O homem que conhece a sua própria glória, antes que ele tenha conhecido a glória do seu Deus, este homem está condenado a cair prematuramente, seja para a sua correção ou para a sua destruição! A. L. Lenz
Por mais que tentem, os
inimigos das verdades bíblicas não conseguem impedir sua
divulgação. “A palavra de Deus não está amarrada”, diz 2
Timóteo 2:9.
Conhecido como "Povo do Livro ", as Sagradas Escrituras é o que encarna a fé dos valdenses - eles viveram e morreram por ela. Eles foram torturados, exilados e martirizados e, ainda assim, a fé que os levou dos Vales Alpinos da Itália, para lugares tão longínquos como a Colônia Valdense do sudoeste do Uruguai, até o sopé das Montanhas Apalaches no oeste da Carolina do Norte, sempre sobreviveu. A Trilha da Fé é a sua história - cada exposição testemunhar a jornada que os levou, desde o tempo dos apóstolos, buscar a liberdade religiosa cristã e o bem estar para suas famílias.
Os valdenses acreditavam, e acreditam, que a Bíblia é aberta à interpretação por parte de todos e eles levaram a sério a missão de compartilhar a mensagem a todo o mundo. Durante séculos, eles procuraram a servir a Deus, compartilhando o seu amor e espalhando sua Palavra. Um povo pacífico, eles encontraram-se frequentemente em guerra, pois procuraram ser fiel à sua fé. Eles adoravam em segredo por medo de ser capturados e mortos, memorizando as Escrituras na preparação de que suas Bíblias podiam ser queimadas. Mais de uma vez na história, os governantes pensavam eles haviam sido erradicados, mas de tempos em tempos, surgiu um remanescente para continuar.
Os Valdenses
Durante toda a Idade
Média, numerosos grupos de irmãos se separaram da cristandade
oficial para procurar uma forma de cristianismo mais puro e apegado à
simplicidade evangélica, dando preferência em respeitar a
autoridade da Palavra de Deus, do que a dos decretos das autoridades
eclesiásticas, por entenderem que a Bíblia é superior às
tradições da Igreja.
Na primeira parte desta
série de postagens, com o estudo sobre as irmandades dos cátaros e
dos albigenses, pudemos conhecer o alto preço que muitos deles
tiveram que pagar, por causa da sua fidelidade à Palavra de Deus ou,
simplesmente, por querem viver separados da igreja oficial de Roma.
Ao longo da história humana na era cristã, o caminho da fé tem
sido regado, frequentemente, com o sangue do seu martírio.
Na Europa ocidental, tanto os albigenses, quanto os cátaros cresciam, especialmente na França e na
Espanha. Já, nos vales alpinos, do norte da Itália e do
sul da Suíça, por sua vez, por vários seculos prosperaram um outro grupo de irmãos
de características um tanto quanto diferenciada dos primeiros, aos quais a história denominou pelo termo "Valdenses".
Na verdade, podemos afirmar que, diferente dos
cátaros e albigenses, cujos remanescentes precisaram evoluir até
aderirem a uma igreja surgida da reforma protestante no século XVI,
quando não seguiram uma linha diferente que desembocou na formação
de novas irmandades, tais como a Franco-maçonaria, os valdenses
continuaram sempre existindo em linha direta, até os dias de hoje, como comunidade cristã de certo modo fiel, se comparados à sua forma original.
Aqueles que tiverem a
oportunidade de visitar a cidade de Roma na atualidade, terá uma certa
dificuldade de encontrar igrejas evangélicas ali: a maioria das pessoas que habitam de Roma, e que tenham alguma religião que possa ser
considerada cristã são, em sua grande maioria, católicos romanos.
Igreja Evangélica Valdense da Praça Cavour - Roma
As poucas igrejas
evangélicas existentes na Roma atual são, em geral, de cultos em
língua inglesa, como a Batista, dos norte-americanos e a
Presbiteriana, dos escoceses, ambas frequentadas, em grande parte,
por pessoas que se encontram em trânsito pela velha cidade.
A única comunidade
evangélica de Roma, onde se fala o italiano e onde se pode conviver
com as pessoas do local é a Igreja Evangélica Valdense da Praça
Cavour.
A Origem dos Valdenses
Por volta da mesma época
em que Pedro de Bruys foi queimado vivo por uma multidão enfurecida por ter ousado criticar os
costumes da Igreja católica (ver a postagem anterior: Cátaros, Albigenses e Valdenses (uma história que precisa ser contada ou, porque deixei de ser católico) – Parte 1/2), nascia um outro personagem que, tempos
depois, exerceria uma forte influência na divulgação das verdades
bíblicas pela Europa. O seu sobrenome era Valdès ou, também conhecido como Pedro
Valdo.
A cidade de Lyon, fundada
pelos romanos há mais de dois mil anos, é hoje a segunda maior
cidade da França e importante centro econômico, cultural e
gastronômico. Fica às margens do rio “Rhône” (Ródano) e tem
cerca de quinhentos mil habitantes, que chegam a um milhão e meio,
se considerarmos toda a área urbana ao seu redor. Pode-se dizer que
foi em Lyon que teve origem o grupo que pode ser considerado hoje a
denominação protestante mais antiga que existe, a chamada Igreja
Evangélica Valdense.
Por volta do ano 1170,
Pedro Valdo já havia se tornado um rico comerciante e banqueiro da
cidade e, em 1173, teve contato com uma tradução do Novo Testamento
para a dialeto francês da época passando a dedicar-se em estudá-la.
Depois de uma atenta leitura foi impactado profundamente pelas
palavras do Senhor Jesus em Mateus 19:21, "Se quer ser perfeito,
vai, vende tudo o que tem e dê-o aos pobres e terás um tesouro no
céu; e depois vêm e me segue".(1)
Assim, ele resolveu
encomendar tradução manuscrita de partes da Bíblia do latim para o dialeto do
sudoeste da França e começar a pregar o Evangelho pelas ruas de
Lyon, mesmo sem ser sacerdote, para em seguida, abrir mão de todos
os seus bens, vendendo-os e doando aos pobres, com exceção daquilo
que fosse necessário para o sustento de sua família, deixando parte
dos bens para sua esposa e prosseguindo no trabalho de pregação.
Diferentemente de Pedro de Bruys e de Henrique de Lausanne, Pedro
Valdo era completamente leigo.
Alguns habitantes de Lyon
ficavam tão emocionados de ouvir a mensagem da Bíblia discursada na
sua própria língua materna, que também decidiram renunciar a seus pertences
e devotaram a vida à divulgação das verdades bíblicas e, com
isso, foi sendo formado um grupo de seguidores. O grupo liderado por
Valdo ficou conhecido como “os pobres de Lyon” (ou “homens
pobres de Lyon”, ou ainda “os pobres de espírito”) e,
posteriormente, viriam a ser denominados como “Os Valdenses”.
Nesse aspecto, o que
Valdo fez não foi muito diferente daquilo que Francisco de Assis
faria, no século seguinte, na Itália, renunciando aos bens
materiais e se dedicando aos pobres. Todavia, desde o início, os
valdenses afirmavam sobre o direito de cada comunidade de fieis de
ter a Bíblia acessível em sua própria língua, sendo esta a ser
considerada a fonte de toda autoridade eclesiástica.
O que chama atenção
neles é a atitude que tinham diante da Bíblia. Estavam menos
interessados em interpretar a Bíblia e mais em obedecê-la e pôr em
prática o que eles entendiam como mandamento divino para eles. Tanto
Valdo quanto os seus seguidores eram leigos, e, naquela época, era
um monopólio da Igreja oficial a pregação e a interpretação das
Escrituras. Mas eles insistiam em continuar pregando o Evangelho,
apesar da proibição da Igreja e, em 1179 pediram ao Papa Alexandre
III uma licença especial para continuar com os seus trabalhos, mas
esta foi negada.
A Igreja achou esses eventos muito
perturbadores e, em 1184, esse zeloso grupo composto de homens e mulheres da cidade de Lyon, que mais tarde passariam a ser chamados de valdenses, foram
excomungados pelo papa e expulsos de suas casas pelo então bispo de Lyon.
Como eles já eram desapegados de casas, essa medida, na realidade,
serviu apenas para dar a oportunidade de divulgação da mensagem da
Bíblia em outras regiões.
Por fim, não só os
seguidores de Valdo, mas também de Pedro de Bruys e de Henrique de
Lausanne, bem como outros dissidentes, podiam ser encontrados em
muitas partes da Europa, antes mesmo do final do século XII. Ao
serem expulsos de Lyon, Pedro Valdo e alguns de seus seguidores
encontraram refúgio nos Alpes, na região italiana do Piemonte.
Outros seguiram para a Alemanha, a Europa Central e Oriental. A
perseguição fez os valdenses estabelecer-se, principalmente, em
zonas rurais.
De fato, os numerosos
irmãos perseguidos, conhecidos pelos diferentes nomes que lhes eram
dados por seus perseguidores, chegaram, com o tempo, a constituir um
testemunho unido e de vasto alcance, fora da cristandade organizada.
Outros importantes defensores das verdades bíblicas surgiram nos
séculos posteriores, tais como John Wycliffe (1330-1384), William
Tyndale (1494-1536).
Mas os Valdenses não
pretendiam, a princípio, se separar da igreja Católica, apenas
buscavam profundamente saber como agradar a Deus, tanto que por mais
de trezentos anos continuaram fazendo parte dela, apenas tendo seus
próprios costumes de simplicidade evangélica e, sendo deixados a
margem, faziam contraste com uma igreja corrompida, cujo maior
costume era a opulência e a associação com a nobreza.
Segundo o historiador
Euan Cameron, parece que os pregadores valdenses não se “opunham à
Igreja Católica em si”. Eles apenas “queriam pregar e ensinar”.
Historiadores dizem que o movimento foi praticamente impelido para a
heresia por uma série de decretos, que progressiva e permanentemente
o marginalizaram. As condenações feitas pela Igreja culminaram no
anátema emitido pelo Quarto Concílio de Latrão contra os valdenses
em 1215.
Só muito tempo depois,
com a Reforma Protestante, no início do século XVI, é que eles se
identificaram com os ensinamentos de Lutero e de Calvino e aderiram à
Reforma. Quando se juntaram ao nascente protestantismo no Sínodo de
Chanforan em 1532, desde então, os valdenses subscrevem ao
Calvinismo.
No século XVII, no
contexto das guerras de religião, os Valdenses foram exilados dos
Alpes, onde estavam estabelecidos há séculos, e quase chegaram a
ser eliminados completamente. Mas sobreviveram às perseguições,
voltaram aos Alpes e mantiveram até hoje a fé evangélica. São
hoje uma das principais igrejas protestantes na Itália e estão
presentes, em menor número, em países como a Argentina, o Uruguai e
os Estados Unidos.
Os Valdenses Dos Vales
Alpinos
Típico Vilarejo das Encostas dos Alpes do Piemonte (atual)
Pedro de Valdo entrou em
íntima relação com população dos vales alpinos que passaria a
ser denominada como Valdenses, e, possivelmente por essa razão,
muitos historiadores o consideraram o seu fundador. Todavia, existem
razões para crer que, na verdade, Pedro Valdo encontrou ali um povo
evangélico formado já em bom número, apesar da coincidência do
seu sobrenome 'Valdo' e o nome 'Valdenses'.
Muitos creem que o
suposto em contrário vem, senão, do costume das autoridades políticas
e eclesiásticas de querer ver, sempre, um fundador ou líder na
origem de todo movimento, seja este movimento espiritual ou, meramente social. De fato, o nome 'Valdenses'
parece derivar melhor do francês 'Vallois' (pessoas dos vales), que
aparece em muitos manuscritos dos valdenses do Piemonte, anteriores a
Pedro de Valdo. De fato, os valdenses são uma congregação de cristãos dos Vales do Piemonte, cujas origens ainda são muito debatidas.
