo composto de homens e mulheres da cidade de Lyon, que mais tarde passaram a ser chamados de valdenses, pediram ao então papa, Alexandre III, uma licença especial para continuar seus trabalhos de pregação do Evangelho, que foi negada. A Igreja achou aquele evento tão perturbador que, em 1184, aqueles cristãos da cidade de Lyon, foram excomungados pelo papa e expulsos de suas casas pelo então bispo de Lyon. Como eles já eram naturalmente desapegados de casas e de outros bens materiais, aquela medida, na realidade, serviu apenas para dar a oportunidade de divulgação da mensagem da Bíblia em outras regiões.

Notem, ainda, que este mesmo período foi marcado pelo surgimento de um outro movimento singular, mas da mesma motivação, quando Giovanni di Pietro di Bernardone, mais conhecido como São Francisco de Assis, entrou para orar na igreja de São Damião, fora das portas da cidade, e ali, diz a tradição, ele ouviu pela primeira vez a voz que chamou a sua atenção para o estado de ruína de sua Igreja e instou para que Francisco a reconstruísse. A princípio Francisco tratou de trabalhar de pedreiro, pois, em sua ignorância acreditou tratar-se de prédios precisando de reformas.

Todavia, não era. Tratava-se de algo muito mais grave: era a religião do cristianismo contaminada, a Igreja de Jesus se tornara numa instituição corrompida, conduzida pela mais absoluta ganância humana por poder mundano.

Giotto: Francisco e seus companheiros diante de Inocêncio III, 1297-1299.
Basílica de São Francisco de Assis, Assis.
No mesmo ano em que as tropas da cruzada papal, sob o comando de Simon de Montfort posicionaram-se diante da cidade de Béziers (a primeira de muitas que vieram em seguida), para ataca-la exterminando uma parte da população sem levar em conta a sua filiação religiosa e pronunciando, segundo a crônica de Cesáreo de Heisterbach, a frase: "Matai-os todos, Deus reconhecerá os seus!", ceifando à espada quase 20 mil vidas, depois do que, a cidade inteira foi despojada e queimada, Francisco, tendo reunido mais um grupo de seguidores de Assis, dirigiu-se para Roma a fim de obter do papa a autorização da primeira Regra para a fundação de sua Ordem, a chamada Regra primitiva, que prescrevia uma pobreza absoluta para os monges e para a Ordem, em imitação literal da vida de Jesus Cristo e seus apóstolos, conforme narrada nos Evangelhos.

Segundo o cronista inglês Matthew Paris, lá chegando, sujos e vestidos pobremente, foram ridicularizados pela corte de Inocêncio III, que mandou não aborrecê-lo com sua Regra, considerada excessivamente rigorosa e impraticável, e que fosse pregar entre os porcos. Tendo-o feito num chiqueiro próximo, coberto de lama voltou para o papa, que refletindo um momento, decidiu recebê-los em uma audiência formal, depois que se lavassem. 

Francisco e seus amigos se prepararam então para esse outro encontro, conseguindo o apoio de prelados eminentes para a sua causa. Segundo relatos antigos, nesse ínterim Inocêncio teve um sonho, onde viu a Basílica de São João de Latrão prestes a desabar, apenas sustentada por um pobre religioso, que ele interpretou como sendo Francisco.

Com a recomendação favorável de alguns conselheiros e com o aviso recebido em sonho, Inocêncio finalmente autorizou a Regra, porém, não por escrito, nem outorgou o estatuto de Ordem ao grupo, apenas permitiu que pregassem e dessem socorro moral às pessoas, mas acrescentando que se eles conseguissem frutos de seu trabalho, voltassem a ele para que sua situação fosse completamente regularizada.

A regularização só viria a partir de 14 anos após esse encontro, com o texto da Regra primitiva já tendo resultado em profundamente alterado, com a maioria das citações do Evangelho e as passagens poéticas removidas e substituídas por fórmulas legais, impostas pela hierarquia eclesiástica romana e pela pressão de parte de seus próprios companheiros, essas mudanças pouco refletiam o espírito original franciscano. 

Francisco via a si mesmo como o mensageiro de um mandado divino, crendo que a Regra primitiva não podia ser alterada sem traição a Cristo que o inspirava e que era a autoridade suprema a ser considerada, a quem o próprio papa devia subordinação. Contudo, ao que parece, Cristo não falava ao papa nem aos monges, somente ele ouvia sua voz, e assim, inevitavelmente, sua credibilidade e a propriedade de sua intransigência eram postas em dúvida.

Segundo os relatos, a Regra bulada (Regra primitiva profundamente alterada) só foi aceita por Francisco por força da obediência que ele devia ao papa como líder da Igreja, da qual jamais quis afastar-se, mas submeteu-se, com grande pesar, e os seus primeiros biógrafos referem este período como o da sua "grande tentação", a de abandonar todo o trabalho. Por fim aceitou o fato consumado, e entregando os frutos para Deus, pacificou-se.

A cruzada contra os albigenses:


O importante despertar espiritual daqueles anos entre os irmãos, teve o seu epicentro na região conhecida como o Meridional da França, especialmente em Languedoque. Ali multidões de homens e mulheres de todas as classes e condições, incluindo nobres e bispos do clero, somaram-se às filas dos irmãos, e as suas congregações cresceram em um número alarmante aos olhos da hierarquia da cristandade oficial.

Em 1167 foi realizada uma conferência de mestres que congregou irmãos de todas as partes da Europa, inclusive de Constantinopla. Ali estavam os paulicianos, cátaros, albigenses, bogomilos, reunidos simplesmente como irmãos, sem aceitar nenhum dos apelidos que os seus caluniadores lhes colocavam. Relataram do avanço da obra em lugares tão distantes como a Romênia, Bulgária e Dalmácia. E este fato nos ajuda a visualizar a amplitude e alcance do despertar espiritual que eles protagonizaram naqueles anos.

O povo comum, cansado das exigências extorsivas e da generalizada decadência do clero da Igreja oficial, sentiu-se atraído pelo modo de vida dos cátaros. Os perfeitos identificavam a Igreja Católica e sua hierarquia com a “sinagoga de Satanás” e “a mãe das meretrizes”, de Revelação (Apocalipse) 3:9 e 17:5. A doutrina dos cátaros prosperava e suplantava a Igreja no sul da França. Nessa região, devido à influência dos irmãos, desenvolveu-se a civilização mais rica e próspera da Europa.

Finalmente, o Papa Inocêncio III decidiu acabar por completo com os 'hereges', depois de fracassar em suas tentativas de convencer, mediante os seus legados, aos albigenses, pois estes se negaram a reconhecer outra autoridade além das Escrituras, e à cristandade organizada como a "verdadeira noiva de Cristo". Tentaram, então, convencer o conde de Provença e outros governadores das províncias do sul da França para que o apoiassem em seus intentos de aniquilação dos "hereges".

Por meio de cartas e de legados, o papa importunou reis, condes, duques e cavalheiros católicos da Europa. Prometeu indulgências e as riquezas de Languedoc a todos os que lutassem para erradicar a heresia “de qualquer modo”. No entanto, frente à resistência de suas pretensões, convocou uma cruzada de extermínio contra os albigenses e as províncias do Meridional francês.

A reação do Papa Inocêncio III foi lançar e financiar a chamada Cruzada Albigense, a primeira cruzada organizada dentro da cristandade contra pessoas que afirmavam ser cristãs. Sua convocação não deixou de ser atendida. Chefiado por prelados e frades católicos, um exército misto de cruzados, procedentes do norte da França, de Flandres e da Alemanha, dirigiu-se ao sul, ao vale do Ródano.

Centenas de milhares se uniram à cruzada convocada pelo Papa, atraídos pelas riquezas que ficariam a mercê da pilhagem e da devastação. Liderada pelo terrível Simon de Monfort, soberano da nobreza anglo normanda, a cruzada contra os albigenses devastou o sul da França até reduzi-lo a mais completa desolação. Um após o outro, os pacíficos povos do sul foram tomados e todos os seus habitantes passados ao fio da espada.

Em Minerva, Monfort encontrou 140 irmãos cátaros, que negaram a abnegar-se de sua fé, por isso foram entregues às chamas de uma grande fogueira que ele mesmo preparou no centro do povo. Em Beziers, vendo rodeada a cidade e compreendendo que toda resistência seria inútil, o conde Rogélio, junto com o bispo, saiu para pedir clemência para as mulheres e meninos e ainda para aqueles que não eram 'hereges', pois nem todos nela eram cátaros (ou albigenses).

A resposta de Simon de Monfort foi ratificar o que antes já havia sido dito pelo legado papal e inquisidor Arnold Amaury quando um soldado que estava preocupado em matar católicos ortodoxos, em vez de apenas cátaros hereges pediu conselho: "Matem a todos. Deus reconhecerá os seus".

Naquele dia de verão, em 1209, foi massacrada a população de Béziers, no sul da França. O abade cistercense e futuro arcebispo de Narbonne, Arnaud Amalric (Amalry), nomeado legado papal líder dos cruzados católicos, não mostrou nenhuma misericórdia. Quando seus homens perguntaram como distinguiriam os católicos dos "hereges", relata-se que ele, juntamente com Monfort, deu a infame resposta acima citada. Historiadores católicos atenuam-na para rezar: “Não se preocupem. Acho que muito poucos [hereges] serão convertidos.”

Não importa qual a resposta exata, o resultado foi a matança de pelo menos 20.000 homens, mulheres e crianças pelas mãos de uns 300.000 cruzados, chefiados por prelados da Igreja Católica. A destruição de Béziers marcou apenas o início duma guerra de conquista que destruiu Languedoc numa orgia de fogo e de sangue.

A sangrenta cruzada se estendeu por cerca de vinte anos: Albi, Carcassonne, Castres, Foix, Narbonne, Termes e Toulouse caíram todas diante dos sanguinários cruzados, até devastar totalmente o país. Em 1211 caiu Albi e em 1221, Toulouse e Avinhon. Seus habitantes tiveram a mesma sorte de todos os outros, e foram passados ao fio da espada.