Próximo das montanhas, cerca de 45 quilômetro a sudoeste da cidade piemontesa de Turim (em Italiano, Torino), abrindo-se diante do que parece ser um grande portal da montanha, encontra-se a entrada para o principal território dos vales Valdenses (ver imagem de satélite - Google Earth - mais adiante). Saindo de Turim, para chegar ali, o caminho passa pela pequena Pinerolo (que ainda não está em território valdense). A partir de Pinerolo, três vales levam a áreas valdenses: O Vale Chisone, para o noroeste (que leva sobre os Alpes para a França), o Vale Germanesca, e o Vale Pellice, a oeste de Torre Pellice e além.
Vista Panorâmica sobre parte de Torre Pellice, atual
Os vales dos valdenses tem montanhas íngremes separando-os e nem sempre é possível atravessar de carro a partir de um vale para o outro. Torre Pellice, na junção do Rio Pellice e do Vale do Angrogna, é um bom lugar para começar uma visita a esses vales. Elevando-se sobre a cidade encontramos Castelluzzo, o afloramento rochoso na montanha, e uma fortaleza para os valdenses nos momentos de luta.. As barras de la Tagliola é uma caverna no alto da montanha, ao pé do rochedo, utilizada em tempos passados como um refúgio da perseguição. Ao lado do Museu Valdense existe uma escola Valdense. Apesar de que, a Igreja Cristã na Gália (França), só aparecer pela primeira vez na história, em conexão com a perseguição contra os cristãos ocorrida em Lugdunum(atual Lyon, França), o então centro religioso da Gália romana, sob Marco Aurélio, no ano de 177 d.C., acredita-se que discípulos dos apóstolos semearam as boas novas de Cristo nos Vales Valdenses, provavelmente desde 58-59 d.C., quando eles viajavam através dos Alpes Cotianos, em direção a Gália e outras partes da Europa. O único registro daquela perseguição de 177 d.C., ocorrida não apenas na cidade de Lyon, mas também em Venne, é uma carta preservada em História Eclesiástica de Eusébio, livro 5, capítulo 1.
Quanto ao adjetivo 'Cotianos', associado ao substantivo Alpes, ele vem de Marcus Julius Cottius, um rei das tribos ligurianas, que eram os habitantes naturais daquela região montanhosa no primeiro século antes de Cristo. Essas tribos, de origem étnica Celto-Ligúria, foram os fundadores a cidade de Torino (ou Turim, que hoje é a quarta maior cidade da Itália).
De fato, a então pequena cidade de Turim já existia desde, pelo menos, 218 a.C, quando há registros de que ela foi atacada, e parcialmente destruída por Hannibal, o púnico comandante militar cartaginês, durante a sua campanha dos Alpes. Posteriormente, as tribos Celto-Ligúria que habitavam a região haviam estado, a princípio, em oposição mas, depois, fizeram as pazes com Júlio César.
Uma colônia romana foi estabelecida ali, em Turim, entre 28 a.C. e 27 a.C, com a criação de um acampamento militar de nome Castra Taurinorum, e a cidade, em si, foi nomeada Augusta Taurinorum, em homenagem ao inicio do reinado de Augusto (27 a.C a
14 a.C.), que marcou o começo da prática de adoração ao imperador como deidade.
Em especial nas
províncias romanas de língua grega no Leste, muitos sentiam genuína gratidão por
Augusto, que havia estabelecido prosperidade e paz após um longo
período de guerras. As pessoas queriam proteção efetiva por meio de uma
autoridade visível. Desejavam uma instituição que eliminasse as
divergências religiosas, promovesse o patriotismo e unisse o mundo sob o
comando de seu “salvador”. Assim, o imperador passou a ser tratado com
honras conferidas a deuses.
Embora Augusto não permitisse
que o chamassem de deus enquanto vivo, ele insistiu na adoração da
personificação de Roma como deusa — Dea Roma. Augusto foi deificado
postumamente. Depois disso, o sentimento religioso e o patriotismo nas
províncias passaram a ser canalizados tanto para o centro do império
como para seus governantes. O novo culto do imperador, que logo se
espalhou a todas as províncias, tornou-se um meio de expressar homenagem
e lealdade ao Estado.
O filho de Cottius, também chamado Marcus Julius Cottius, que havia
sucedido a seu pai na chefia das tribos, recebeu o título de rei,
concedido pelo imperador Claudius. Antes de sua morte, o imperador Nero
anexaria esse reino ao Império Romano, como província de Alpes Cottiae,
tendo Turim como sede provinciana.
Uma tese, que me parece
bastante provável, é aquela que alega que o cristianismo dos valdenses do Piemonte teria, ao menos em parte, origem em escravos e cidadão romanos cristãos, que foragidos da metrópole, em pequenos grupos, escapavam das sucessivas perseguições ocorridas no Império, desde os dias logo após os apóstolos Pedro e Paulo entre eles semear
as Boas Novas (época da primeira perseguição sob Nero, entre os anos de 64 a 68 d.C), até o tempo daqueles que rejeitaram o vínculo Igreja-Estado romano sob Constantino, tais como alguns dos novacianos (2).
O Porta Palatina foi a "Porta Principalis Dextera" (à Porta principal à Direita),
que permitia o acesso do norte ao Augusta Taurinorum,
ou a civitas romana agora conhecido como Turim.
Estes foragidos buscaram um refúgio de relativa segurança naquela região montanhosa inóspita e pouco acessível dos vales
alpinos, se estabelecendo no campo, em locais afastados das rotas de passagem pelo Piemonte (que mais tarde ficariam conhecidos como Via Francigena), formando pequenos vilarejos, onde transmitiam o Evangelho de pai para filho e, com o tempo, foram convertendo e se misturando com os remanescentes das tribos Celto-Ligúria originais do região. Assim, desde de muito cedo haviam cristãos no Piemonte, tanto em Turim mas, principalmente fora dela, no campo.
O primeiro caso documentado de perseguição aos cristãos pelo Império Romano direciona-se a Nero. Em 64, houve o grande incêndio de Roma,
destruindo grande parte da cidade e devastando economicamente a
população romana. Nero era o suspeito de ter intencionalmente ateado fogo e, em seus
Anais, Tácito afirma que:
"Para se ver
livre do boato, Nero prendeu os culpados e infligiu as mais requintadas
torturas em uma classe odiada por suas abominações, chamada cristãos
pelo populacho"
Ao associar os cristãos ao terrível incêndio, Nero uma suspeita pública em cima de um preconceito pré-existente e, pode-se dizer, exacerbou as
hostilidades contra os cristãos por todo o Império Romano. As formas de execução utilizadas pelos romanos incluíam crucificação e lançamento de cristãos para serem devorados por leões e outras feras selvagens.
Os Annales de Tácito informam:
"... uma grande multidão foi condenada não apenas pelo crime de incêndio mas por ódio contra a raça humana. E,
em suas mortes, eles foram feitos objetos de esporte, pois foram
amarrados nos esconderijos de bestas selvagens e feitos em pedaços por cães, ou cravados em cruzes, ou incendiados, e, ao fim do dia, eram queimados para servirem de luz noturna.”
A morte de Nero, sem deixar herdeiros, em vez de trazer estabilidade ao império romano, desencadeou um ciclo de guerras civis conhecido como o ano dos quatro imperadores. No ano de 69 d.C., depois de assassinar Galba, Otão subiu ao trono de Roma, em Janeiro. Ele, imediatamente, teve que lidar com a revolta de Vitélio. Na guerra entre Otão e Vitélio, a cidade de Turim foi envolvida e quase totalmente incendiada e nenhum dos antigos monumentos romanos sobreviveu, exceto a Porta Palatina, vulgarmente conhecida como as Torres.
Isso ocorreu porque, simplesmente, por descuido, Vitélio fez com que fossem acantonados ali, juntos, soldados da XIV legião da Bretanha e soldados germânicos, que poucas semanas antes haviam estado em lados opostos da luta. Eles se desentenderam e houve confronto e, por fim, foi dada a ordem para que a XIV fosse retirada. Como vingança, na partida, eles queimaram a cidade.
Por fim, ainda no mesmo ano, Vespasiano é quem ascenderia em definitivo ao poder, proclamado imperador pelos seus próprios soldados, em Alexandria. Mesmo destruída pelo incêndio em 69 d.C, a cidade de Turim se reergueria
e, ainda, futuramente, passaria por outras destruições no século IV e V.
Domiciano, imperador de 81 d.C a
96 d.C., foi o primeiro governante romano a exigir ser adorado como deus.
À essa altura, os romanos já haviam distinguido os cristãos dos judeus e
se opunham ao que era encarado como "novo culto judeu". É provável que tenha
sido no reinado de Domiciano que o apóstolo João foi enviado ao exílio
na ilha de Patmos por “ter dado testemunho de Jesus”. (Rev. 1:9).
O livro de Apocalipse foi escrito
durante o exílio de João. O livro menciona Ântipas, um cristão morto em
Pérgamo, um importante centro de adoração do imperador. (Ap 2:12-13) É possível que nessa época o governo imperial tenha começado a exigir
que os cristãos realizassem os rituais da religião estatal. Seja como
for, por volta de 112 d.C., como indica a carta a Trajano, mencionada no
início, Plínio exigia que os cristãos na Bitínia realizassem tais
rituais.
O pensamento romano não podia conceber a ideia de uma religião que
exigisse devoção exclusiva de seus fiéis. Os deuses romanos não exigiam
isso, então, por que o exigiria o Deus dos cristãos? A adoração das
divindades estatais era vista como simples reconhecimento do sistema
político. Portanto, a recusa de adorá-las era considerada traição. Por isso, mais e mais cidadão e escravos romanos, uma vez convertidos ao cristianismo, não conseguiam mais continuar vivendo na capital e, por metida de segurança, partiam em pequenos grupos imigrando rumo ao norte.
Assim, todas essas destruições da cidade de Torino serviram, apenas, para reforçar a associação dos irmãos cristãos, que haviam sido em sua maioria, originalmente, foragidos de Roma, principalmente escravos estrangeiros, que preferiam viver nos campos, fora da cidade. Eles se sentiam seguros o bastante para expressar seu amor caridoso ao povo da cidade (muitos remanscentes das tribos ligurianas), sempre que esta sofria alguma contingência ou tribulação. Este era o embrião daquilo que se tornariam, mais tarde, no movimento espiritual denominado Valdense.
Em 177 d.C., quando ocorreu a perseguição e o martírio de Lugdunum (Lyon), o cristianismo ainda era uma religião ilícita, porém, mais ou menos tolerada na prática. Concentrado, a princípio, principalmente nas cidades da parte oriental do Império Romano, o cristianismo era perseguido pelo Estado romano esporádica e assistematicamente, em repressões localizadas nas cidade por um curto período de tempo. Mesmo sob o imperador Trajano que, para muitos teólogos cristãos da idade média, pôde ser considerado como um "pagão virtuoso", figurando entre os "cinco bons imperadores" de Roma, uma perseguição notável foi localizada na Bitínia (atual Turquia).
Nesta ocasião, Trajano estabeleceu que apesar dos cristãos não deverem ser caçados, se denunciados, todos os cristão deveriam fazer declaração de abnegação da fé, que não podia ser anônima. De fato, os cristãos viviam num clima de permanente insegurança e, muitas vezes, enfrentavam a pena de morte se não negassem sua fé. Embora Trajano não perpetuasse a perseguição na mesma escala de Domiciano e outros imperadores, ele executou vários líderes cristãos importantes, incluindo Inácio, Bispo de Antioquia, e Simeão, bispo de Jerusalém. "Trigo de Cristo, moído nos dentes das feras"
Por volta de 156-157 d.C., um movimento cristão radical apareceu na Frígia (também atual Turquia), denominado montanismo, que caracterizou-se como uma volta ao profetismo, pretendendo revalorizar elementos esquecidos da mensagem cristã primitiva, sobretudo a esperança escatológica, anunciava o eminente fim do mundo, defendia o ascetismo de serviço, o martírio, e o desafio à hierarquia estatal e militar. Os intelectuais cristãos rejeitam montanismo como herege, mas para o mundo romano de então, isso não fazia a menor diferença.
Foi por essa mesma época que Photinus chegou a Lyon, vindo da Asia Menor, sob influência montanista mas, também, sob forte influência do exemplo e do zelo de Policarpo de Esmirna, ancião de uma importante congregação que teve importante papel na consolidação da Igreja Cristã, que havia sido discípulo do apóstolo João (o evangelista) e considerado um dos três principais Padres Apostólicos da Igreja. Photinus chegou a Lyon para ser o primeiro bispo daquela cidade (e o primeiro bispo da Gália), num clima onde havia uma crescente rivalidade religiosa entre cristão e pagãos, principalmente com os seguidores do culto de Cibele, cuja religião, em concorrência com o cristianismo, prometera salvação depois da morte de seus seguidores. A combinação de fatores como pressões políticas e militares devido as ameaças bárbaras nas fronteiras e a posição dos cristãos, se recusando em participar de cerimônias religiosas solicitadas por Marco Aurélio para apoiar o Império, além da rivalidade local com os seguidores do culto de Cibele, desencadeou a perseguição em 177 d.C.
As províncias do Império Romano em sua máxima extensão (governo de Trajano)
Acusados de alguns dos absurdos de praxe (canibalismo, incesto, "e fazer o que não é permitido dizer ou sequer imaginar"), os cristãos foram proibidos de frequentar o mercado, o fórum, os banhos, ou de aparecer em quaisquer locais públicos, onde estavam sujeitos a ser escarnecido, espancado e roubado pelas turbas. As casas dos cristãos foram vandalizadas. Quanto tempo tudo isso durou não é indicado, mas, eventualmente, as autoridades apreenderam os cristãos e questionou-os no fórum na frente da população. Eles foram, então, presos até a chegada do governador. De acordo com Eusébio, enquanto ainda era um presbítero ou ancião, Irineu (ou Ireneu, que mais tarde vivia a ser o segundo bispo de Lyon e, também, um dos primeiros grandes teólogos cristãos) foi enviado com uma carta, a partir dos membros da Igreja de Lyon à espera do martírio, para Eleutério, bispo de Roma (por isso Irineu escapou de ser preso e martirizado).
Quando o governador chegou a Lugdunum, ele interrogou os cristãos presos na frente do povo de novo, maltratando-os a tal ponto que Vettius Epagathus, um cristão e homem de alta posição social, pediu permissão para testemunhar em favor dos acusados. Este pedido foi recusado e, em vez disso, o governador prendeu, também, Vettius Epagathu,s quando ele confessou ser um cristão. Em maior ou menor grau, todos os presos foram torturados. Eusébio cita nomes importantes entre as vítimas e lista 47 indivíduos como o destino eles tiveram: 22 entre homens e mulheres, foram decapitados; 6, incluindo uma mulher, Sta Blandina, condenados à morte na arena; outros 18 morreriam durante o processo, por maus tratos nas prisões, incluindo o bispo Photinus de cerca de 90 anos.
Das vítimas em Lyons, pouco mais da metade era da etnia galo-romana e o restante de origem grega. O idoso Bispo Pothinus foi espancado e açoitado, e morreu pouco depois na prisão. Blandina, que era uma escrava cristã que foi presa juntamente com sua senhora. Blandina era originária da Ásia Menor, mais especificamente a região central da atual Turquia. Apesar dos temores que os outros cristãos alimentavam com relação à sua fidelidade na fé, ela mostrou uma firmeza bastante extraordinária ao enfrentar o martírio, em que não lhe foi poupada a crueldade. Ela repetia: "Eu sou um cristã e entre nós não há mal nenhum". Ela foi inicialmente exposta, pendurada em uma estaca, para servir de alimento dos animais soltos em volta dela, porém, como nenhum dos animais a tocava, ela foi levada para a arena, juntamente com outros fiéis, sobreviventes de várias torturas, onde ela foi forçada a testemunhar a terrível morte de seus companheiros, enquanto ela superava mais uma vez o tormento da grelha ardente. Levada de volta para a prisão, depois foi lançada presa a uma rede e jogada diante de um touro que a golpeou com os chifres, jogou-a para o ar várias vezes e, finalmente, foi morta pela espada.
A Carta das Igrejas de Lyon e de Vienne às Igrejas da Ásia e da Frígia, incluindo a história da Bem-aventurada Blandina, continha o seguinte prólogo: Os servos de Cristo residente em Vienne e Lyons na Gália com os irmãos em toda a Ásia e Frígia, que têm a mesma fé e esperança de redenção como a nós mesmos, a paz, a graça e a glória de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Senhor . . .
No ano de 312 d.C., os arredores da cidade de Turim foi palco de uma importante batalha, quando Constantino desceu, em 312 d.C., até a Itália para eliminar Magêncio. Na batalha de Turim, após Constantino ter enfrentado uma primeira resistência em Segusia (Susa, Itália), as tropas de Magêncio foram, mais uma vez, derrotadas e o povo de Turim se recusou a dar refúgio às forças em retirada, fechando as portas da cidade contra eles, facilitando que eles fossem eliminados pelos soldados de Constantino. Após a batalha, Constantino entrou na cidade com as aclamações de sua população. Outras cidades da planície norte italiana, como Milão (em Italiano, Milano), reconhecendo o gênio militar de Constantino e seu tratamento favorável da população civil, enviaram a Turim embaixadas de congratulações por sua vitória. Apesar de fundada no século 4, a Igreja Católica Romana de Turim somente seria elevada a dignidade de Arquidiocese Metropolitana (como um território eclesiástico ou diocese da Igreja Católica Romana na Itália) em 1515. O primeiro bispo de Turim cujo nome há registro foi Maximus (São Máximo). Muitas das homilias de Maximus são existentes e nenhum outro bispo é conhecido antes dele. Ele morreu em 408 d.C (ou, pouco mais tarde).
Planície norte italiana e o Rio Po
Quando o Império Romano do ocidente caiu, Turim, que sempre foi valorizada pela sua terra fértil e acesso ao Rio Po, foi conquistada, sucessivamente, por diversas tribos bárbaras, incluindo os godos, os lombardos e os francos. Em 494 d.C. o bispo Victor de Turim foi com Santo Epifânio para a França para o resgate de prisioneiros de guerra. No início do século VII a Diocese de Moriana (Maurienne) foi separada da de Turim. Com a chegada da dominação da dinastia franca carolíngia, no final do 8º século, a cidade tornou-se a sede de um grande condado, que se estendeu até as encostas do Gran Paradiso e da Moncenisio, sendo limitada perto de Ivrea. Cláudio de Turim foi bispo de Turim de 817 a 839 d.C, data da sua morte. Ele esteve na corte de Luis da Aquitânia sendo comissionado por esse a escrever comentários sobre quase todos os livros da Bíblia para educação dos clérigos. A maioria desses comentários eram baseados na obra de Agostinho, por quem Cláudio tinha grande admiração. Cláudio tornou-se conhecido por suas pregações iconoclastas, ele foi um escritor abundante e polêmico, famoso por sua oposição à veneração de imagens e em combate aos desvios da igreja medieval e pelos ensinos que prefiguravam aqueles da Reforma Protestante. Ele foi acusado de heresia em escritos de São Dungal e Jonas de Orleans. No ano de 839 d.C, Cláudio, bispo de Turim, foi queimado na fogueira, alegadamente por seus protestos apaixonados contra a Igreja. Quase mil anos depois disso, em 1805, quando Napoleão Bonaparte perguntou ao interlocutor moderador da Igreja Valdense: "Quanto tempo faz que vocês se tornaram uma igreja independente?"- a resposta dada foi: "Desde a época de Cláudio, bispo de Turim ".
Imagem de satélite com a cidade de Turim, a nordeste, na imagem, e os vales valdenses,
indicando algumas das principais igrejas valdenses (balões vermelhos) nos vales.
Em 888 d.C, contra a vontade da população, boa parte do Piemonte se tornou em marquesado, ficando assim, até a metade do século X, quando Turim passou a ter alguma autonomia, com a cidade sendo governada por seus próprios regulamentos comuns, muitos dos quais escritos, décadas antes, pelo bispo Regimirus. Todavia, contra essa independência havia uma ameaça dupla: por um lado o ascendente Império Germânico e por outro lado as metas estabelecidas pela Família Savoia, que se via como herdeira dos direitos do antigo marquesado, reivindicando a propriedade dos territórios.
As pessoas do Piemonte, principalmente da cidade de Turim, tentaram lutar contra essas duas ameaças, mas eles não puderam evitar o fato de que, em 1130 Amadeo III de Savoia, também chamado de "O Cruzado", com força militar, tomasse posse da cidade. Amadeus tinha uma tendência a exagerar seus títulos, e também alegava ser duque de Lombardia, duque de Borgonha, Duque de Chablais, e vigário do Sacro Império Romano, o último dos quais tinha sido dado a seu pai por Henrique IV, o imperador do Sacro Império Romano. Em 1136, com o apoio de Lotario II de Supplimbergo, a cidade de Turim conseguiu excluir-se do condado dos Savoia e ser reconhecida e confirmada com o seu próprio sistema de direito comum. Já em 1155 Federico I, coroado imperador do Sacro Império Romano-Germânico pelo papa Adriano IV, mais conhecido como "Barbarossa" (Barba Ruiva) (1123-1190 d.C), depois de conquistar Milão, onde chocou-se com a feroz resistência das cidades lombardas, apoiadas pelo papado, chegou a Turim, com a vontade de reforçar o Império com todo o seu poder e santidade, e em 1159, ele reconheceu a autoridade de Carlo, o bispo da cidade, que se viu proprietário de Turim e das áreas vizinhas. O imperador entrou rapidamente em conflito com a Santa Sé, contra o Papa Alexandre III, eleito pelos cardeais e reconhecido na Itália, França e Inglaterra, suscitando o antipapa Vitor IV, que fez reconhecer no sínodo de Pávia. Os conflitos foram enormes e sangrentos em virtude da atitude anti Roma adotada pelo imperador Barbarossa. Assim, não foi nem tanto por diferenças na fé cristã exercida pelos dois povos, que surgiram as primitivas rivalidades entre as cidades de Turim e de Milão que perduram até hoje, mas, sim, porquanto o Papado, na Idade Média desempenhava um importante papel temporal, além de seu papel espiritual. O conflito entre o papa e o imperador do Sacro Império Romano era, fundamentalmente uma, disputa sobre qual deles era o líder da cristandade em assuntos seculares.
Não obstante ao fato de que Frederico foi finalmente vencido em Legnano, em 1176, pelas tropas da Liga Lombarda e teve de assinar a Paz de Veneza, em 1177, humilhando-se e prostrando-se aos pés do Papa, que apenas por este preço lhe concedeu o beijo da paz, com o tempo, o povo acabou assimilando, sobre e para si, tal rivalidade, como tradição. Um exemplo disso, é a Igreja Valdense, em Milão, que foi construída em 1949 incorporando parte da área e materiais da antiga basílica gótica demolida de San Giovanni in Conca. A Basílica de San Giovanni in Conca datava do século IV, e era localizada em um bairro residencial da cidade antiga. Vestígios do pavimento mosaico deste edifício originais estão agora no Museu Arqueológico de Milão, tendo restado no local, apenas, uma cripta, da antiga igreja basílica, que agora estrá localizada no centro da Piazza Missori. A igreja havia sido reconstruída no século 11, mas foi destruída por tropas de Frederico Barbarossa em 1162. Ela foi novamente reconstruída no século 13 e, mais tarde tornou-se a capela privada dos governantes Visconti de Milan. Bernabò Visconti tinha ligado-a ao seu novo grandiosopalácio através de um passeio elevado, e foi sepultado ali em um monumento por Bonino da Campione que agora está no Castelo Sforzesco, juntamente com a de sua consorte, Regina della Scala.
Fachada reconstruída de San Giovanni in Conca
na Igreja Valdense moderna em Milão.
Em 1531, o Duque Francesco Sforza II doou-a aos Carmelitas, que erigiram um campanário que foi utilizado como observatório astronômico no século 19. A igreja foi desconsagrada pelos austríacos e fechada pelos franceses no final do século 18. Em 1879, a igreja foi encurtada para permitir a construção da atual Via Mazzini, na ocasião, a fachada gótica foi anexada ao abside. San Giovanni in Conca foi então vendida para os valdenses, que, quando a igreja foi demolida, em 1949, reconstruíram a fachada sobre a sua nova igreja na Via Francesco Sforza. As obras de demolição, porém, pararam pouco antes de seu fim, deixando apenas a cripta e restos da abside.