Em baluartes cátaros, tais como Cassès, Minerve e Lavaur, centenas dos perfeitos foram queimados na estaca. Segundo o frade cronista Pierre des Vaux-de-Cernay, os cruzados, "com alegria de coração, queimaram vivos os perfeitos". Em 1229, depois de 20 anos de lutas e devastações, Languedoc passou a ficar sob a coroa francesa. Mas a matança ainda não acabara.

O que provocou esse massacre? Ele foi apenas o começo da Cruzada Albigense, lançada pelo Papa Inocêncio III contra os chamados hereges da província de Languedoc, no centro-sul da França. Antes de ela terminar, possivelmente um milhão de pessoas — cátaros, valdenses e até muitos católicos — haviam perdido a vida, irmãos que morreram, pela guerra ou queimados na fogueira.

No entanto, os poucos que conseguiram sobreviver, fugiram para diferentes países levando consigo a sua fé e testemunho. Não obstante, a cristandade oficial não retrocedeu em seu esforço por destruir “a heresia albigense”. No Concílio de Toulouse, em 1229 foi criada a Inquisição, com o fim de continuar a perseguição em cada recanto da Europa. E a Inquisição completou a obra inconclusa da cruzada contra as províncias do Meridional francês. Deste modo, a civilização de Provença foi extinta por completo.

Apesar de tudo, a fé dos irmãos não morreu. Em qualquer lugar que fossem, tornaram a levantar o testemunho de Jesus Cristo, agora aprimorado pelo sofrimento da perseguição. Por toda a Europa, numerosos irmãos saíam da cristandade organizada, e aqui e acolá tornavam a aparecer, para em seguida ocultar-se, durante os terríveis séculos em que a Inquisição exerceu o seu império.

Em 1231, o Papa Gregório IX instituiu (oficialmente) a Inquisição papal, a fim de dar apoio à luta armada. Com o lançamento da bula “Excomunicamus”, estabelecia a nova forma de ação do início do sistema inquisitorial. Basedo em denúncias e em coações, buscando as confissões dos hereges em julgamentos eclesiásticos, os encarregados de tais missões eram as “cortes” chamadas genericamente de Tribunal do Santo Ofício.

Os que pensavam de forma contrária ao “bom senso” reinante, estariam sujeitos à perda de propriedades, da liberdade e da própria vida - sua e daqueles que os protegessem. A nova diretriz aproveitava para proibir a manutenção de Bíblias nas casas de pessoas comuns. 

Porém, já a partir de 1233, o mesmo Gregório IX lançou duas bulas que efetivaram as ações do Tribunal do Santo Ofício. Destaca-se a bula “Licet et Capiendos”, dirigida aos Dominicanos. Ela determinava que estes seriam os responsáveis pelas ações contra os suspeitos. Ordenava que não poupassem métodos para obter as confissões e exigia apoio do poder secular, privando os pecadores dos benefícios espirituais com severas censuras eclesiásticas.

A punição oficial por heresia era a morte por queima na estaca. O fanatismo e a brutalidade dos inquisidores foram tais, que irromperam revoltas em Albi e em Toulouse, e em outros lugares. O medo e o terror brutalizou a alguns a ponto de, em Avignonet, todos os membros do tribunal inquisitorial serem atacados e mortos.

Em 1244, a rendição da montanha fortaleza de Montségur, último refúgio de muitos perfeitos, foi aplicado o golpe mortal à doutrina dos cátaros. Cerca de 200 homens e mulheres pereceram queimados em estacas. No decorrer dos anos, a Inquisição caçou os cátaros remanescentes. O último cátaro supostamente foi queimado na estaca em Languedoc, em 1330. O livro Medieval Heresy menciona: “A queda do albigensismo foi a principal medalha da Inquisição.”

No ano de 1252, o Papa Inocêncio IV publicou o documento “Ad Extirpanda”, autorizando o uso de tortura física para se obter as confissões. As torturas sistemáticas tinham o objetivo de erradicar aquilo que nem a espada nem a lei haviam conseguido destruir. Além de trazer uma série de orientações aos inquisidores, continha uma frase que resumia bem os ânimos da época: “os hereges devem ser esmagados como serpentes venenosas”. 

O conjunto de ações direcionadas a inquirir, ou questionar o comportamento dos desgarrados, ficou conhecido como “Santa Inquisição”, nome que se tornou sinônimo de tortura, horror e irracionalidade. Os juízes da Inquisição — na maioria frades dominicanos e franciscanos (justamente aquelas Ordens que, em suas origens, tiveram causas em comum com as dos hereges) — estavam sujeitos a prestar contas apenas ao papa.

Por viverem em terras que ficavam além da jurisdição de Roma, os cátaros, assim como outras congregações de cristãos que existiram por muitos séculos, permaneceram quase inteiramente livres da corrupção papal. Estavam rodeados de pagãos e, no transcorrer dos séculos, foram afetados por seus erros; mas continuaram a considerar a Escritura Sagrada como a única regra de fé, aceitando muitas de suas verdades.

Os cátaros estavam longe de serem cristãos perfeitos mas, será que por criticarem a fragorosa corrupção da Igreja Católica justificaria seu extermínio cruel pelas mãos de pretensos cristãos?Provavelmente homens, aparentemente, ainda piores do que eles? (digo "aparentemente" pois, gostando ou não, todos nós julgamos pelas aparências, coisa que o próprio Senhor Jeová nos alerta, diversas vezes, por meio de toda Escritura).

Ao que tudo indica, seus perseguidores e assassinos católicos desonraram a Deus e a Cristo, e difamaram o verdadeiro cristianismo, por torturar e massacrar essas dezenas de milhares de dissidentes. Mas isso tudo apenas teve o efeito prático de fazer com que as pessoas que protestavam contra o que era mal pudessem aperfeiçoar a sua fé cristã, corrigindo paulatinamente os desvios que neles haviam a princípio.

Após arrefecer a fúria cruzada, os sobreviventes passaram a pregar como faziam os primeiros cristãos: em catacumbas, cavernas e nas florestas. Isto porque a cruzada albigense, apesar de sua brutalidade atroz e, como devia ser de se esperar por parte daqueles realmente entendem o mover de Deus sobre a humanidade, não havia sido suficiente para exterminar todos os indivíduos, muito menos ainda os seus ideais.

Até que por fim, com o advento da Reforma, saíram novamente à luz, e se encontravam em centenas de milhares, dispostos a escrever um novo capítulo de sua heroica história, encontrando-se unidos à própria Reforma, ou tomando parte da reforma mais radical, com o nome de anabatistas (rebatizadores), a chamada "ala radical" da Reforma Protestante.

Fé é escolha e nisso consiste o livre arbítrio. Todo ser humano tem o direito a essa escolha: de ter ou não um Deus e o de escolher a qual Deus servir, sem ser importunado pelos demais humanos. Todavia, àquele que escolhe ser cristão, deve se lembrar: não há cristianismo que não seja, também, bíblico e não há algo bíblico que não seja também cristão. Querer dissociar uma coisa da outra é uma das artimanhas mais modernas do diabo. Cristão e bíblico, ou você é, ou não é. Não existe meio termo.

"Não podereis servir ao Senhor, porquanto é Deus santo, é Deus zeloso, que não perdoará a vossa transgressão nem os vossos pecados. Se deixardes ao Senhor, e servirdes a deuses estranhos, então ele se tornará, e vos fará mal, e vos consumirá, depois de vos ter feito o bem." (Josué 24:19-20)

Não obstante, nem todo saldo da perseguição ao catarismo desembocou em uma forma cristianismo mais pura e singela mas, sim, resultou, também, por culpa do alto grau de terror a que a população em geral esteve sujeita, em um tipo de distorção muito mais proeminente, e que chega a nós, com grande força, até os dias de hoje: a franco-maçonaria e o seu veio principal de religiosidade, que resulta da fusão do cristianismo primitivo com a mitologia egípcia (uma escola gnóstica, portanto, não cristã, com o intuito alegado de prestar auxílio à evolução espiritual da humanidade).

Uma postagem em um importante site maçônico do Brasil expõem o seguinte:

"Certamente, a aproximação entre os Cátaros e nossa Sublime Ordem se estabelece de forma direta, em uma relação simples de causa e efeito. Sem a existência de todos os eventos aqui estudados, talvez faltasse motivação para que os Irmãos do passado se dedicassem tanto à criação e fortalecimento das Colunas seminais da Loja. Os germes das escolas iniciáticas, formadas por homens livres que necessitavam de proteção mútua, se lançavam ao custo de muito trabalho, sangue e dedicação, neste alvorecer da Humanidade. 

Podemos afirmar que, se o Catarismo não tivesse ocorrido - assim como sua aniquilação sangrenta posterior - talvez a mais perfeita das associações humanas nunca tivesse existido. Foi esta tese, perturbadora e fascinante, que nos levou a pesquisar sobre o assunto."

Já, quanto a mim e a minha pesquisa postada, espero que os leitores entendam que eu não estou pretendendo, aqui, imputar culpa aos católicos de hoje, sejam estes do meio do povo ou do meio do clero da igreja católica, pelas ações criminosas e injustificáveis praticadas no passado, por membros diretores da igreja na qual eles congregam.

Todavia, as atrocidades e os erros praticados pelo corpo governante da instituição conhecida por igreja católica romana, têm sido tantos e tão graves tem o seu peso e, ocorrendo de forma recorrente em tantas épocas distintas da historia que eu, depois de ter tomado alguma ciência deles, mesmo tendo sido batizado como católico por meus pais e avós, não poderia mais, de modo algum, continuar confiando nela, ou acreditando na sinceridade dos princípios que ela declara.

Assim, como Deus tem me tornado livre e tem me dado a necessária provisão para uma escolha de minha parte quanto a isso, então eu decidi deixar de ser católico, desde os 19 anos de idade, em 1981, e me converti ao protestantismo (ou evangelismo).

Eu assim escolhi, até por que, eu descobri o evangelismo com um ramo do cristianismo, assim como a videira tem muitos ramos, dotado com uma doutrina diferente da católica e, ao meu modo de ver, muito mais condizente com o que a Bíblia realmente ensina: que a salvação é dada através da graça e bondade de Deus, na qual cada pessoa pode se relacionar diretamente com seu Criador, sem a necessidade de outro intermediário que não seja o próprio Senhor Jesus.