Restos atuais de parte da cripta de San Giovanni in Conca
visível da superfície.
Isso foi visto como uma forma dos Turineses, por meio dos valdenses, afirmarem sua superioridade sobre os Milaneses, vencendo-os em seu próprio território, da mesma forma como os Milaneses, e outros turistas católicos mantém a tradição de, ao visitarem a Galleria Vittorio Emanuele II, Milão, acreditarem na superstição de que dá sorte, trás prosperidade e fertilidade, pisar com o pé direito e “girar” os pés com os olhos fechados em cima dos testículos do touro representado em mosaico no piso do Ottagono da galeria que, na verdade, representam o brasão de armas e a bandeira da cidade de Turim.
O sacerdote dominicano e inquisidor Rainer Sacho, que morreu em 1259 escreveu: “Não há seita tão perigosa como os leonitas (hereges, chamados Valdenses mais tarde), por estas três razões: Primeira, porque é a seita mais antiga; alguns dizem que é tão antiga que data aos dias de Silvestre, ..." Repare que "leonitas" queria significar os originários da cidade de Lyon, ou seja, Pedro Valdo e seus primeiros seguidores. Todavia, é óbvio que estes não tinham, em si, uma história que remontasse ao tempo de Silvestre (o papa do tempo do imperador Constantino, canonizado santo pela igreja católica) mas, o povo que habitava as comunidades os vales Alpinos do norte da Itália, sudeste da França e sul da Suíça, este sim, pode ter tal história.
A destruição em dias de perseguição, de muitos documentos valdenses que poderiam ter contido material de ajuda às investigações de suas origens, complica ou mesmo impede de se fazer mais do que simplesmente indicar linhas de pesquisas. Todavia, muitos creem, que valdenses e judeus também tiveram algumas afiliações pessoais e literárias. Em 1532, durante o Sínodo de Chanforan, os pastores valdenses mostraram aos seus aliados, os reformadores franco-suíços presentes ao sínodo, as suas antigas Bíblias, todas escritas à mão, e em seu próprio dialeto. Os tradutores da Bíblia em latim e hebraico para as línguas vernáculas da Europa dá época, voltavam-se, quase sempre, para comentários e para a assistência de mestres nascidos em famílias judias.
Não obstante, o fato é que Pedro Valdo chegou ali, naquelas comunidades dos vales alpinos, por volta de 1185, em busca de abrigo e carregando o seu sonho de ver a Bíblia traduzida para línguas vernáculas e foi bem recebido, passando, com o tempo, a ser considerado como um dos seus apóstolos pelos próprios valdenses,
a quem ele ajudou a sair do relativo isolamento em que se encontravam
para lhes dar um notável impulso missionário. Realizou numerosas
viagens e espalhou a fé em muitos países.
Assim, os Pobres de Lyon (os valdenses do Piemonte) e os pobres lombardos puderam unir forças em Bergamo, ganhando uma maior solidariedade para o Movimento Valdense e um forte quadro organizacional evangelizador. Em última análise, a Escola dos Barbes foi estabelecida para melhor servir a essa missão apostólica. Diversas
congregações de irmãos floresceram por toda a Europa ocidental, e
se converteram em refúgio e em meio de orientação para outros irmãos
perseguidos, tais como albigenses e cátaros.
Pedro de Valdo morreu
provavelmente na Boêmia, no ano de 1217, onde trabalhou ardentemente
para semear a semente do Evangelho, que floresceria mais tarde entre
os Irmãos Unidos e João Huss.
Em 1229, a Igreja
Católica havia completado sua sangrenta cruzada contra os cátaros,
ou albigenses, no sul da França. Em breve, os valdenses
tornar-se-iam os próximos objetos dos mesmos semelhantes esforços.
A Inquisição, em pouco tempo, se voltaria impiedosamente contra
todos os opositores da Igreja. Infelizmente, o temor fez com que os
muitos valdenses passassem a agir às ocultas. Em 1230, eles já não
mais pregavam, sistematicamente, em público.
Audisio explica: “Em
vez de procurarem novas ovelhas . . . , dedicavam-se a cuidar dos que
já eram convertidos, mantendo-os na fé em face da pressão externa
e da perseguição.” Ele acrescenta que “a pregação continuou
essencial, mas mudara completamente na maneira em que era realizada”.
Em 1487 o Papa Inocêncio VIII emitiu uma bula para o extermínio dos valdenses. Alberto de 'Capitanei, arquidiácono de Cremona, respondeu organizando uma cruzada para concluir o processo e lançaram uma ofensiva nas províncias de Dauphiné e Piemonte. A ofensiva devastou a área, e muitos dos valdenses fugiram, principalmente para a Provença e para o sul da Itália, até que, por fim, Charles I, duque de Savoia (ou Saboia), interveio para trazer a paz às suas terras.
A Fé e as Práticas dos Valdenses
Os Valdenses reconheciam
nas Escrituras a única autoridade final e definitiva para sua fé e
práticas. Criam na justificação pela fé e rejeitavam as obras
meritórias como fonte de salvação. Em 1212 um grupo de 500
Valdenses de várias nacionalidades foram detidos em Estrasburgo e
queimados em fogueira. Então, um dos seus pastores declarou pouco
antes de morrer: "Nós somos pecadores, mas não é a nossa fé
a que nos faz tais; tampouco somos culpados da blasfêmia pela qual
somos acusados sem razão; mas esperamos o perdão dos nossos
pecados, e isto sem a ajuda do homem, e tampouco através dos méritos
ou de nossas obras".
Além das Escrituras, não
sustentavam nenhum outro credo ou confissão de fé particular. Apesar
disso, conseguiram conservar quase intactas a sua fé e as suas
práticas ao longo de vários séculos, a qual prova que o melhor
remédio contra a heresia e o engano é a espiritualidade apoiada em
uma profunda fidelidade e apego às Escrituras.
Tinham, em particular, a
mais alta avaliação pelas palavras e obras do Senhor Jesus Cristo
nos Evangelhos. A sua meta principal era seguir a Cristo, guardando
as suas palavras e imitando o seu exemplo. Não davam muita
importância ao conhecimento meramente teológico e mental da
verdade, pois insistiam que isto só podia ser entendido por meio da
luz que o Espírito Santo concede ao coração daqueles que obedecem
as palavras de Deus. Da mesma maneira, colocavam em um lugar central
da sua vida os ensinos do Sermão do Monte, e as consideravam como
uma regra de vida para todos os filhos de Deus.
Além disso, rejeitaram
as disputas doutrinarias como infrutíferas, e aceitavam os ensinos
dos homens de Deus de toda época e lugar, caso estas se conformassem às Escrituras. O seu maior interesse estava em uma espiritualidade real e
prática.
O inquisidor Passau disse
a respeito deles: "As pessoas podem conhecê-los por seus
costumes e suas conversações. Ordenados e moderados evitam o
orgulho nas vestes, que não são de tecidos baratos nem luxuosos.
Não se metem em negócios, a fim de não se verem expostos a mentir,
a jurar nem enganar. Como obreiros vivem do trabalho das suas mãos.
Os seus próprios mestres são tecelões ou sapateiros. Não acumulam
riquezas e se contentam com o necessário. São castos, sobre tudo os
lioneses, e moderados em suas comidas. Não frequentam os botequins
nem os bailes, porque não amam essa classe de frivolidades. Procuram
não se zangar. Sempre trabalham e, no entanto, acham tempo para
estudar e ensinar. São conhecidos também por suas conversações
que são ao mesmo tempo sábias e discretas; fogem da maledicência e
se abstêm de conversas vãs e zombadoras, assim como da mentira. Não
juram e nem sequer dizem 'é verdade', ou 'certamente', porque para
eles isso equivale a jurar".
Quanto à ordem da
igreja, não tinham nenhuma classe de organização centralizada, nem
hierarquia superior. No entanto, em vez de fazerem tanto homens como
mulheres se empenhar na pregação, os valdenses, no século XIV,
haviam criado uma distinção entre pregadores e crentes. A essa
altura, apenas homens bem treinados se empenhavam na obra pastoral.
As suas assembleias eram dirigidas por anciões ou presbíteros a
quem chamavam 'Barbas' (barbes, que significa, literalmente, tios no dialeto deles). Celebravam juntos a Ceia do
Senhor, sem excluir a nenhum crente dela.
Os barbes, que visitavam
famílias valdenses nos seus lares, empenhavam-se em manter o
movimento vivo, em vez de difundi-lo. Todos os barbes sabiam ler e
escrever, e seu treinamento, que durava até seis anos, baseava-se na
Bíblia. O uso da Bíblia no vernáculo ajudava-os a explicá-la aos
seus rebanhos. Até mesmo os opositores admitiam que os valdenses,
inclusive seus filhos, tinham uma forte cultura bíblica e podiam
citar grandes partes das Escrituras.
Entre outras coisas, os
primeiros valdenses rejeitavam a mentira, o purgatório, missas pelos
mortos, perdões e indulgências papais, e a adoração de Maria e de
“santos”. Realizavam também celebrações anuais da Refeição
Noturna do Senhor, ou Última Ceia. Segundo Lambert, sua forma de
adoração, “na realidade, era a religião do leigo comum”.
Mas eles também
reconheciam a necessidade da existência de um ministério apostólico
extra-local e itinerante. Assim, os apóstolos Valdenses viajavam
continuamente entre as igrejas para ensinar, encorajar e ganhar novos
convertidos. Os barbes não possuíam bens econômicos nem famílias,
já que nessas andanças as suas vidas estavam em contínuo perigo e
aflição.
As suas necessidades eram
supridas pelos demais irmãos, os quais os tinham na maior estima e
reconhecimento. Viajavam de dois em dois, sempre com um mais velho
acompanhado de um mais jovem, como aprendiz. Muitos tinham
conhecimentos rudimentares de medicina para ajudar os necessitados.
Também havia entre eles homens altamente educados e eruditos.
Frequentemente as pessoas os chamavam 'Amigos de Deus' devido a sua
profunda espiritualidade e simplicidade. Pedro de Valdo, como vimos,
foi um deles.
As comunidades dos
valdenses eram muito unidas. As pessoas se casavam com outros membros
do movimento e, no decorrer dos séculos, isto criou sobrenomes
próprios valdenses. Na sua luta para sobreviver, porém, os
valdenses procuravam não chamar a atenção sobre si e,
consequentemente muitas vezes ocultar seus conceitos aos que eram
estranhos. O segredo mantido sobre suas crenças e práticas
religiosas facilitou aos opositores lançar contra eles acusações
absurdas, por exemplo, dizendo que praticavam a adoração do Diabo.
Um modo de os valdenses
combaterem essas acusações foi por transigirem e praticarem o que o
historiador Cameron chama de “conformidade mínima” com o culto
católico. Muitos valdenses se confessavam a sacerdotes católicos,
assistiam à missa, usavam água benta e até participavam em
peregrinações.
Lambert observa: “Em
muitos sentidos, faziam o mesmo que seus vizinhos católicos.”
Audisio declara francamente que, com o tempo, os valdenses “levavam
vida dupla”. Ele acrescenta: “Por um lado, ao que tudo indica,
comportavam-se como católicos para proteger sua relativa
tranquilidade; por outro lado, observavam alguns ritos e hábitos
entre eles para garantir a continuidade da comunidade.”
Igreja Valdense de 1798 - época em que os Valdenses já estavam livres para construir suas igrejas em Pra Del Tor (Pradeltorno)
considerada a zona mais sagrada de todos os Vales Valdenses - próximo ao antigo Colégio dos Barbes
Perseguições e
martírios
Apesar do seu relativo e
tranquilo isolamento nos vales de Piemonte, as constantes atividades
missionárias dos seus apóstolos atraíram, finalmente, para si a
atenção e o ódio da cristandade organizada. Os numerosos santos
perseguidos em outras partes encontravam refúgio em suas
assembleias, que se tinham espalhado por vários países da Europa.
Este fato muito em breve atraiu sobre eles o olhar implacável dos
inquisidores e os interesses de autoridades políticas.