Além do mais, os protestantes se declaram seguidores do Evangelho - um dos seus princípios durante a Reforma era o da Sola Scriptura (do latim que significa "Só a Escritura"). Isso significava que, para os protestantes, apenas a Bíblia é fonte de revelação suprema, e que, até que retorne a nós aquele "o qual convém que o céu contenha até aos tempos da restauração de tudo, dos quais Deus falou pela boca de todos os seus santos profetas, desde o princípio" (Atos 3:21), não deveria ser permitido à Igreja alguma fazer doutrinas fora dela.

Conhecer a Bíblia com perspicácia não torna o mundo melhor para mim mas, me torna melhor para o mundo, para a glória de Deus.

Até a próxima e, graça e paz!

Veja também:

Cátaros, Albigenses e Valdenses (uma história que precisa ser contada ou, porque deixei de ser católico) – Parte 2/2 

domingo, 18 de março de 2012

Os Cristãos Apostólicos e os Gnósticos Cristãos (Uma história de permanente sabotagem!)

“Gnosticismo” é um termo de origem grega que relaciona-se a um “conjunto de correntes filosófico religiosas sincréticas”. Já, por sua vez, o termo “sincréticas”, também originário do grego, refere-se, originalmente, à "coalização dos cretenses", que é uma fusão de doutrinas de diversas origens, seja na esfera das crenças religiosas, seja nas filosóficas.

A origem do emprego do termo “sincretismo”, se deve, muito provavelmente, a Plutarco no capítulo "amor fraternal" no seu "Moralidades", onde comenta que os cretenses esqueciam as suas diferenças internas a fim de, por exemplo, se unir para combater combater um mau maior.

Plutarco foi um filósofo e prosador grego do período greco-romano, que estudou na Academia de Atenas, e que viveu no período de 46d.C. até 126 d.C.. Ele foi um discípulo de Ammonius de Lamprae, um filósofo peripatético com profundo conhecimento de religião.

A Academia de Atenas (antiga) não deve ser confundida com a Academia de Atenas (atual), fundada em século passado, mais precisamente em 1926. A Academia de Atenas original foi fundada por Platão, aproximadamente em 387 a.C.. Por isso ela é também conhecida como Academia Platônica (ou de Platão) e estabeleceu-se nos jardins localizados no subúrbio de Atenas, consagrados à deusa Atena e que tradicionalmente haviam pertencido ao herói grego de nome Academo (de onde provem o termo “Academia”).

Por seu turno, "Peripatético", também do grego, é a palavra que designa 'ambulante' ou 'itinerante'. Peripatéticos (ou 'os que passeiam') eram os discípulos de Aristóteles, em razão do hábito do filósofo de ensinar ao ar livre, muitas vezes caminhando, enquanto lia e dava preleções, por sob os portais cobertos do Liceu de Atenas, conhecidos como “perípatoi”, ou sob as árvores que o cercavam. O Liceu de Atenas foi fundado por Aristóteles em 336 a.C., ou seja, aproximadamente 50 anos após Platão ter fundado a Academia de Atenas.

Aristóteles havia, então, abandonado a instituição que lhe formara, a Academia de Platão e, em moldes semelhante aos daquela Academia, fundou Aristóteles sua própria instituição, a que batizou de Liceu. Todavia, o Liceu sempre teve uma orientação essencialmente empírica (científica não religiosa), em oposição à Academia platônica, sempre muito mais especulativa. Tal característica se acentuou, ainda mais, quando Teofrasto assume a direção do Liceu, após Aristóteles.

O empirismo é descrito e caracterizado pelo conhecimento científico, técnico e tecnológico. Após a inauguração do Liceu, a Academia, por seu turno, passa a se orientar, ainda mais, de modo especulativo, se ocupando, basicamente, de estudos filosóficos religiosos, de modo que os termos “sincrético” e “sincretismo” são cunhados no âmbito desses estudos.

Então, voltando ao termo “sincretismo”, ele denota “agir como os cretenses agiam”, ou seja, unir coisas dispares, apesar das diferenças que tais apresentem, em favor daquilo que é semelhante (pretendendo denotar como os cretenses eram unidos antes das diferenças cretenses surgirem).

Apesar de a ilha de Creta, localizada no sul da Grécia, no mar Egeu, ser a maior ilha grega, ela tem uma área pouco menor que uma milésima parte do território do Brasil. Acredita-se que a ilha de Creta Creta esteve habitada desde a Pré-História, com vestígios de populações sedentárias desde o período neolítico.

No começo da Idade do Bronze, os cretenses criaram, ainda no 3° milênio a.C., uma grande civilização insular, calcada na chamada “cultura minóica”. Aquela civilização construiu palácios em Cnossos, em Festos, em Maliá e na localidade posteriormente conhecida como Santa Trindade – palácios cujas ruínas ainda hoje são vistas. Alguns séculos mais tarde, esta civilização irradiou para outras regiões do Mar Egeu, incluindo a Grécia continental.

A partir da primeira metade do 2º milénio a.C., Creta chegou a ser o centro cultural e comercial (graças ao domínio que a sua frota, dotada de homens grandes e fortes, estabeleceu no acúmulo de riquezas conquistadas e no comércio de produtos como o vinho, o azeite, as cerâmicas, os tecidos e a joalharia, e impôs no Mar Mediterrâneo, quer nos territórios vizinhos quer em locais mais afastados, como a Sicília), nas regiões da Idade do Bronze no Mediterrâneo Oriental, com a denominada "cultura do Egeu".

O seu predomínio terminou c. 1400 a.C., quando a ilha foi ocupada militarmente pelos aqueus. No século IV a.C. as cidades da ilha experimentaram guerrear entre si e no ano 67 a.C., depois de entrarem em conflito com os romanos, estes conquistam e saquearam a ilha, comandados por Quinto Cecílio Metelo.

Toda essa sucessão de eventos foi responsáveis por desenvolver uma forte cultura de “responsabilidade social” na população da ilha. Os cretenses, facilmente, abriam mão de toda e qualquer diferença entre eles, a fim de se unirem e defender os interesses coletivos de sua pequena, porém dotada de um povo forte e orgulhoso, ilha. Todavia, essa cultura passou a ser ameaçada, quando principiou o cristianismo, a penetrar na meio da população cretense, pois o cristão não é transigente em negociar com princípios e valores que norteiam a sua fé, como o eram os demais cretenses.

Da filosofia sincrética é que se origina um termo bastante utilizado em nossos dias atuais, que prega que “Tudo estará bem, enquanto os laços que nos unem forem mais fortes do que aqueles que nos afastariam”.

Este termo é muito empregado, notadamente, no âmbito das irmandades de ajuda mútua, como A.A. e N.A. (respectivamente alcoólicos, e narcóticos anônimos), de onde se crê no poder terapêutico de que, “é focalizando nossas semelhanças, e não nossas diferenças, que ajudamos uns aos outros”.

Na história das religiões, o sincretismo é uma fusão de concepções religiosas diferentes ou a influência exercida por uma religião nas práticas de uma outra religião.

Deste modo, o “gnosticismo”, chegou, vias de fato, a adaptar-se, a mudar-se consoante o meio, em função do cristianismo, ainda nos primeiros séculos de nossa era. Mas, visto que tal processo é sempre uma via de mão dupla, para efetivamente ocorrer, os cristão eram também, instados com intensidade, a aceitar adaptações em suas crenças e valores, a fim de completar o mimetismo buscado pelos gnósticos.

Após uma etapa em que conheceu prestígio entre os intelectuais cristãos, visto que, a fidelidade para com as suas crenças, historicamente herdada do judaísmo, foi desde sempre uma questão fundamental para o cristão, posteriormente, o gnosticismo veio a ser declarado como um pensamento herético e, tal sincretismo, passou a ser combatido pelas autoridades eclesiásticas da igreja de então, culminando, inclusive, com o fechamento definitivo da Academia Platônica, em 529 d.C., a mando do imperador Justiniano.

De fato, pode falar-se em um gnosticismo pagão e em um gnosticismo cristão, ainda que o pensamento gnóstico mais significativo tenha sido alcançado como uma vertente heterodoxa do cristianismo primitivo. Deste modo, o grupo autodenominado “Cristãos Gnósticos” constituíram, desde os primeiros séculos da era d.C., uma comunidade fechada, iniciática, que guardou os aspectos esotéricos dos evangelhos, principalmente das parábolas de Jesus, o Cristo, apresentando, segundo a própria visão da cultura filosófica, um cristianismo muito mais profundo e filosófico do que daqueles cristãos que ficaram conhecidos como a ortodoxia.

Dentre os grupos mais ativos nos dois primeiros séculos de nossa era destacam-se os naassenos (palavra em aramaico com o mesmo significado de ofitas, de origem grega), setianos (de orientação judaica), docéticos (que propunham que a natureza exterior do Cristo era ilusória), carpocracianos, basilidianos e valentianos. Assim, bem cedo na história do cristianismo, antes mesmo do fim do primeiro século, começou-se a estabelecer o contraposição entre cristianismo apostólico e cristianismo agnóstico, haja vista que, a tão sonhada miscigenação unificadora entre ambos nunca se realizou, mas, sim, de um modo geral, uma parcela de conversos cristãos apostólicos era reconvertida ao cristianismo agnóstico, sendo que, até os dias de hoje, a segunda conversão exclui a primeira.

O conjunto de correntes filosófico religiosas sincréticas do Gnosticismo é bastante complexa e eu não tenho a intenção de me alongar muito ao expor sobre isso, mas alguns conhecimentos mínimos são necessários, de modo que gastarei não mais que seis parágrafos tentando explicá-la, segundo os próprios autores gnósticos. Alguns desses autores fazem uma distinção entre os termos "gnoses" e "gnosticismo".

Segundo os próprios autores gnósticos, a “gnose” é “uma experiência baseada, não em conceitos e preceitos, mas na sensibilidade do coração”. Já, para os mesmos autores, o “gnosticismo” é a “visão de mundo baseada na experiência de Gnose”, que tem por origem etimológica o termo grego gnoses, que significa "conhecimento".

O conceito de que algo tão grandioso como o Reino de Deus está no coração — por exemplo, tendo o poder de mudar e enobrecer a pessoa —, pode parecer atraente, mas será que isso realmente faz sentido? Nesse conceito, diferem notadamente os gnósticos dos cristãos apostólicos, que acreditam que “O coração é mais traiçoeiro do que qualquer outra coisa e está desesperado. Quem o pode conhecer? Eu, Jeová, esquadrinho o coração, examino os rins, sim, para dar a cada um segundo os seus caminhos, segundo os frutos das suas ações”. Je 17:9,10. “Deleita-te também no Senhor, e te concederá os desejos do teu coração.” Sl 37:4. Alguns acreditam que o próprio Jesus foi o primeiro a promover o conceito de que o Reino de Deus está no coração das pessoas. Na verdade, ele disse: “Eis que o reino de Deus está no vosso meio.” Lc 17:21. Mas alguns tradutores verteram esse texto assim: “O reino de Deus está dentro de vocês” ou “dentro de cada um”.

Ainda segundo os autores gnósticos, o conhecimento, a que se refere, “não é racional, científico, filosófico, teórico e empírico (a "episteme" dos gregos), mas de caráter intuitivo e transcendental; Sabedoria, usada para designar um conhecimento profundo e superior do mundo e do homem, que dá sentido à vida humana, que a torna plena de significado porque permite o encontro do homem com sua essência eterna, centelha divina, maravilhosa e crística, pela via do coração.”

Aqui, mais uma vez vemos gritar diferenças, pois, o gnóstico não busca, essencialmente, ao Deus dos cristãos, ao Deus da promessa de Abraão, de Isaque e de Jacó e ao seu messias, Jesus Cristo. Eles buscam, tão somente, terapias psico comportamentais, ou seja, o que dá sentido a vida, essência eterna e, mais uma vez, a via de concretização disso é o falho e traiçoeiro coração humano. A fé no sacrifício resgatador do Senhor Jesus parece ser, mais uma vez, simplesmente evitada. Todavia, o Espírito santo de Deus só poderá habitar o coração de alguém que antes, creu e foi remido. A intimidade com o Espirito é uma graça que advém de nossa justificação perante Deus.

Historicamente, é possível se verificar que o gnosticismo já vinha sendo formatado até mesmo antes da era cristã e trazia como base uma já bastante variada gama de elementos das filosofias e ocultismos que floresciam na Babilônia, no antigo Egito, na Síria e na Grécia antiga, combinando, ainda, elementos da astrologia e mistérios das religiões gregas como os do Elêusis, do Zoroastrismo, do Hermetismo, do Sufismo, do Judaísmo (Cabala).

Num texto hermético, lê-se que a gnoses da mente é a "visão das coisas divinas". Já, no início do século XX, o membro da Sociedade Teosófica (gnóstica) George Robert Stowe Mead acrescentou que "gnoses não é conhecimento sobre alguma coisa, mas comunhão, conhecimento de Deus". Para ele, este é o grande objetivo, “conhecer Deus, a realidade em nós”. Segundo ele, não é a crença, a fé ou o simples conhecimento o que importa. O fundamental é a comunhão interior, o religar da mente individual com a mente universal, a capacidade do homem "transcender os limites da dualidade que faz dele homem e tornar-se uma consciência divina".

Seria então o Deus dos cristãos tão somente “a realidade em nós mesmos” ? Decerto que não! Então eu constato que nós cristãos e os gnóstico, nada temos em comum. Nem ao menos adoramos a um mesmo Deus, muito embora, os atrativos gnósticos tenham, ao longo da história, logrado exito em apostatar alguns cristãos.

No complicado mundo em que vivemos, precisamos tomar muitas decisões que envolvem nossa obediência a Deus. Como podemos ter certeza de que essas decisões se harmonizam com a sua vontade? Jeová nos deu uma dádiva que pode nos ajudar muito na questão da obediência. É a consciência. O que é consciência? É um tipo especial de autoanálise. Ela age como juiz interno, habilitando-nos a analisar as escolhas com que nos deparamos na vida, ou a avaliar se as ações já tomadas são boas ou más, certas ou erradas. (Rom. 2:14, 15).

No entanto, a nossa consciência tem também as suas limitações. Por exemplo, se dermos excessivo valor aos desejos do nosso coração, nossas tendências egoístas poderão aflorar e distorcer a nossa consciência. (Jer. 17:9) Se não confiarmos, antes de tudo, na correta e imutável orientação da Palavra de Deus, a Bíblia, a nossa consciência poderá se tornar a bem dizer inútil. — Sal. 119:105 “Guarda com toda a diligência o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida”. Pv 4:23.

Mais uma vez, segundo os autores gnósticos, a “posse da Gnoses” significa a habilidade para receber e compreender a revelação. O verdadeiro gnóstico é aquele que conhece a revelação interior ou oculta desvelada e que também compreende a revelação exterior ou pública velada. Ele não é alguém que descobriu a verdade a seu respeito por meio de sua própria desamparada reflexão, mas alguém para quem as “manifestações do mundo interior” são mostradas e tornaram-se inteligíveis. “O início da perfeição é a Gnoses do Homem, porém a gnoses de Deus é a perfeição aperfeiçoada”. "Aperfeiçoamento" é um termo técnico para o desenvolvimento na gnoses, sendo o gnóstico realizado, conhecido como o "perfeito", "parfait".

Repare, mais uma vez, que os gnóstico preferem o uso da expressão “manifestação do mundo interior” do que “manifestação do mundo espiritual”. Manifestação do mundo espiritual remete nos, de um ponto dentro do homem, para fora deste e além, para o céu, para o universo da criação de Deus, e, por fim para a parte desse universo que é imaterial, ao passo que, manifestação do mundo interior, sugere aquilo que é limitado ao “eu”, ao coração e / ou a mente de um único e determinado homem!

As disparidades de crenças e valores são de tal modo tremendas, que chega ao ponto de eu considerar inadequado, até mesmo, o uso do termo “cristãos agnósticos”, sendo mais correto e justo o uso da designação, “agnosticismo cristão”, que é uma religião com a qual o verdadeiro cristianismo (o apostólico), não tem que ter parte alguma.

Portanto, fica claro que não há apoio bíblico para o conceito de que o Reino de Deus está no coração das pessoas. Em vez disso, ele é um governo real, que virá e fará mudanças reais na Terra e na humanidade, assim como predito pelos profetas. O ensino equivocado de que “o Reino está literalmente dentro das pessoas” é resultado do fato de o cristianismo apostólico ter sido, historicamente, sempre sabotado pelo pensamento do gnosticismo cristão.

sábado, 3 de março de 2012

Breve História do Cristianismo, da Judeia para Roma e para o Mundo


De fato, não houve grande interferência direta do governo de Roma contra o cristianismo, desde a morte do Senhor Jesus, em 29 d.C. até que o imperador Nero veio a se tornar o primeiro perseguidor romano de cristãos, acusando-os de terem provocado o incêndio de Roma, no ano 64 d.C.

Nesse nada curto período de tempo, que durou cerca de 35 anos, a perseguição contra os cristãos era exercida, essencialmente, pelos judeus. Todavia, quanto mais alastrada e intensa se tornava a perseguição judaica contra os cristãos, por todo império romano, o cristianismo também se alastrava e se fortalecia, ainda mais.

Até se tornar também um cristão, o notável apóstolo de Jesus, Paulo, antes chamado de Saulo de Tarso, um dos principais servidores do sumo sacerdote do Sinédrio que havia condenado Jesus, Caifás, havia sido qualificado como um dos mais zelosos perseguidores de Cristãos. A sua conversão foi resultado de uma fracassada tentativa dele se deslocar desde Jerusalém até a distante cidade de Damasco, a fim de trazer cativo um grupo de cristãos, que se encontravam naquela localidade Síria. Algum tempo antes, Paulo havia participado do martírio do cristão Estevão, e possivelmente, participou também, do martírio de outros cristãos, talvez menos notórios, e não mencionados na Bíblia.

Os judeus manipulavam, com uma certa maestria, as estruturas administrativas locais do Estado romamo. Ao contrário do Estado grego, seu antecessor, que havia sido marcadamente especulativo, o romano era jurídico por excelência. Sem a conivente autorização dos romanos, os judeus não poderiam ter perseguido os primeiros cristão, nestas primeiras três décadas e meia.

Para os judeus, o cristianismo havia nascido como uma seita indesejável, que se desenvolvia no seio do próprio judaísmo. O próprio Jesus, autor e consumador da fé cristã, era, para os judeus, como provável messias, uma grande decepção, que frustrava de modo contumaz as suas circunstanciais expectativas.

As relativas autoridades judaicas da época, esperavam por alguém com uma outra aparência e poder, para ser o líder que libertaria a região da Judeia da dominação romana, um rei poderoso que lideraria, politicamente, os judeus rumo à independência. Contudo, por ser Jesus como era, e se parecer apenas, não mais do que um simples profeta, como muitos dos que já haviam sido, anteriormente, desprezados, os judeus preferiam considerar que Jesus era, tão somente, um blasfemo, e não o messias que ele se autodenominava perante eles.

Como ele apenas pregava a paz, o amor a Deus e ao próximo e a remissão dos pecados, pregando, quase que exclusivamente, para algumas multidões das camadas sociais mais baixas da Judeia, as autoridades romanas não lhe deram grande importância e o consideraram, apenas, como um simples agitador popular, menos importante até, do que um ativista zelote qualquer, os quais, com entusiasmo, rebelavam-se contra o império romano com desejo de expulsá-lo pela força das armas. Todavia, com o período que se iniciou desde a morte de Jesus, foram as relativas autoridades judaicas que, com o mesmo entusiasmo, não deram trégua alguma em perseguir severamente os cristão, e de modo terrível, sempre com a conivência administrativa romana da localidade.

As circunstâncias em que Jesus Cristo, já adulto, teria surgido na cidade de Jerusalém formavam um quadro altamente explosivo, pois, de fato, a Judeia jamais se submetera totalmente ao controle do domínio imperial romano, ocorrendo frequentes sublevações, levando o Estado dominador a uma postura de ações puntuais mais repressivas, em relação à população local, do que aquela que ele praticava em outras regiões mais complacentes com a dominação do império.