Em 1192, alarmado pelo
crescente número dos Valdenses na Espanha, o Rei Alfonso de Aragón
emitiu um decreto contra eles nos seguintes termos: "Ordenamos a
todo valdense que, já que estão excomungados da santa igreja,
inimigos declarados deste reino, têm que abandoná-los, e igualmente
a outros estados dos nossos domínios. Em virtude desta ordem,
qualquer que a partir de hoje receber em sua casa os mencionados
Valdenses, assistir os seus perniciosos discursos, dar-lhes
mantimentos, atrairá por isso a indignação do Deus todo-poderoso e
a nossa; os seus bens serão confiscados sem apelação, e será
castigado como culpado do crime de lesa-majestade ... Além disso,
qualquer nobre ou plebeu que encontre dentro dos nossos estados a um
destes miseráveis, saiba que se os ultrajar, maltratá-los e os
perseguir, não fará com isto nada que não nos seja agradável".
Muitos irmãos sofreram o martírio durante a perseguição que
desencadeou a partir desse decreto real.
Já em 1199, o bispo de
Metz, no nordeste da França, queixou-se ao Papa Inocêncio III de
que pessoas estavam lendo e considerando a Bíblia no vernáculo.
Muito provavelmente, o bispo estava fazendo uma referência, mesmo
que indireta, aos valdenses.
Mais adiante, em 1380, um
emissário da igreja oficial foi enviado para ocupar-se com eles nos
vales de Piemonte. Durante os próximos 30 anos, 230 irmãos foram
queimados na fogueira e seus bens repartidos entre os seus
perseguidores. A perseguição se agravou em 1400 e, então, muitas
mulheres e crianças procuraram refúgio nas altas montanhas dos
Alpes. Ali a maior parte deles morreu de fome e frio.
Em 1486 se emitiu uma
carta pontifícia em oposição a eles e os vales foram invadidos por
um exército de 8000 soldados de Arquidiácono de Cremona, cujo
objetivo era extirpar os hereges. Mas desta vez os pacíficos
camponeses Valdenses tomaram as armas para defender-se, por isso o
sangrento e desigual conflito se estendeu por quase 100 anos. A
resistência dos irmãos foi então tão heroica, naquele período,
que receberam o nome de Israel dos Alpes.
Passando da Heresia Para o Protestantismo
No século XVI, a Reforma
mudou radicalmente o cenário religioso europeu. Vítimas de
intolerância podiam procurar reconhecimento legal no seu próprio
país ou emigrar em busca de condições mais favoráveis. A ideia de
heresia também se tornou menos importante, visto que muitos haviam
começado a questionar a ortodoxia religiosa estabelecida.
Obelisco Valdense comemorativo do Sínodo de 1532
(Sínodo de Chanforan ou Sínodo de Angrogna)
Já em 1523, o bem
conhecido reformador Martinho Lutero mencionou os valdenses. Em 1526,
um dos barbes valdenses levou aos Alpes as notícias sobre os
acontecimentos religiosos na Europa. A isto se seguiu um período de
intercâmbio, durante o qual comunidades protestantes compartilhavam
ideias com os valdenses.
Durante o Sínodo de Chanforan, realizado entre os valdenses e os reformadores da Suíça (em 12 de setembro 1532), os protestantes
incentivaram os valdenses a patrocinar a primeira tradução da
Bíblia, a partir das línguas originais para o francês. Impressa em 1535, ela
ficou mais tarde conhecida como a Bíblia Olivétan (veja o texto
adiante). Ironicamente, porém, a maioria dos valdenses não entendia
o francês, pois eles tinham uma língua materna diferente (idioma piemontês que na época era muito próximo do dialeto occitano). De fato, a língua da região do Piemonte, Piemontese, ainda hoje contém muitas palavras de origem celta e é mais do que um dialeto: é de fato uma língua separada falado até hoje pelo povo de Torino e da região do Piemonte, dando-lhes uma senso de identidade unitário e afinidade com a sua antiga herança ancestral.
Com a continuação da
perseguição causada pela Igreja Católica, grande número de
valdenses se estabeleceu na região mais segura da Provença, no sul
da França, assim como fizeram muitos imigrantes protestantes. As
autoridades foram logo alertadas sobre esta imigração. Apesar de
muitos relatórios positivos a respeito do estilo de vida e da moral
dos valdenses, alguns questionavam sua lealdade e os acusavam de
serem uma ameaça para a boa ordem.
Neste momento da
história, os exércitos da igreja organizada aproveitaram para tomar
vingança contra os Valdenses, e arrasaram literalmente várias das
suas aldeias e povos. Em Provença, no sul da França, floresciam 30
aldeias Valdenses que tinham começado a fazer contato com os líderes
da Reforma.
A Reforma já havia
dividido a Alemanha, quando o rei católico Francisco I, da França,
preocupado com a expansão do protestantismo, fez indagações a
respeito de supostos hereges no seu reino. Em vez de encontrar uns
poucos casos isolados de heresia, as autoridades na Provença
descobriram aldeias inteiras de dissidentes religiosos. Inteirados,
os seus inimigos convenceram mediante ardis e mentiras Francisco I.
Pressionado pelo Cardeal Tournon, o rei emitiu o edito de Mérindol,
para “eliminar a heresia”, ordenando que todos os Valdenses
fossem exterminados (19 de janeiro de 1545), que resultou no horrível
derramamento de sangue.
Na bela região de
Lubéron, da Provença, no sul da França, ali se reunira um exército
para cumprir aquela terrível missão, instigada pela intolerância
religiosa. Seguiu-se uma primeira semana de derramamento de sangue:
aldeias foram arrasadas, e os habitantes foram presos ou mortos.
Soldados brutais praticaram atrocidades cruéis num massacre que fez
a Europa estremecer.
Depois de semanas de
matanças, haviam sido mortos cerca de 3 a 4 mil homens e mulheres. A
brutalidade e o horror se estenderam pela região. Vinte e duas
aldeias ficaram totalmente destruídas. Os poucos sobreviventes, uns
600 homens, foram mandados trabalhos forçados em galés, para servir
de remadores nas galeras por toda a vida e apenas um reduzido número
conseguiu escapar para a Suíça. O comandante militar que executou
esta campanha sanguinária foi elogiado pelo rei francês e pelo
papa.
As relações entre os
católicos e os valdenses continuaram a piorar. Reagindo aos ataques
contra eles, os valdenses recorreram à força das armas para se
defender. Este conflito os levou a acelerar o seu ingresso no rebanho
protestante. De modo que os valdenses se aliaram à corrente
principal do protestantismo.
No decorrer dos séculos,
estabeleceram-se igrejas valdenses em países tão distantes da
França como o Uruguai e os Estados Unidos. Todavia, a maioria dos
historiadores concorda com Audisio, que diz que “o valdismo acabou
na época da Reforma”, quando foi “absorvido” pelo
protestantismo.
Colônia Valdense no Uruguai atual
Essa conclusão deriva do
fato de que, na realidade, o movimento valdense havia perdido muito
do seu zelo inicial séculos antes. Isto se deu quando os seus
membros, pressionados por medo da perseguição, abandonaram, em boa
parte, a pregação pública do ensino orientado pela Bíblia.
Olivétan, “O
simples e humilde tradutor” da Bíblia Francesa
Era 13 de setembro de
1540. A polícia estava fazendo uma busca na casa de um homem chamado
Collin Pellenc. Num aposento secreto eles encontraram alguns
documentos suspeitos, entre eles um grande livro. Na segunda página
estava escrito: “P. Robert Olivetanus, o simples e humilde
tradutor.” Era uma Bíblia valdense. Collin Pellenc foi preso,
condenado por heresia e queimado vivo.
Naquela época, na
França, assim como em toda a Europa, a Igreja Católica estava a
caça dos reformadores, num esforço de erradicar suas “doutrinas
insidiosas”. Um dos reformadores, o entusiástico Guillaume Farel,
estava determinado a fazer com que os países de língua francesa
adotassem os conceitos de Martinho Lutero, uma figura de destaque na
Reforma Protestante.
Farel, da província de
Delfinado, sudeste da França, sabia que um fator-chave para mudar os
conceitos das pessoas era o uso da página impressa. Para cumprir sua
missão, ele precisava de panfletos e tratados, bem como de Bíblias.
Mas quem poderia financiar esse empreendimento? Por que não os
valdenses, um grupo religioso independente dedicado à pregação da
Bíblia?
Em meados de setembro de
1532, os barbes (pastores valdenses) realizaram um sínodo, ou
conferência, em Chanforan, uma pequena vila perto de Turim, na
Itália. Durante muitos anos, os valdenses e os líderes da Reforma
trocaram ideias. Assim, Farel e vários outros foram convidados para
o sínodo. Os valdenses queriam saber se suas doutrinas se
harmonizavam com as doutrinas pregadas por Lutero e seus discípulos.
Em Chanforan, a
eloquência de Farel foi convincente. Quando os pastores valdenses
lhe mostraram suas antigas Bíblias escritas à mão em seu próprio
dialeto, ele os convenceu a financiar a impressão de uma Bíblia em
francês. Em contraste com a versão de 1523 de Lefèvre d’Étaples,
baseada no latim, essa Bíblia era para ser traduzida do hebraico e
do grego. Mas quem seria capaz de realizar essa tarefa?
Farel sabia exatamente
quem chamar. Tratava-se de Pierre Robert, mais conhecido pelo
codinome Olivétan, um jovem professor nascido na região de
Picardia, norte da França. Olivétan, primo de João Calvino, foi um
dos primeiros reformadores e era um homem de confiança. Ele também
havia passado vários anos em Estrasburgo, estudando diligentemente
os idiomas bíblicos.
Assim como Farel e muitos
outros, Olivétan havia se refugiado na Suíça. Seus amigos
imploraram para ele aceitar esse projeto de tradução. Depois de
recusar várias vezes, ele finalmente aceitou a comissão de traduzir
a Bíblia “com base nos idiomas hebraico e grego para o francês”.
Ao mesmo tempo, os valdenses deram 500 das 800 moedas de ouro — uma
fortuna — necessárias para financiar uma gráfica.
No começo de 1534,
Olivétan se isolou nos Alpes e começou seu trabalho cercado de seus
“professores silenciosos”, seus livros. Sua biblioteca causaria
inveja a qualquer erudito de nossos tempos. Ela incluía versões da
Bíblia em siríaco, grego e latim, comentários rabínicos, livros
de gramática caldeus (aramaicos) e muitos outros livros. Mais
importante ainda, Olivétan tinha uma edição veneziana atualizada
do texto original da Bíblia em hebraico.
Olivétan baseou sua
tradução do que muitos chamam de Novo Testamento no texto francês
de Lefèvre d’Étaples, embora o texto grego desenvolvido pelo
erudito holandês Erasmo tenha sido consultado com frequência.
A escolha de palavras de
Olivétan muitas vezes tinha o objetivo de afrouxar o domínio
exercido pelo catolicismo. Por exemplo, ele preferiu usar
“superintendente” em vez de “bispo”, “segredo” em vez de
“mistério” e “congregação” em vez de “igreja”.
No caso da parte
conhecida por muitos como Velho Testamento, Olivétan estava
determinado a traduzir o hebraico original palavra por palavra. Ele
dizia em tom de brincadeira que traduzir do hebraico para o francês
era como “ensinar ao doce rouxinol o canto estridente da gralha”.
No texto hebraico,
Olivétan se deparou centenas de vezes com o nome divino na forma do
Tetragrama. Ele decidiu traduzi-lo por “O Eterno”, uma expressão
que mais tarde se tornou comum nas Bíblias protestantes em francês.
No entanto, ele optou por usar “Jeová” em vários lugares, como
em Êxodo 6:3.
Por incrível que pareça,
em 12 de fevereiro de 1535, apenas cerca de um ano depois, esse
tradutor declarou o término de sua obra. Visto que ele admitiu que
tinha ‘já por muito tempo se empenhado por conta própria nesse
trabalho árduo [de tradução]’, tudo indica que o ano de
1534/1535 foi o clímax de um processo contínuo e meticuloso. “Fiz
o melhor que pude”, disse modestamente o tradutor. Agora só
faltava imprimir a primeira Bíblia francesa traduzida com as línguas
originais em mente.
Pierre de Wingle, também
conhecido como Pirot Picard, amigo de Farel e impressor dos
reformadores, entrou em cena. Depois de ser banido de Lyon pela
Igreja Católica, ele se estabeleceu em Neuchâtel, Suíça, em 1533.
Com o dinheiro dos
valdenses, ele começou a imprimir “material subversivo” em
abundância. Tinha sido a sua gráfica, por exemplo, que
anteriormente havia produzido os folhetos que condenavam a Missa,
alguns dos quais chegaram às mãos do rei católico Francisco I, da
França.
Assim, novamente De
Wingle colocou suas impressoras em ação, dessa vez para produzir
uma Bíblia. A fim de acelerar o processo, uma equipe de quatro ou
cinco trabalhadores operava cada uma das duas impressoras, compondo
os tipos e imprimindo as folhas. Por fim, no “ano de 1535, no dia 4
de junho”, De Wingle assinou a página do impressor da Bíblia de
Olivétan. No seu prefácio, o tradutor dedicou sua obra aos pobres
crentes “esmagados e oprimidos” por “tradições vãs”.
O resultado final atingiu
todas as expectativas. A elegante e legível escrita gótica,
disposta em duas colunas e com divisões em capítulos e parágrafos,
davam beleza e simplicidade ao texto francês. As notas marginais
atestam a erudição do tradutor. Os comentários introdutórios, os
apêndices, as tabelas e os poemas também embelezam a obra. No fim
do volume, há um poema acróstico que revela o seguinte verso
rimado: “Os valdenses, que o Evangelho pregam, este tesouro ao
público entregam.”
A Bíblia de Olivétan de 1535
A Fé Destemida dos
Valdenses
“Todos estes morreram
na fé, sem ter obtido as promessas; vendo-as, porém, de longe, e
saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a
Terra.” Heb. 11:13.
Em 1655 Charles Emmanuel II, duque de Savoia renovou a perseguição. Ele deu-lhes 20 dias para os valdenses venderem suas terras e deixar a cidade ou passar a assistir missa católica. Quando ele descobriu que muitos dos habitantes da cidade tinham fugido, ele criou uma falsa revolta para enviar tropas. Como parte do decreto, exigia que o povo da cidade abrigasse as tropas em suas casas. A ordem de aquartelamento não foi necessária, mas era uma maneira de obter as tropas perto das pessoas, sem levantar suspeitas.
Em 24 de abril de 1655, houve uma ordem dada para começar o ataque contra o povo, no qual as forças católicas foram além da razão para atacar os valdenses, desencadeando uma campanha não-provocada de saques, estupros, tortura e assassinato. O número estimado de vítimas foi de cerca de 2.000 pessoas mortas e outras 2.000 foram convertidos à força à fé católica. A noticia dos assassinatos espalhou-se rapidamente por toda a Europa e grandes esforços foram feitos para remover quaisquer sobreviventes da área e trazê-los para a segurança. Os eventos associados a este massacre são o que levaram a inspiração e escrita do soneto de John Milton "Sobre o massacre tardio no Piemonte" (On the Late Massacre in Piedmont)
Avenge, O Lord, thy slaughtered saints, whose bones
Lie scattered on the Alpine mountains cold,
Even them who kept thy truth so pure of old,
When all our fathers worshiped stocks and stones;
Forget not: in thy book record their groans
Who were thy sheep and in their ancient fold
Slain by the bloody Piedmontese that rolled
Mother with infant down the rocks. Their moans
The vales redoubled to the hills, and they
To Heaven. Their martyred blood and ashes sow
O'er all th' Italian fields where still doth sway
The triple tyrant; that from these may grow
A hundredfold, who having learnt thy way
Early may fly the Babylonian woe.
Cromwell, Protetor dos valdenses - pintura por Ford Madox Brown que retrata
Oliver Cromwell , em conversa com John Milton, ditando uma carta para
Andrew Marvell, protestando contra o massacre da Páscoa no Piemonte (1655)
Por conta desse massacre e desapropriações de valdenses na Itália, o então governante "Lord Protector" inglês Oliver Cromwell organizou uma ação internacional, escrevendo uma série de cartas, levantando contribuições financeiras para as vítimas e ameaçando uma ação militar. Durante sua vida, os perseguidores refrearam os seus ataques, mas depois de sua morte os valdenses foram perseguidos repetidamente.
O lider valdense Henri Arnaud nasceu em
Embrun, nos Altos Alpes da França, em 1641. Por volta de 1650, sua
família retornou para o seu vale de origem de Luserna San Giovanni,
onde Arnaud foi educado em La Tour (a aldeia principal),
posteriormente, frequentou o colégio em Basileia (1662 e 1668) e a
faculdade em Genebra (1666). Retornou depois para a sua cidade natal,
foi pastor em várias aldeias dos vales valdenses antes de se fixar
em La Tour (1685).
Henri Arnaud e seus
companheiros valdenses eram cristãos fervorosos, que ousavam ser
diferentes, rejeitando os decretos da Igreja estatal. Para eles, os
mandamentos de Deus eram mais importantes do que as tradições
humanas. Mas a Igreja oficial enviou um exército para destruí-los
e, assim, o pastor dos valdenses no Piemonte, se viu forçado a se
tornar também um militar a fim de livrar seus correligionários da
perseguição de Vítor Amadeu II, o duque de Savoia.
Em 1685, o rei Luis XIV revogou o Édito de Nantes de 1598, que havia garantido a liberdade de religião a seus súditos protestantes na França. Tropas francesas foram enviadas para as áreas valdenses francesas do Vale Chisone e do Vale Susa, no Dauphiné, causando a "conversão" de 8000 valdenses a aceitar o catolicismo, e obrigando outros 3.000 a partir para a Alemanha.
No Piemonte, o primo de Luis, o recém ascendido Duque Savoia, seguiu o rei na remoção da proteção dos protestantes no Piemonte. Na perseguição renovada e, em um eco do Massacre de Páscoa do Piemonte, que ocorrera apenas três décadas antes, o Duque emitiu um decreto em 31 de janeiro de 1686, que decretou a destruição de todas as igrejas valdenses e que todos os habitantes dos Vales deviam anunciar publicamente o erro na sua religião no prazo de quinze dias, sob pena de morte e banimento. Mas os valdenses permaneceram resistentes. Depois de 15 dias, um exército de 9.000 soldados franceses e piemonteses invadiram os Vales, contra os estimados 2.500 valdenses, mas descobriu que cada aldeia tinha organizado uma força de defesa que mantinha os soldados franceses e piemonteses na baía.
Em 9 de abril, o duque de Savoia emitiu um novo decreto, que obrigava os valdenses a depor as armas dentro de oito dias e ir para o exílio entre 21 e 23 de abril. Se possível, eles eram livres para vender suas terras e posses para o maior lance.
Igreja Valdense em Turim
Pastor Valdense Henri Arnaud, que havia sido expulso do Piemonte nos expurgos anteriores, retornou da Holanda. Em 18 de abril, ele fez um apelo inflamado diante de uma assembléia em Roccapiatta, conquistando a maioria em favor da resistência armada. Quando a trégua terminou em 20 de abril, os valdenses estavam preparados para a batalha.
Eles travaram uma corajosa luta ao longo das próximas seis semanas. Mas quando o duque retirou-se para Turim, em 08 de junho, a guerra parecia decidida: 2000 valdenses haviam sido mortos; outros 2000 tinham "aceitado" a teologia católica do Concílio de Trento, enquanto outra 8000 foram presos, dos quais mais da metade iria morrer de fome, deliberadamente imposta, ou da doença dentro de seis meses .
Mas cerca de duzentos ou trezentos valdenses fugiram para as colinas e começaram a levar a cabo uma guerra de guerrilha ao longo do próximo ano contra os colonos católicos que chegaram para assumir as terras valdenses. Estes "Invencíveis", continuaram com seus ataques até que o Duque finalmente cedeu e concordou em negociar.
O "invencíveis" ganharam o direito para que os valdenses presos fossem libertados da prisão, e que fosse fornecida passagem segura para eles até Genebra. Mas o Duque, concedendo a permissão em 3 de janeiro de 1687, exigia que os valdenses partissem imediatamente ou que se convertessem ao catolicismo romano. Este decreto levou a algo próximo de 2800 valdenses deixando o Piemonte, indo para Genebra (Suíça), dos quais apenas 2.490 sobreviveria a viagem.
Henri Arnaud era o
líder natural de seus correligionários durante e depois que Vítor
Amadeu II de Savoia os expulsou de seus vales e, ao visitar a Holanda, o seu governante, Guilherme de
Orange, muito provavelmente forneceu-lhe ajuda e dinheiro, com o qual Arnaud ocupou-se de
organizar seus três mil compatriotas que haviam se refugiado na
Suíça, e que por duas vezes (1687-1688) tentaram recuperar suas
casas.
Arnaud, acompanhado de
cerca de mil seguidores, armado com armamento moderno fornecido pelos holandeses, deram início em 17 de agosto de 1689,
próximo a Nyon, às margens do lago de Genebra ao seu regresso para
a terra natal. No dia 27 de agosto, o grupo, depois de muitas
dificuldades e perigos, chegou ao vale de São Martinho, tendo
passado por Sallanches e atravessado o passo de Véry (6.506 pés), o
enclave de la Fenêtre (7.425 pés), o passo do Bonhomme (8.147 pés),
o passo do monte Iseran (9.085 pés), o Grand Mont Cenis (6.893 pés),
o passo do Pequeno Monte Cenis (7.166 pés), os passos Clapier (8.173
pés), Coteplane (7.589 pés), e Piz (8.550 pés).
Mais de 30% daquela força de 1000 homens pereceu durante essa caminhada de 210 quilômetros pelos Alpes, todavia, eles obtiveram sucesso em ter restabelecida a sua presença no Piemonte e expulsaram os colonos católicos, mas eles continuaram a ser sitiados por tropas francesas e piemonteses.
Eles logo se refugiaram
na alta e segura cidadela rochosa localizada no alto do pico de Balsille (Balsiglia), onde foram sitiados de
24 de outubro de 1689 a 14 de maio de 1690, por soldados (cerca de
4000 em número) do rei da França e do duque de Saboia. Nesta
fortaleza natural eles conseguiram resistir aos muitos ataques
ferozes e durante todo o período de inverno.
Em certa manhã de
primavera, do alto de uma montanha, os valdenses ouviram gritos. Era
o coronel DePerot e suas tropas se preparando para atacar. “Vamos
dormir lá em cima, esta noite”, gritou o coronel, enquanto
convidava o povo para ver o enforcamento que ocorreria no dia
seguinte. “Venham ver o fim dos valdenses,” proclamava.
Encurralado no topo da montanha, o
líder valdense Henri Arnaud, com apenas 300 soldados valdenses restante, abriu a Bíblia e leu Salmo 124:2 e 3
para seus companheiros: “Não fosse o Senhor, que esteve ao nosso
lado, quando os homens se levantaram contra nós, e nos teriam
engolido vivos, quando sua ira se acendeu contra nós.”
DePerot e os quatro mil
soldados, armados com canhões, começaram a subida. Tudo ia bem e seus melhores escaladores
já estavam prestes a alcançar os troncos do forte montanhês.
Então, os homens de Arnaud atiraram uma saraivada de pedras sobre
eles. Os soldados de DePerot caíram e o próprio DePerot ficou
ferido e teve que pedir refúgio no forte valdense.
Conforme ele havia
predito, passou a noite no alto da montanha – mas em um abrigo
gentilmente cedido pelos próprios valdenses. Não houve a perda de
um único homem do lado valdense. Na noite seguinte, os soldados de
DePerot voltaram e cercaram o forte. O comandante francês estava tão confiante de completar o seu trabalho na manhã seguinte a este cerco ele havia enviado uma mensagem a Paris, dizendo que a força Valdense já havia sido destruída. Porém os valdenses silenciosamente escaparam no meio da densa neblina que se formou em seguida e, quando os franceses acordaram na manhã seguinte, eles descobriram que as valdenses, guiados por um dos seus que era familiarizado com o Balsiglia, já tinha descido desde o pico durante a noite, e agora estavam a vários quilômetros de distância, seguindo pelas colinas até o vale de Angrogna, acima de La Tour.