Lendo-se os livros apócrifos de Macabeus I e II é possível se constatar que não houve intervalo algum entre o fim da dominação grega e o inicio da dominação romana sobre a região da Judeia. Houve, sim, simplesmente uma substituição imediata de domínios, de modo que os judeus vinham reagindo, mesmo desde antes do início da dominação romana, ainda sob o domínio grego, por meio de movimentos armados, contra a presença imperial estrangeira.

Em 175 a.C., Antíoco IV Epífanes chegou ao trono do império grego Selêucida e iniciou uma campanha de assimilação contra os habitantes da Judeia. Num esforço de unificar os elementos Gregos do seu império, Antíoco determinou a destruição da fé Judaica e a helenização dos Judeus. Um Édito foi publicado impondo os rituais religiosos aos Judeus em Jerusalém, sob pena de morte.

O sacerdote Matatias, recusou publicamente a adotar o helenismo, e iniciou uma revolta, escapando de Jerusalém, primeiramente para a aldeia de Modin, e depois para o deserto, levando consigo outros combatentes. Com a morte de Matatias, seus filhos Judas, cognominado "macabeu", e depois da morte deste, Jônatas, assumem a liderança do movimento de revolta e conseguem importantes conquistas e impõem uma certa liberdade a Israel frente à dominação grega e acabam por conseguir restabelecer o culto, purificado e dedicando novamente o Templo de Jerusalém, em 165 a.C..

Todavia a história do livro de Macabeus é bastante clara em mostrar que foi apenas após uma aliança ocorrida entre os macabeus e os romanos, uma aliança defensiva com o senado romano, e contra os gregos, que permitiu expelir definitivamente os invasores helenistas, o que pôs um termo, ao movimento guerrilheiro liderado por Judas Macabeu, filho de Matatias, e de seus irmãos. Paralelamente a isso, ocorria que do ponto de vista militar, a Grécia havia entrado num declínio tal, que os romanos conquistaram todo o seu território, de 168 a.C. em diante, ainda que, em contrapartida, a arte, a cultura e a religião grega, é que houvessem, de fato, conquistado os romanos.

Na Judeia, sucedendo ao terceiro irmão Macabeu, Simão, encontramos o filho deste, João Hircano, que consolida o poder em suas mãos realizando ainda mais alianças com Roma e outros impérios de sua época. Essa dinastia, a dinastia da casa de Matatias, conhecida como "asmoneus", passa governar a Judeia. Para governar, João Hircano e seus sucessores, usurpam tanto o título de etnarca como o de sumo-sacerdote. Os assideus, alarmados com as ambições dos Asmoneus e com o caráter secular que assume o seu reinado, rompem com eles. Segundo este grupo, ao se fazer sacerdote sem possuir o direito de família os Asmoneus cometem uma terrível falta. Isto gerou a ruptura profunda entre os descendentes dos Assideus (fariseus e essênios) e o partido ligado aos asmoneus (saduceus), os três partidos judaicos que então se formam.

Não obstante ao fim do domínio do helenismo grego sobre a Judeia, as diversas controvérsias entre os partido judaicos, agravado por dissidências internas, de continuo mantinham os judeus enfraquecidos como nação e o seu reino, agora sob o permanente olhar rapinante da águia romana. A questão a ser levantada aqui é: O que o povo judeu supunha ter em haver com a politeísta idolatria estatal romana, que não fosse a mesma coisa que tivesse em haver com o panteísmo helênico dos gregos?

A Roma cuja fama empolgara os macabeus, levando-os a buscar com ela aquele pacto, mas sem consultar a Deus (ver Capitulo 8 do livro apócrifo I Macabeus), agora era o que se tornava em ameaça maior. O fato é que, em 64 a.C., em meio a um novo acirramento das disputas internas dos judeus, o general romano Pompeu marchou com suas tropas, invadiu e conquistou Jerusalém e fez do débil reino judeu um estado vassalo de Roma.

Entre 57 a.C. e 55 a.C., Aulo Gabínio, procônsul da Síria, dividiu o antigo reino em Galileia, Samaria e Judeia, com cinco sinédrios (côrte de juízes). Em 40-39 a.C. Herodes, o Grande foi apontado Rei dos Judeus pelo senado romano, no entanto em 6 d.C. seu sucessor e filho, Herodes Arquelau, etnarca da Judeia, foi deposto pelo imperador romano Augusto.

A deposição de Herodes Arquelau (4 a.C. - 6 d.C.) como governante do reino a Judeia, foi o primeiro grande acontecimento histórico envolvendo o povo judeu, após o nascimento de Jesus e a frustrada tentativa daquele rei, de eliminar a vida de Jesus, enquanto Jesus ainda era pequeno, por ordenar a matança dos inocentes referida nos evangelhos. Mas o messias sobrevivera, porquanto Deus havia escolhido o momento perfeito para a sua vinda.

O cruel e despótico Arquelau, foi banido para a Gália e os territórios que ele antes governava, a Judeia e a Samaria, foram anexados à administração romana direta, estabelecida em Cesareia, enquanto que em Jerusalém, foi sediado um destacamento militar sob o comando de um tribuno, aquartelado na Torre Antônia, no ângulo nordeste do Templo.

Esse fato marcou o fim de Judá como um reino, mesmo que apenas teoricamente independente, e mostraram ainda que, as promessas da aliança entre Roma e os Macabeus, jamais se cumpriram, de modo efetivo, simplesmente porque, muito embora Judas Macabeu tivesse ficado deveras impressionado com os relatos que ouviu, sobre a grandeza daquele império diante das nações do mundo, ele, por infelicidade, perdera o olho singelo, por não ter buscado consultar ao Senhor Jeová sobre um assunto tão importante, de modo que a aprovação de Deus, jamais esteve presente naquela aliança, muito embora, quisesse Roma ou não, gostasse ela ou não, daquela ocasião em diante, ela passaria a ter uma participação mais ativa, no contexto dos planos de Deus.

Anos mais tarde, um dos irmãos de Arquelau, Herodes Antipas, tetrarca da Galileia, foi o responsável pela prisão do profeta João Batista, e, posteriormente, também pela sua morte, por causa de Herodias, a ex-mulher de um outro seu irmão, Herodes Filipe. Herodias, por ambição de se tornar rainha deixara o marido para viver com Antipas em 27 d.C. e por isso era censurada por João Batista. Ardilosamente provocado á lascívia por sua sobrinha Salomé, a mando da mãe, Herodias, durante o festejo da celebração de seu próprio aniversário, Antipas acabou por concordar em executar a morte João Batista, a quem já mantinha em cárcere. João o Batista era seis meses mais velho que Jesus e seu primo, consanguíneo, em segundo grau.

Foi em meio a esse clima politicamente tenso que Jesus procurou exprimir uma mensagem baseada no amor ao próximo, no perdão às ofensas e no desapego aos bens materiais. Tal mensagem em nada ameaçava o domínio romano, mesmo porque, segundo os evangelhos, Jesus sempre enfatizou que a sua pregação nada tinha de política, e que o reino a que ele se referia, não era um reino terrestre.

No entanto, assim como as autoridades romanas buscavam formas de fazer agrados para com as corrompidas autoridades judaicas, também a recíproca precisava ser verdadeira. A tolerância romana quanto a liberdade de culto judeu no templo de Jerusalém, precisava ser compensada com os judeus dando lugar a liberdade de cultos estrangeiros em suas cidades. Por isso, de um lado, Antipas, homem de ânimo doble, fazia concessões à cultura dos gentios romanos, mas por outro cultivava a tradição religiosa judaica, deslocando-se, anualmente, de Tiberíades para Jerusalém, onde participava das festividades da Páscoa (Pessach). Desde modo foi que Jesus, já adulto, irritado, encontrou o templo profanado, enquanto casa de oração para todas as nações.

Tiberíades, foi mandada construir por Herodes Antipas, em homenagem ao imperador romano Tibério , exclusivamente para ser a capital da Galileia e sua construção foi acelerada, por contribuições romanas, sendo concluída em apenas dois anos. O historiador judeu Flávio Josefo escreveu sobre a população original de Tiberíades, com evidente desprezo, pela gente que Antipas implantou ali, vinda de todas as partes do império.

A dominação romana da Judeia, apesar de aparentemente tolerada pelas autoridades relativas judaicas, como fato estabelecido e consumado, continuava sendo, no fundo, algo extremamente detestável à consciência judaica da época de Jesus. No entanto, uma dissidência dentro da própria religião do judaísmo, como aquela a que se aparentava a pregação de Jesus, e ainda trazendo o desalento da decepção com respeito às expectativas sobre do messias pela ótica judaica de então, era algo ainda mais abominável àquela mesma consciência.

Já, para os romanos, o conturbado caráter político da região da Judeia, aliado à característica postura romana de combater sistematicamente o surgimento de toda e qualquer grande liderança que pudesse vir ofuscar o predomínio do Império, poderiam fazer de Jesus, um inimigo potencial para Roma. Todavia, o fator realmente preponderante, foi a atitude comum do Estado romano, de procurar, sempre, aliar-se às elites das áreas dominadas, utilizando-as como um elemento de controle sobre os setores populares.

Tal atitude significava mais do que simplesmente a manutenção do império, pois provia um instrumento adequado de expansão do mesmo. Dessa forma, a condenação imposta a Jesus pelos romanos foi, de fato, um ato de simpatia para com as autoridades religiosas judaicas, que já o haviam repudiado como blasfemo.

Segundo os Evangelhos, Jesus foi preso não pelos romanos, mas sim, pelo judeu e amigo Judas, acompanhado de um destacamento de soldados e dos oficiais dos principais sacerdotes e dos fariseus, com tochas, lâmpadas, e armas. A gota d'água, para Caifás e outros dos principais senhores do sinédrio, já havia sido a ocasião da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, montado em um singelo jumentinho, sob as saudações de vivas do povo, clamando "Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor! Bendito o reino que vem, o reino de nosso pai Davi! Hosana nas alturas!". Tendo Jesus entrado em Jerusalém, foi ao templo.

Assim Jesus foi levado, detido, para interrogatório. Todavia as autoridades judaicas sabiam não poder condená-lo por si sós e nem ao menos detê-lo, por muito tempo, sem que houvesse um tácito, porém manifesto, consentimento por parte da administração romana.

Com urgência, as autoridades judaicas, ora virtualmente submissas às leis romanas, encaminham o detento Jesus ao governador Romano, sob acusações de blasfêmia. Numa sequência de eventos aparentemente tumultuadas, porém manobrada pelas autoridades judaicas, Jesus foi entregue a tortura, a mando do procurador romano Pôncio Pilatos e por fim, ainda por instância dos judeus, Jesus foi condenado à morte por cruz (ou por estaca) no ano de 29 d.C.. A morte de Jesus foi executada pela administração romana, pois as autoridades judaicas relativas, não tinham poder de executar sentenças de morte em seu próprio território, por estarem sob o governo romano.

O apóstolo e médico Lucas é quem narra com maiores detalhes os fatos ocorridos, no capitulo 23 de seu escrito evangélico:

"E levantando-se toda a multidão deles, conduziram Jesus a Pilatos. E começaram a acusá-lo, dizendo: Achamos este homem pervertendo a nossa nação, proibindo dar o tributo a César, e dizendo ser ele mesmo Cristo, rei. Pilatos, pois, perguntou-lhe: És tu o rei dos judeus? Respondeu-lhe Jesus: É como dizes. Então disse Pilatos aos principais sacerdotes, e às multidões: Não acho culpa alguma neste homem.

Eles, porém, insistiam ainda mais, dizendo: Alvoroça o povo ensinando por toda a Judeia, começando desde a Galileia até aqui. Então Pilatos, ouvindo isso, perguntou se o homem era galileu e, quando soube que era da jurisdição de Herodes, remeteu-o a Herodes (Antipas), que também naqueles dias estava em Jerusalém (para a ocasião da festividade da páscoa).

Ora, quando Herodes viu a Jesus, alegrou-se muito; pois de longo tempo desejava vê-lo, por ter ouvido falar a seu respeito; e esperava ver algum sinal feito por ele e fazia-lhe muitas perguntas; mas ele nada lhe respondeu.

Estavam ali os principais sacerdotes, e os escribas, acusando-o com grande veemência. Herodes, porém, com os seus soldados, desprezou-o e, escarnecendo dele, vestiu-o com uma roupa resplandecente e tornou a enviá-lo a Pilatos. Nesse mesmo dia Pilatos e Herodes tornaram-se amigos; pois antes andavam em inimizade um com o outro.

Então Pilatos convocou os principais sacerdotes, as autoridades e o povo, e disse-lhes: Apresentastes-me este homem como pervertedor do povo; e eis que, interrogando-o diante de vós, não achei nele nenhuma culpa, das de que o acusais; nem tampouco Herodes, pois no-lo tornou a enviar; e eis que não tem feito ele coisa alguma digna de morte. Castigá-lo-ei, pois, e o soltarei. [E era-lhe necessário soltar-lhes um pela festa.]

Mas todos clamaram à uma, dizendo: Fora com este, e solta-nos Barrabás! Ora, Barrabás fora lançado na prisão por causa de uma sedição feita na cidade, e de um homicídio. Mais uma vez, pois, falou-lhes Pilatos, querendo soltar a Jesus. Eles, porém, bradavam, dizendo: Crucifica-o! crucifica-o!

Sedição significa: Perturbação da ordem pública; agitação, sublevação, revolta, motim, de modo que Barrabás, era um criminoso político no julgamento dos romanos mas, não o era para os judeus. Assim, Jesus foi torturado pelos romanos e, por fim, crucificado.

Antes do por do sol daquele mesmo dia, por intercessão do então ainda judeu, José de Arimateia, Jesus foi sepultado, segundo o costume dos judeus, por que ele era judeu, porém, com respeito a lei mosaica relativa aos delinquentes que são condenados a morte, como narrado em Mateus 27:59-

"E José, tomando o corpo, envolveu-o num pano limpo, de linho, e depositou-o no seu sepulcro novo, que havia aberto em rocha; e, rodando uma grande pedra para a porta do sepulcro, retirou-se.  Mas achavam-se ali Maria Madalena e a outra Maria, sentadas defronte do sepulcro.

No dia seguinte, isto é, o dia depois da preparação, reuniram-se os principais sacerdotes e os fariseus perante Pilatos, e disseram: Senhor, lembramo-nos de que aquele embusteiro, quando ainda vivo, afirmou: Depois de três dias ressurgirei. Manda, pois, que o sepulcro seja guardado com segurança até o terceiro dia; para não suceder que, vindo os discípulos, o furtem e digam ao povo: Ressurgiu dos mortos; e assim o último embuste será pior do que o primeiro.

Disse-lhes Pilatos: Tendes uma guarda; ide, tornai-o seguro, como entendeis. Foram, pois, e tornaram seguro o sepulcro, selando a pedra, e deixando ali a guarda." Mas Jesus ressuscitou como havia sido predito.

Por isso, ao vencer a sua própria morte, com a sua ressurreição, Jesus não apenas destruiu o poder da morte sobre toda a humanidade em si, mas superou também a própria lei e selou o estabelecimento uma nova aliança entre Deus e os Homens, a qual, todo ser humano existente na face da terra, passou a ter direito de escolha do perdão da parte de Deus.

Após ser preso e morto, a tendência esperada, compartilhada tanto por romanos, e mais ainda por judeus, era a de que seus seguidores se dispersassem e seus ensinamentos fossem, aos poucos, esquecidos. Todavia, por obra de um poder que os romanos nunca antes haviam conhecido e que os judeus já haviam esquecido quase que por completo, o Espírito Santo de Deus, ocorreu justamente o contrário.

É justamente nesse fato que se assenta a fé cristã. Como haviam antecipado os profetas no Antigo Testamento, Jesus, o Cristo, ressuscitou, apareceu a seus apóstolos, que estavam escondidos e temerosos e ordenou que se espalhassem pelo mundo pregando sua mensagem de amor, paz, restauração e salvação, a toda criatura. Durante as primeiras três décadas e meia da sua existência, em que o cristianismo foi, de contínuo, severamente perseguido e combatido pelo judaísmo, o governo romano esteve sempre em conveniente conivência, tentando agradar as autoridades dos judeus. Só mesmo um Espírito de poder sobrenatural verdadeiro e santo, poderia mover uns poucos humanos obedientes, acuados e simplistas, mesmo debaixo de tribulações, a agir de uma maneira tal, a causar a maior revolução libertadora de todos os tempos.

Neste período, o cristianismo se espalhou a ponto de, partindo da Judeia, já ter atingido a própria capital do império, Roma, para onde fora levado, notadamente, por prosélitos cristãos, principalmente os convertidos de origem étnica judaica. Estes, invariavelmente pertencentes às classes sociais mais baixas, que uma vez tornados cristãos conversos, viam na situação de tornarem-se empregados, servos ou mesmo escravos de senhores em Roma, melhores condições do que aquelas que existiam em se permanecer na miséria e tribulação, que lhes era infringida pela perseguição que sofriam vivendo na Judeia, que chegava ao ponto de lhes ameaçar, frequentemente, a própria vida.

Nesta época, em Roma, ainda não havia judeus em número muito considerável, principalmente para causar manipulação local contra os cristãos, devido ao genuíno ódio que os cidadãos judeus comuns nutriam por Roma, e assim, os cristãos podiam gozar, a princípio, de relativa liberdade e dignidade ali. Porém, a cumplicidade corrupta entre as autoridades judaicas e romanas continuava.

A queda de Herodes Antipas começou quando seu sobrinho, Herodes Agripa I, que herdara a tetrarquia da Traconítida (região histórica do antigo Israel, ao sul de Damasco, incluindo as montanhas Antilíbano e Batanea. Significa "região pedregosa.") de Filipe, foi reconhecido como rei pelo imperador romano Calígula.

Influenciado por Herodias (a mesma que causou morte de João Batista), Antipas foi a Roma para exigir a mesma honraria. Mas Agripa antecipou-se a ele, fazendo chegar uma mensagem ao imperador, onde acusava o tio de conspirar com os Partos, inimigos do Império Romano. Chegando a Roma, Antipas não somente teve suas pretensões negadas, como ainda perdeu sua tetrarquia (da Galileia), que foi entregue, em acúmulo, a Agripa. Exilado para Lião (Gália), em 39 d.C., Antipas, veio a morrer nesse mesmo ano.

Isso sucedeu dessa forma pois, desde a idade de 6 anos, após o assassínio de seu pai, Agripa I, havia sido criado em Roma, na corte do imperador Tibério, e havia tido a oportunidade de crescer como companheiro íntimo do futuro imperador Calígula e era também muito extrovertido e dado a boas relações com toda sorte de gente importante da corte romana. Entregando-se a uma vida dissoluta, desperdiçando todo o dinheiro que sua mãe lhe deixara, na busca desenfreada de prazeres exóticos, passou a ser perseguido pelos credores, de quem tomara altas somas emprestadas, a altos juros, viu-se obrigado a deixar Roma e a refugiar-se junto ao tetrarca Herodes Antipas, que concedeu-lhe apenas um modesto emprego de comissário comercial em Tiberíades.

De volta a Roma, Agripa caiu nas boas graças de Antônia, mãe de Cláudio e avó de Calígula, que lhe emprestou a quantia necessária para resgatar seus débitos pendentes. Algum tempo depois, uma conversa descuidada em uma carruagem, custou-lhe seis meses de liberdade. Ele comentara com Calígula, que seria bom que Tibério não demorasse a morrer, para que seu companheiro assumisse logo o trono. O comentário foi escutado pelo cocheiro e repassado ao Imperador.

Tibério morreu seis meses mais tarde e Calígula tomou seu lugar, mandando soltar Agripa e, como forma de compensação, nomeou-o rei dos territórios que tinham sido as tetrarquias de seu tio, Felipe, falecido em 37 d.C., e de Lisânias, compreendendo os distritos nordeste da Palestina e as áreas setentrionais em volta do monte Líbano. Agripa permaneceu mais um ano em Roma antes de assumir seu reino, mas quando o fez, promoveu uma volta triunfal, só pelo prazer de ver sua irmã e o marido, roerem-se de inveja.

Quando Calígula foi assassinado, em 41 d.C., Agripa estava, lá mais uma vez, visitando Roma e desempenhou um papel importante nas negociações entre os militares e os senadores, que desembocaram na confirmação de Cláudio, como novo imperador. Agradecido, Cláudio concedeu-lhe o governo da Judeia, Samaria e da Idumeia, que eram uma província romana desde a deposição de Herodes Arquelau, acumuladas as que agripa já tinha por direitos anterior.