Mas mas semanas seguintes, houve um dia em que um grupo de 250 valdenses foram
cercados pelos soldados, refugiando-se em uma caverna. Uma fogueira
foi armada na entrada da caverna, e, enquanto a fumaça enchia o
lugar, sufocando-os, os capturados cantavam louvores a Deus, até o
último suspiro. Seu testemunho nos impele a um compromisso com Deus.
O Senhor nos chama a uma experiência de lealdade inabalável à Sua
Palavra. Sejamos fiéis a Ele, até o fim.
Somente após os eventos da Revolução Francesa, os valdenses do Piemonte tiveram asseguradas a liberdade de consciência e, em 1848, o governador de Savoia, o rei Carlos Alberto da Sardenha concedeu-lhes direitos civis.
Como vimos, a história
valdense é cheia de episódios marcantes, que mostram uma tradição
de fidelidade e de compromisso com o Evangelho, mesmo em
circunstâncias adversas. Mas para nós, que vivemos no século XXI,
sob a égide da pós-modernidade, que relevância pode ter o que
Pedro Valdo e seus seguidores começaram na Lyon medieval do século
XII?
Deixo para você a tarefa
de encontrar uma resposta, mas suspeito que a história dos Valdenses
pode – e deve – servir de inspiração para todos os que hoje,
mesmo sem serem religiosos profissionais, querem ter um estilo de
vida que seja coerente com a fé em Jesus Cristo.
Graças aos escritos que
os Valdenses conseguiram perdurar apesar da perseguição, hoje
podemos saber que aqueles grupos de irmãos, unidos por estreitos
laços de comunhão, não eram absolutamente hereges gnósticos ou
maniqueus, tal como pretendiam provar os que os perseguiam e matavam,
mas sim verdadeiros crentes ortodoxos em sua fé e bíblicos em suas
práticas.
Assim o Papa Gregório IX
declarava: "Nós excomungamos e anatematizamos a todos os
hereges, cátaros, patarinos, Homens Pobres de Lyon (Valdenses),
arnaldistas ... e outros, qualquer que seja o nome pelo qual são
conhecidos, já que têm de fato diferentes rostos, mas estão unidos
por suas caldas e se reúnem no mesmo ponto, levados por sua
vaidade".
Também o inquisidor Davi
de Augsburgo reconhecia o fato de que em princípio as seitas, que
resistiam juntas na presença dos seus inimigos, "eram uma só
seita".
Considerações finais
Apesar de tudo, os
Valdenses, diferente dos outros grupos perseguidos, sobreviveram. Nos
dias da Reforma muitos passaram a formar parte das filas
protestantes, enquanto que outros se uniram a assim chamada Reforma
Radical dos Anabatistas.
Junto com eles
sobreviveram importantes escritos que nos ajudam a entender a fé
daqueles irmãos cujos testemunhos foram calados pelo martírio, tais
como os cátaros e albigenses, com quem os Valdenses compartilharam o
mesmo tipo de perseguição.
Por eles aprendemos que
um remanescente fiel lutou, sofreu e morreu por Cristo durante vários
séculos de escuridão e apostasia, quando parecia que a fé bíblica
tinha desaparecido da terra. E agora um quadro inteiramente diferente
surge diante dos nossos olhos. Não se tratavam de hereges, mas sim
de verdadeiros irmãos e irmãs em Cristo.
Aqui e lá, em todas as
partes da Europa onde homens e mulheres fiéis buscavam o Senhor, a
luz da sua palavra resplandecia e um testemunho se levantava no meio
da escuridão. Mas o inimigo que enfrentavam era formidável,
ardiloso e cruel. As suas armas preferidas eram a difamação e o
martírio. Diante delas, todos os seus esforços pareciam destinados
ao fracasso e a aniquilação. As fogueiras se multiplicavam e os
horrores pareciam não ter fim. No entanto, a sua fé sobreviveu e
prevaleceu através de toda aquela imensa maré de malignidade que
ameaçou inundá-los por completo.
E a luz alçou no final
daquela época de trevas ainda invicta e resplandecente. Desta
maneira, junto a albigenses e cátaros, e outros cujo testemunho foi
silenciado e apagado da história, os Valdenses mantiveram erguido a
chama e a fizeram chegar até os nossos dias, para falar por todos os
irmãos cujo invencível testemunho de fé e amor por Cristo creram
ter feito calar para sempre; e nos dizer que em todos eles brilhou de
maneira clara e singular a luz invencível de Cristo e o seu
Evangelho eterno, no meio da adversidade mais implacável. Por isso,
o seu legado espiritual resulta imperecível.
"Ouvi uma voz do céu
que me dizia: Escreve: Bem-aventurados os mortos que desde agora
morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, descansarão dos seus
trabalhos, porque as suas obras com eles seguem" (Ap. 14:13).
Talvez o leitor também se interesse em ver um vídeo documentário, em Português do Brasil, sobre a história dos valdenses:
Igreja Valdense Moderna:
Infelizmente, as pressões do mundo moderno têm afetado, de modo negativo, também os valdenses. Tal qual homens perversos que existem em outras congregações, que "dizendo-se sábios, tornaram-se loucos" (Romanos 1:22), de modo insólito e lamentável, o Sínodo da Valdense da Itália decidiu dizer sim, para casais homossexuais em apenas dois dias de reunião, no final de agosto de 2010. Pela primeira vez na Itália, a "comunidade cristã" tem uniões legítimas entre homossexuais "abençoadas". Reunida a cada ano em Torre Pelicano (Torre Pellice), perto de Turim, representantes de mais de 30 mil fiéis de todo o mundo têm dado luz verde para a bênção de casais homossexuais, mesmo num país onde não há, sequer, legislação sobre o assunto, como a Itália. Triste posicionamento da Igreja evangélica valdense, com abandono da escritura e inversão de valores cristãos.
Uma diferente versão sobre a motivação que levou Pedro Valdo a iniciar o seu movimento de pregação do Evangelho, narra que ele ficou muito comovido uma história ouvida na canção de um menestrel na saída de uma missa na igreja que ele frequentava em Lyon. Tal história teria sido o que desencadeou uma crise espiritual dentro dele. Tratava-se de um balada sobre um cristão do século IV chamado Alexis. Alexis era o filho de um rico senador romano, e ele era um rico, pagão mimado. No entanto, no dia em que Alexis deveria estar se casando, Cristo de repente irrompeu junto a ele. Tocou a sua própria alma pela sua conversão, Alexis deixou tudo, sua família, sua riqueza e sua noiva pretendida. Com poucos pertences e as roupas em suas costas, ele viajou por toda a Europa para a Síria. Lá, ele passou a maior parte de sua vida orando e jejuando, servindo aos outros, e compartilhando o amor de Jesus. Ele suportou pobreza e grande sofrimento para a causa de Cristo. Anos mais tarde, com sua saúde e seu corpo quebrado e desfigurado, Alexis regressou a Roma. No entanto, "a família e amigos Alexis não o reconheceram, como ele parecia ser apenas algum mendigo sujo. Então Alexis decidiu manter sua identidade em segredo. Ele aceitou um emprego subalterno de seu pai (que não o reconheceu), e ele viveu em uma pequeno quartinho da casa de sua família. Viveu assim durante 17 anos, tentando servir os outros em espírito de Cristo. Quando Alexis morreu, sua família encontrou seu diário entre seus poucos pertences, e depois eles perceberam que ele realmente era.
Novacionismo ou Novacianismo foi um movimento, ocorrido durante o cristianismo primitivo formado pelos seguidores de do Padre Novaciano, que se recusavam a readmitir a comunhão os lapsi (os cristãos batizados que tinham renegado a sua fé e realizado sacrífícios aos deuses pagãos) durante a perseguição de Décio em 250 d.C. Eles foram posteriormente declarados como heréticos.
"E respondeu-me, dizendo: Esta é a palavra do Senhor a Zorobabel, dizendo: Não por força nem por violência, mas sim pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos." (Zacarias 4:6)
O fato é que, para os
perseguidores religiosos militares e para inquisidores católicos que
os seguiram na história, as congregações de crentes denominadas de
“os valdenses”, “os cátaros” e “os albigenses”, eram
todos uma mesma coisa: hereges, enquanto significavam efetivos obstáculos às suas políticas de poder centralizado e de domínio distribuído, que incluía intolerância a quaisquer opiniões ou doutrinas que discordassem de uma posição oficial.
Porém, uma olhada mais
atenta aos registros históricos remanescentes, pode apontar para detalhes que revelam algumas consideráveis diferenças entre tais grupos. Todavia, antes de tudo,
é preciso deixar claro, também, algo que eles tiveram em comum:
tais diferentes denominações (Cátaros, Albigenses e Valdenses) não foram colocadas pelas próprias
pessoas relacionadas a tais grupos, pois eles se recusavam tomar
qualquer nome sobre si, com exceção de "cristãos" ou
"irmãos".
Em primeiro lugar,
existiam disseminados pela Europa ocidental, pequenos grupos de
crentes que haviam se separado da cristandade organizada, desde antes mesmo do tempo do
imperador romano Constantino dar os primeiros passos em prover para a Igreja cristã de Roma uma presença institucional dentro no Estado, a partir do ano 317, mas não sem influenciar em grande parte, na inclusão nesta mesma igreja, de dogmas baseados nas tradições daquele mesmo Estado.
Quando se tornou imperador de Roma, no ano de 249, Décio observou com desconfiança o poder crescente dos cristãos, e determinou-se a reprimi-los. Ele construiu novos templos pagãos, reforçou os cultos e sacrifícios do passado em todo o império. Porém, vendo as igrejas cheias de prosélitos e os templos pagãos esvaziados, decidiu empreender uma perseguição generalizada, tanto contra ao clero, quanto aos leigos do cristianismo.
Durante as perseguições de Décio, o Papa Fabiano foi um dos primeiros a sofrer o martírio (início do ano 250), porém, ocorreu que vários cristãos batizados negaram a sua fé em Cristo e alguns chegaram a realizar sacríficios aos deuses pagãos durante o período da perseguição; Quando, dois anos depois o imperador foi morto e as perseguições cessaram, estes quiseram retornar à comunhão cristã.
Surgiu ai o termo Lapsi (caduco), que foi o termo utilizado para denominar aqueles apóstatas que, quando eram perseguidos pelo Império Romano renunciavam à sua fé mas, uma vez cessada a perseguição, queriam voltar atrás. Com a sede vacante de Roma depois do martírio do Papa Fabiano, a necessidade de eleger um novo papa, associada as necessárias deliberações sobre a questão se aqueles apostatas poderiam ou não ser reintegrados a igreja e a forma como tal reintegração poderia se dar, gerou uma certa confusão e muitas disputas dentro da igreja.
As disputas eram agravadas pelo fato que, entre os apóstatas podia se contar com muitos líderes, pessoas influentes do clero da própria igreja, capazes de realizar gestões em favor de sua própria causa. Tais circunstâncias fizeram surgir um primeiro grande sisma: de um lado se levantou o Padre Novaciano, que exigia uma posição de rigor de critérios para aceitar os ex-cristãos arrependidos de volta e, do outro lado, a posição oficial da igreja, a partir da eleição de Cornélio como novo papa, no ano 251, que foi a de que os apostatas poderiam voltar ao corpo da igreja e ministrar os sacramentos, desde que o fizessem seguindo o ritual correto, sem a necessidade de rebatismo ou de reordenação.
Porém, depois de alguns anos, sob o imperador Diocleciano, deu-se início a uma nova onda de perseguições aos cristãos (do ano 303 até o ano 311), a última, maior e mais sangrenta perseguição oficial implementada pelo império contra o cristianismo, e a história se repetiu novamente. Muitos cristãos cederam às pressões e caíram em apostasia novamente.