Desse modo, apesar de ter sido tudo sob as benesses romanas, reconstituiu-se o reino que Herodes, o Grande, construíra e que fora desmembrado após sua morte. Parecia que que Agripa I tinha tudo em mãos para realizar "a grande virada judaica", que era o que os Judeus, mesmo após Jesus, continuavam esperando de um messias. Mas quando Agripa I decidiu construir novas muralhas em Jerusalém, teve que interromper as obras, por ordem de Cláudio. O historiador Josefo afirma que, se as obras fossem completadas, elas teriam tornado a cidade inconquistável.

Agripa morreu repentinamente, de complicações abdominais, após cinco dias de agonia, em 44 d.C., sob suspeitas de ter sido envenenado, porém a Bíblia nos narra o que realmente ocorreu: " ... por aquele mesmo tempo o rei Herodes [Agripa] estendeu as mãos sobre alguns da igreja, para os maltratar; E matou à espada Tiago, irmão de João. E, vendo que isso agradara aos judeus, continuou, mandando prender também a Pedro." (Atos 12:1-3).

Porém, Pedro foi liberto da prisão em pouco tempo, pela ação do poder sobrenatural de Deus, antes mesmo de tomar conhecimento do assassínio de Tiago, e antes também que Herodes Agripa pudesse ter tido a oportunidade de lançar mãos dele. Agripa, contrariado, deixa Jerusalém e retorna a Cesareia, e pelo mesmo poder que libertou Pedro, sucedeu que: " ... num dia designado, vestindo Herodes as vestes reais, estava assentado no tribunal e lhes fez uma prática. E o povo exclamava: Voz de Deus, e não de homem. E no mesmo instante feriu-o o anjo do Senhor, porque não deu glória a Deus e, comido de bichos, expirou. E a palavra de Deus crescia e se multiplicava." (Atos 12:21-24).

Assim, Agripa se fora e enquanto "a palavra de Deus crescia e multiplicava", em três décadas e meia de contínua migração, facilitada pela inexistência de fronteiras dentro do império e pela necessidade da capital por mão de obra escrava ou de servidores de baixo custo, e ainda com a multiplicação das conversões de cristãos na própria Roma, crescendo admiravelmente muito rapidamente em número, os cristãos passaram a chamar para si, a atenção do Estado romano.

De início, professado apenas pelos descendentes de judeus que viviam na periferia de Roma, o cristianismo logo difundiu-se, primeiramente pelas camadas mais pobres da população, especialmente entre os escravos, e pouco a pouco foi evoluindo, até passar a atingir também os cidadãos e mesmo algumas famílias da nobreza romana e se tornar, consequentemente, alvo de preocupação por parte do Estado, pois, afinal, eles pregavam uma total submissão apenas a Deus, e não ao império e ao imperador romano.

Além do mais, a presença do apóstolo Pedro, e por fim, também do apóstolo Paulo, em serviço missionário ali em Roma, estimulou, ainda mais, os cristãos a se multiplicarem e a começarem uma certa forma de organização de estrutura de serviço, maior e mais eficiente do que aquela experimentada, originalmente, em Jerusalém. Era frequente a necessidade da comunidade cristã de Jerusalém, de ajuda material por parte das comunidades cristãs que vinham surgindo em outras localidades.

Contudo, em Roma, por fim, aconteceu de o imperador Nero dar inicio a perseguição romana direta contra os cristãos, no ano 64 d.C.. Tal primeira perseguição durou quatro longos e terríveis anos, e, sob ela, tanto o apóstolo Pedro quanto Paulo, pereceram. Concomitantemente, a força da perseguição da parte judaica contra os cristão entrava em colapso, pois a partir de 66 d.C. com deflagração da revolta dos judeus em Jerusalém contra os romanos, que se espalhou por toda a Judeia, as autoridades Judaicas já não contariam mais com as benesses do Estado. Nesta ocasião os cristão que ali ainda restavam, sabiamente, se lembrando dos avisos proféticos de Jesus, se mobilizaram em grande número, para se afastar da região do conflito, antecipadamente.

Jerusalém foi sitiada e finalmente atacada pelos romanos em 70 d.C., com um saldo de mais de 100.000 mortos, tendo sido destruído, inclusive, mais uma vez, o templo de Jerusalém. Toda a região da Judeia continuou sendo varrida e arrasada pelos romanos, com grande parte da sua população sendo ou dizimada ou dispersa para fora da região, até nos três anos seguintes.

A perseguição romana contra os cristãos, e agora também, igualmente contra os judeus, voltaria a se acentuar, ainda mais, no reinado de Domiciano, notadamente de modo cruel, a partir do ano 92 d.C..

Todavia, isso não conseguiu impedir que, pouco a pouco, o espírito legalista típico do estado romano fosse se afirmando também na formação da subsistente comunidade cristã de Roma, dando-lhe uma ênfase cada vez maior na organização das estruturas eclesiásticas, a ponto de, entre os anos de 88 a 97 d.C., os cristãos de Roma, infelizmente, sentirem-se com força organizacional o bastante, para passar a dar o troco aos judeus que outrora os perseguiam, com Clemente, Bispo de Roma, terceiro sucessor do apóstolo Pedro, responsabilizando-os pela persecução que Nero havia impingido contra os cristãos. Por causa da atuação moderadora de Clemente, em uma crise da comunidade cristã de Corinto, para a qual ele escreveu uma longa e importante epístola, os cristão de Roma, mais tarde, viriam a reclamar a primazia da sua sede, Roma, sobre todas demais comunidades de cristãos.

A agora enraizada e justificada perseguição e o desprezo contra os cristãos por parte do Estado romano, persistiu por longo tempo, variando de intensidade de tempos em tempos. A recusa dos cristãos em aceitar o culto da divindade do imperador foi, para os romanos, com toda probabilidade, a base jurídica de tais seguidas perseguições. Clemente foi preso no reinado de Trajano e condenado a trabalhos forçados. Por continuava a atuar na conversão de outros presos, foi por isso martirizado, em 101 d.C..

Já, a primeira perseguição que envolveu todo o território imperial aconteceu sob o governo de Maximino, apesar do fato de que apenas o clero tenha sido visado. Foi somente sob Décio, em meados do segundo século, que a perseguição generalizada – tanto ao clero quanto aos leigos – tomou lugar em toda a extensão do Império. Gregório de Tours trata deste tema em sua História dos Francos, escrita no final do século VI:

“Sob o imperador Décio, muitas perseguições se levantaram contra o nome de Cristo, e houve tamanha carnificina de fiéis que eles não podiam ser contados. Bábilas, bispo de Antioquia, com seus três filhos pequenos, Urbano, Prilidan e Epolon, e Sisto, bispo de Roma, Laurêncio, um arquidiácono, e Hipólito tornaram-se perfeitos pelo martírio porque confessaram o nome do Senhor."

Apesar de confundir as épocas de perseguição (pois menciona, ao mesmo tempo, personagens que foram martirizados sob Maximino, Valeriano e Décio), o testemunho de Gregório mostra o quanto o tema da perseguição marcou o imaginário da Igreja nos primeiros séculos. As perseguições estatais seguintes foram inconstantes até o terceiro século, apesar do "Apologeticum" de Tertuliano, de 197 d.C., ter sido escrito ostensivamente em defesa de cristãos perseguidos e dirigido aos governantes romanos.

Todavia, mesmo debaixo de perseguição e adversidade, o cristianismo continuava sempre crescendo. No período de reinado do imperador Diocleciano, houve um clímax persecutório, no qual, a agora já muito bem organizada igreja de Roma, passou por um momento de terrível perseguição. O imperador fez mais essa tentativa, entre os anos de 303 a 305 d.C. de suprimir o cristianismo, por suprimir a igreja, eliminando tanto clérigos quanto leigos, e mais uma vez foi um fracasso.

Para saber muitos mais detalhes sobre as várias perseguições aos cristãos ocorridas sob o Império Romano, veja o excelente documentário: Documentário Espelho dos Mártires

Assim, a igreja de Jesus Cristo sofria de perseguição m perseguição, até que aconteceu um fato divisor de águas: Diocleciano abdicou do trono, e seus quatro generais, que governavam regiões administrativas, entraram em guerra. Os dois generais que mais tinham possibilidade de chegar a ser imperador eram Constantino e Magêncio. A vitória de Constantino sobre Magêncio, na Batalha da Ponte Mílvio, em 28 de outubro de 312 d.C., perto de Roma, a qual Constantino, posteriormente, atribuiu ao Deus cristão, explicando, na noite anterior à batalha, ele havia sonhado com uma cruz, e que nela estava escrito: “In hoc signo vinces”, do latim que significa: "Sob este símbolo vencerás".

A partir de Constantino tornado imperador, em 313 d.C., os imperadores passaram a “proteger e estimular cada vez mais a fé cristã”, promovendo uma crescente fusão entre a igreja e o estado, nas qual muitos ajustes, de ambos os lados, foram feitos para que cada um se adaptasse às necessidades do outro, até que, na época de Teodósio I, em 380 d.C., o Império Romano tornou-se oficialmente um “estado cristão”.

Muito embora aquela aparentemente conveniente “conversão estatal”, em seguida o império romano continuaria com o seu já existente declínio, caminhando, até mesmo, ainda mais rapidamente para a sua ruína, até que por fim a humanidade ocidental, herdeira do legado do império romano, passou a entrar num longo período de obscurantismo histórico, com a queda de Roma a partir de 476 d.C..

Isso ocorreu, não que o cristianismo, em si, causasse o declínio do império romano pois, no início do século IV apenas de 5% a 7% dos romanos tinham se tornado cristãos, e, por essa época, em sua grande maioria, estes estavam vivendo na parte Oriental do império, exatamente o lado que permanecerá mais forte e estruturado durante a crise final do século V.

Já, no século III, que havia sido a fase mais aguda de crise econômica e social, enquanto os cristãos, embora bastante organizados, ainda não passavam de uma minoria que se reuniam nas catacumbas da Capital, nas fronteiras de expansão do império, as elites dirigentes das legiões romanas e suas ações em consonância com as estratégias oficiais do estado, exigiam um número incessantemente crescente de soldados, de elevação de soldos e recursos para as guerras.

Por outro lado, houve ainda uma diversificação cultural e religiosa, que a sociedade romana expandida experimentou, após o contato com as populações das colônias e com a naturalização dos bárbaros. Tal fato possibilitou à população insatisfeita do núcleo do império, passar a duvidar da influência dos deuses oficiais greco-romanos nas decisões políticas, explicação que até então legitimava o poder do império e do imperador, levando um bom número deles a buscar adesão a crescente religião cristã.

O fato é que, depois das dificuldades experimentadas do século III, vários imperadores procuraram centralizar ainda mais o Estado, a fim de obter um maior controle dos cidadãos de um tão vasto império, agora existentes em grande diversidade sócio cultural e religiosa, para que deste modo fosse mais fácil mobilizar os enormes recursos humanos e financeiros para defender, sem em nada abrir mão, a estupidamente expandida fronteira do império e o fragilizado núcleo imperial, e, principalmente, unificar isso tudo em torno de uma ideologia única.

Com Constantino I, passou-se a eleger o cristianismo, devidamente fundido e adaptado, de maneira discreta, à antiga religião greco-romano oficial do Estado, como a religião capaz de produzir aquele desejado monopólio ideológico unificado. Afinal de contas, o cristianismo era, de fato, contra todas a possibilidades e expectativas, a religião que mais crescia, e passava a influenciar a nata romana, mesmo debaixo de adversidades.

Creio que Roma foi devorada por si própria e por seu incessante e compulsivo desejo expansionista e, eu, particularmente não creio, que imperador romano algum, que tenha vivido até a queda do império do ocidente, efetivamente tivesse crido, verdadeiramente, no Deus dos cristãos, e, principalmente enxergado, que a real fonte de sucesso do cristianismo, contra todas as adversidades as quais ele era submetido, era o poder daquele mesmo Deus.

Roma, enquanto Estado imperial, tentou “usar” em seu benefício o cristianismo, mas o cristianismo era algo que até então as elites romanas, verdadeiramente, não entendiam e nem sequer conheciam ao certo. Por isso, não é de estranhar não ter obtido exito em extrair o efeito expectado disso.

O fato é que Roma estava se condenando, por não vislumbrar a possibilidade de retroceder em sua política de expansão já realizada e, nem mesmo o “esforço final” de “absorção” do cristianismo ocorrido, apesar de dar algum alento e sobrevida, de modo algum conseguiu reverter a falência final do império.

Durante toda a “Pax Romana” a instituição militar tinha se visto orientada para múltiplos objetivos. Além da defesa fronteiriça de mais de 9000 Km, da fortificação de pontos estratégicos, construção de estradas e segurança pessoal das mais altas magistraturas imperiais, transmitir elementos da cultura, religião e língua latina às regiões onde se fixavam as guarnições militares, bem como a criação de condições favoráveis para o desenvolvimento das economias locais, a sua presença impunha o respeito e a aceitação incondicional da soberania de Roma: assim era a paz romana.

A manutenção da paz e da estabilidade no mundo romano era atribuída aos militares como tarefa primordial e de grande importância: Era uma paz armada e atingível apenas com a presença das legiões. Essa era a única forma de assegurar uma harmonia mínima e a articulação entre o poder imperial e as vastas regiões a governar, servindo de instrumento de apoio à execução de medidas de carácter administrativo, todavia, de maneira notória, isso também fez com que o império, de modo inevitável e continuamente, consumisse a si próprio, em termos de recursos.

Por outro lado, influenciada pelos decretos da oficialização e da resultante “adaptação” que propiciariam a “liberdade” de culto e de manifestação, “o cristianismo”, ou melhor, a agora oficialidade do cristianismo, a igreja, passou, de modo infeliz, a tornar-se, para alguns, veículo de promoção social e de meio para a obtenção de cargos e benefícios públicos.

Na medida em que essa nova nomenclatura romana de “fé cristã” se consolidava como religião, os territórios onde ela “desabrochava”, dividiram-se em dioceses e paróquias, à frente dos quais foram postos bispos e párocos, sob a chefia do papa, sucessor de Pedro e bispo de Roma, a capital, e agora sob as benesses diretas do Estado romano em decadência.

Assim, como religião oficial e marcadamente urbana que se tornara a partir de fins do século IV, os demais cultos “não ajustados” que existiam, notadamente, nas regiões mais remotas e de fronteira do império, passaram a ser severamente perseguidos, ainda nas derradeiras décadas do moribundo império. Por conseguinte, os seguidores das várias diversificações de paganismo bárbaro, tiveram que se refugiar na zona rural, donde vem o uso costumeiro do termo “pagão”, de modo generalizado, a essas populações. Pagão significa tão somente habitante do campo.

A perseguição sofrida pelas mãos desses “cristãos oficiais do império romano” era exercita, em concomitância, com as ações puramente militares de manutenção da fronteiras do império e de mobilização forçada de recursos em colonias insubmissas, de um modo cruel e pernicioso. Curiosamente, o primeiro grande saqueador de Roma, o rei Visigodo Alarico I, havia recebido treinamento militar romano para atuar como comandante de tropas auxiliares a serviço do próprio império, antes de rebelar-se e promover três cercos a capital, até saqueá-la, em 410 d.C.

Isso fez com que os povos bárbaros aprendessem, inicialmente a reagir, pela força das armas, com maior consistência pelo uso de táticas essencialmente de guerrilhas, contra as incursões das legiões romanas, para em seguida, se organizarem a ponto de poderem partir para o contra-ataque e para o ataque, que desferiu os golpes finais que encerram com a existência do “império romano cristão do ocidente”.

Porém, após o fim do império, o agora “poluído” cristianismo, pela sua nomenclatura centrada em Roma e seu culto ritualístico deformado, sobrevivera, e até se arvorava herdeiro do império vencido, passando de perseguido a perseguidor, continuaria a crescer nas sombras do obscurantismo da idade média, e ainda teria, para o bem e para o mau, muita história para escrever, arvorando-se muitas vezes, de modo truculento, do nome de Jesus.

A mensagem da verdade da nova aliança, é e sempre foi a mesma: “Por meio disso saberão que sois meus discípulos, se tiverdes amor entre vós” Jo 13:35 e Jesus vai além, desafiando a nossa condição imperfeita e nos mostrando que é mesmo debaixo dela que devemos buscar santidade: “Ouvistes que se disse: ‘Tens de amar o teu próximo e odiar o teu inimigo.’ No entanto, eu vos digo: Continuai a amar os vossos inimigos e a orar pelos que vos perseguem; para que mostreis ser filhos de vosso Pai, que está nos céus, visto que ele faz o seu sol levantar-se sobre iníquos e sobre bons, e faz chover sobre justos e sobre injustos. Pois, se amardes aos que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem também a mesma coisa os cobradores de impostos? E, se cumprimentardes somente os vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não fazem também a mesma coisa as pessoas das nações? Concordemente, tendes de ser perfeitos, assim como o vosso Pai celestial é perfeito." Mt 5:43-48

Sob a nova aliança de Jesus, nenhum ato mais de violência, de qualquer espécie, se justifica, por mais elevados que possam parecer os objetivos ou intenções a estes associados. Na nova aliança, tudo é sugerido, nada exigido e, consoante a isso, assim também deve ser os salutares propósitos evangélicos que um cristão coloca em seu próprio coração.

Deste modo, por exemplo, acontecimentos aparentemente positivos para o desenvolvimento da "igreja", como o da ordem de fechamento da academia platônica de Atenas, por mandado do imperador bizantino Justiniano, no ano de 529 d.C. trouxeram, efetivamente, nenhuma glória para o nome de Deus. Comparativamente com aquilo que se nos pareceu um discurso frustrado, louco e solitário, proferido pelo apóstolo Paulo, aos atenienses no Areópago, séculos antes, de fato, a determinação de Justiniano foi, deveras, contraproducente para o serviço do reino de Deus. Neste segundo evento, embora falando a uma plateia, por cultura e por orgulho, notadamente inamistosa, por fazer uso de legítimo amor cristão, centrado na graça do livre-arbítrio da parte do Senhor, mesmo que tenha parecido pouco aos nossos olhos, o apostolo de Jesus gerou, bons frutos do Espírito. Já, quanto ao primeiro evento, aquele obteve tão somente, um exito maior, em criar celeumas de relações humanas que, até os dias de hoje, representam obstáculos ainda maiores, em que as boas novas do evangelho venham a atingir as mentes e os corações daqueles que se fazem a si mesmos ateus e agnósticos.

Não é por falta de avisos da parte de Jeová que tais fatos, a saber: a vazão da nossa força violenta corrupta, ocorrem de contínuo entre nós humanos, pois Ele mesmo nos tem também acusado a consciência cauterizada desde muito cedo: “Que hei de fazer-te, ó Efraim? Que hei de fazer-te, ó Judá, quando a vossa benevolência é como as nuvens da madrugada e como o orvalho que logo desaparece? Por isso terei de talhá-los por meio dos profetas; terei de matá-los por meio das declarações da minha boca. E os julgamentos sobre ti serão como a luz que sai. Pois, agrado-me da benevolência e não do sacrifício; e do conhecimento de Deus antes do que de holocaustos. Eles, porém, como Adão, transgrediram o pacto; É nisso que agiram traiçoeiramente para comigo. Gileade é uma vila de malfeitores; suas pegadas são sangue. E como que atocaiados contra um homem, a associação dos sacerdotes são guerrilhas. À beira do caminho cometem assassinato em Siquém, porque só se empenharam em conduta desenfreada. Vi uma coisa horrível na casa de Israel. Há ali fornicação da parte de Efraim. Israel se aviltou. Também para ti, ó Judá, está determinada uma ceifa. Ao querer eu trazer do cativeiro o meu povo.” Os 6:4-11.

Vinde, pois, e retornemos para o Senhor, enquanto Ele pode ser achado, pois para o fim dos tempos está reservado: "E ele julgará entre as nações, e repreenderá a muitos povos; e estes converterão as suas espadas em relhas de arado, e as suas lanças em foices; uma nação não levantará espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra." Is 2:4
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Este trabalho de André Luis Lenz, foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.
 
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