Mesmo alguns bispos de então colaboraram com o Estado perseguidor, surgindo, dai, o emprego do termo traditores (traidores), para designar os apostatas que cederam livros religiosos às autoridades, para serem destruídos, conforme exigia o édito do imperador. Mais uma vez, muitos quiseram voltar atrás depois de cessada a perseguição. Dai, as questões associadas a tal assunto foram sendo sempre tratadas de uma forma tropega pela igreja oficial, ora com grande rigor, ora com total liberalidade, reflexo de que as decisões, recheadas de controvérsias, eram calcadas por influências políticas.
O padre Novaciano foi morto em uma daquelas perseguições e, após a sua morte, os seus seguidores se espalharam rapidamente e podiam ser encontrados em diversas províncias romanas, em grande quantidade em algumas delas. Eles eram chamados pela igreja oficial de novacionistas, mas chamavam a si próprios de καθαροι (em grego: "katharoi" - "puritanos" ou "puros"), refletindo que se mantinham puros durante perseguições e seu desejo de se manterem cristãos, mas separados da igreja oficial, não se misturando com o que consideravam práticas frouxas de uma igreja corrupta e subservientes a poderes mundanos.
Além disso, desde o
início da idade média, existiu uma contínua corrente
migratória de irmãos que, uma vez sendo perseguidos no oriente, como os denominados paulicianos (grupo de cristãos considerados hereges pelo catolicismo, que floresceu entre os anos de 650 e 872 na Armênia e partes orientais do Império Bizantino, como Anatólia e os Balcãs, até serem massacrados pelo Império Bizantino, que foi a continuação do Império Romano durante a Antiguidade Tardia e a Idade Média) e os bogomilos (que surgiram, posteriormente, no que é hoje a Macedônia), ambas seitas pregando a igualdade social e o afastamento dos pobres do domínio do clero e da nobreza, imigravam e, ao
chegarem ao ocidente europeu, entraram em contato com as igrejas dos cátaros.
Assim, vários séculos depois, o termo cátaro ainda voltaria a ser usado, agora pela própria igreja oficial de Roma, para designar o grupo considerado de dissidentes, que surgiu na região centro-sul da França, na verdade, como uma forma pejorativa de seus perseguidores se referirem a eles, por causa do costume dos seus pregadores itinerantes de venderem todas as suas propriedades e se fazerem assim "perfeitos" para seguir o Senhor e pregar o evangelho, tomando literalmente o conselho do Senhor em Mateus 19:21:
"Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me."
Por outro lado, o termo
“albigense” apareceu já na alta idade média, em meados do
século XII, na cidade francesa de Albi, onde grupos de milhares de
irmãos (dos quais, nem todos eram, verdadeiramente, cristãos), foram mortos a espada ou queimados em
fogueiras sob a acusação de heresia maniqueísta (embora isto não
pudesse ter sido provado).
A partir de então,
acostumou-se a associar os irmãos do sul da França com o termo “a
heresia de Albi” e, dai o nome “albigenses”, ainda em conjunção
com a denominação “cátaros”, passou a se aplicar aos grupos de
irmãos que floresceram no sul da França e norte da Espanha e mesmo
do norte da Itália, estes também conhecidos por “valdenses”.
A corrupção
generalizada que uma grande parte da cristandade oficial então
perpetrava, motivada por ostentação de poder político e econômico,
levou, em um curto período de poucas décadas, irmãos cristãos
sinceros a apartar-se dos seus males e abusos.
Entre esses irmãos se
destacaram homens de grande zelo espiritual, que denunciaram
abertamente os males da cristandade e ganharam um considerável
número de seguidores para uma fé mais bíblica e singela, entre os
quais se destacam Pedro de Bruys, Henrique de Cluny e Pedro de Valdo,
este último que daria origem a um novo grupo de cristãos sinceros, os quais viriam também a ser perseguidos, chamados de “valdenses”.
Por isso, ao longo da
história dos irmãos esquecidos, encontraremos sempre, lado a lado
com a fé genuinamente bíblica, sempre distinta, algumas crenças realmente
heréticas e distorcidas. Este fato, unido à ilimitada ambição da
cristandade organizada por ser considerada a única e verdadeira
"igreja de Cristo", contrastando com atitudes que denotavam o mascaramento de pretensões de poder
político mundano, a levou a perseguir infatigavelmente os cristãos
dissidentes que não reconheciam a sua “autoridade oficial”,
deformando e destruindo, quase que completamente, os registros de sua
passagem pela história.
De modo lamentável, isso
teve algum certo grau de êxito em fazer de muitos daqueles valentes
irmãos, "hereges", ainda aos olhos de outros sinceros
irmãos que vieram depois. Esta é a trágica história daqueles
mártires que corajosamente levantaram o estandarte de Cristo na hora
mais obscura da fé.
Nesta primeira parte desta
dissertação, eu darei ênfase à história dos “cátaros” e dos
“albigenses” e, na parte que virá posteriormente, talvez maior
que esta primeira, será dedicada, exclusivamente, a narrar a saga dos
cristãos valdenses, os primeiros dentre os povos da Europa a obter a tradução das Sagradas Escrituras. Centenas de anos antes da Reforma, possuíam a Bíblia em manuscrito, na língua materna. Tinham a verdade incontaminada, e isto os tornava objeto especial do ódio e perseguição.
Origens da Dissensão
Religiosa na Europa Medieval:
O rápido aumento do
comércio, no século XI, trouxe consigo grandes mudanças nas
estruturas socioeconômicas da Europa medieval. Surgiram cidades para
abrigar o crescente número de artesãos e mercadores. Isto deu
margem a novas ideias. A dissensão religiosa arraigou-se na
província francesa de Languedoc, onde prosperava uma civilização
notavelmente mais tolerante e avançada do que em outros lugares da
Europa.
O sul da atual França, na região antigamente conhecida como “Ocitânia” e que hoje é denominada “Languedoc” – ambos os termos significando “terra da língua do sim” - surgiu o movimento fundamentalista cristão (ou, que no mínimo pretendia, sinceramente, ser cristão), pacífico, que via no exemplo de vida de Jesus, simples e sem luxo algum, a base para a sua doutrina. Acima de tudo, a palavra de ordem entre eles era a humildade - desprezando a soberba, a arrogância e os valores mundanos.
A cidade de Toulouse, em
Languedoc, era a terceira metrópole mais rica da Europa. Era o mundo
em que prosperavam os trovadores, cujos poemas, entre outras coisas,
às vezes aludiam a assuntos políticos e religiosos. Descrevendo a
situação religiosa nos séculos XI e XII, a Revue d’histoire et
de philosophie religieuses declara: “No século XII, como no século
anterior, a moral do clero, sua opulência, sua venalidade e sua
imoralidade continuavam a ser questionadas, mas acima de tudo se
criticavam sua riqueza e seu poder, seu conluio com as autoridades
seculares e sua subserviência a estas.”
Foi neste contexto que
Pedro de Bruys, enquanto ainda era um padre católico, começou a sua pregação e viajou infatigavelmente por mais de vinte anos,
percorrendo diversas províncias da França: em Delfinado, Provença,
Languedoque e Gasconia. Multidões de pessoas assistiam as suas
pregações em que denunciava abertamente o uso de imagens, a
veneração a Maria, o batismo de recém-nascidos e a doutrina da transubstanciação dos sacramentos,
como costumes da igreja que eram contrários às Escrituras.
Para escutá-lo, as
pessoas deixavam os serviços religiosos oficiais e se reuniam em
qualquer ponto onde ele estivesse. Como também não reconhecia a
autoridade da Igreja organizada, foi detido e açoitado em
1116. Pedro de Bruys renunciou ao sacerdócio porque não conseguia conciliar com as Escrituras os ensinos católicos. Também acreditava que as cruzes e outras relíquias também não deveriam ser objeto de veneração por parte dos crentes. Ele as estava queimado publicamente na praça de Saint Gilles, entre 1126 e 1131 quando uma turba da população católica local, irritada lançou-o nas chamas da própria fogueira. Não obstante, os seus seguidores continuaram com a sua
obra e com o tempo se uniram ao resto dos irmãos perseguidos.
Henrique de Cluny
continuou com a obra de Pedro de Bruys, de quem foi discípulo. Este
era monge e diácono do famoso monastério de Cluny. Possuía uma
grande capacidade de oratória e um aspecto físico imponente. Mas
era, além disso, um homem extraordinariamente devoto e inflamado de
zelo espiritual. Suas pregações atraíam milhares de pessoas, e
produziam centenas de conversões, entre elas, as de alguns
reconhecidos pecadores, que mudavam radicalmente as suas vidas. O
avivamento que ele ajudou a acender se estendeu rapidamente por todo
o sul até o meridional da França.
Os líderes da igreja
organizada se encontravam intimidados e até aterrorizados diante do
poder da sua pregação, e não se atreviam, a princípio, a fazer
nada contra. Foi tão grande o seu impacto nessas regiões que grande
parte dos templos e monastérios ficaram abandonados.
Finalmente, Bernardo de
Clarvaux, um dos homem mais poderosos da Europa, foi chamado para
detê-lo. Este era um homem de caráter santo e devoto, cujos hinos
em honra a Cristo são lembrados até hoje. No entanto, neste
assunto, ele atuou com todo o mesmo zelo da cristandade oficial, pois
considerava Henrique o pior dos hereges, um demônio saído direto do
próprio inferno.
E com respeito aos
irmãos, que se negavam a reconhecer a sua identidade com homem
algum, inclusive com Henrique de Cluny ou Pedro de Bruys,
queixava-se: "Inquiram deles o nome do autor da sua seita e não
a atribuirão a ninguém. Que heresia há, que, entre os homens não
tenha o seu próprio heresiarca?... Mas, por que sobrenome ou por
qual título arrolam eles a estes hereges? Porque a sua heresia não
se derivou do homem, nem tampouco a receberam de um homem". Sua
conclusão foi que, consequentemente, tinham recebido o seu ensino
dos demônios!
Henrique se viu forçado
a fugir de Bernardo, e continuou com o seu infatigável trabalho, até
que foi finalmente preso e condenado a um destino desconhecido
(talvez ser emparedado vivo, ou a pena de morte) em Toulouse. Os
irmãos, não obstante, continuaram adiante com o seu valente
testemunho e passaram a formar parte daqueles grupos de irmãos
perseguidos, conhecidos por seus inimigos como “cátaros” e
“albigenses”.
Diferente da dos cristãos
evangélicos valdenses, as crenças dos cátaros, embora se
ajustassem a fé cristã em alguns pontos, agregavam, de fato, uma
farta mistura de dualismo oriental e de gnosticismo, talvez
importadas por mercadores e missionários estrangeiros. The
Encyclopedia of Religion define o dualismo cátaro como crença em
“dois princípios: um bom, que governa tudo o que é espiritual, o
outro, mau, responsável pelo mundo material, inclusive pelo corpo do
homem”. Os cátaros acreditavam que Satanás criou o mundo
material, irrevogavelmente condenado à destruição. Sua esperança
era a de escapar do mundo mau, material.
Muitos ensinos cátaros
estavam em flagrante contradição direta com a Bíblia. Por exemplo,
eles acreditavam na imortalidade da alma e na reencarnação e
baseavam também suas crenças em textos apócrifos. Não obstante,
no que se refere às partes das Escrituras traduzidas pelos cátaros
para o vernáculo, línguas de domínio público, até certo ponto
tornaram a Bíblia um livro mais bem conhecido na Idade Média.
Os cátaros estavam
divididos em duas classes, os perfeitos e os crentes. Os perfeitos
achavam que eram os sucessores legítimos dos apóstolos, de modo que
se chamavam de “cristãos”, enfatizando isso por acrescentar
“verdadeiros” ou “bons”. Na realidade, porém, muitas crenças
cátaras eram alheias ao cristianismo. Embora os cátaros
reconhecessem a Jesus como o Filho de Deus, rejeitavam o fato de ele
ter vindo em carne, bem como seu sacrifício resgatador.
Interpretando
erroneamente a condenação bíblica da carne e do mundo, acreditavam
que toda a matéria se originou do mal. Por isso, sustentavam que
Jesus só podia ter tido um corpo espiritual e que, enquanto na
terra, apenas parecia ter um corpo carnal. Iguais aos apóstatas do
primeiro século, os cátaros eram ‘pessoas que não confessavam
Jesus Cristo vindo na carne’. — 2 João 7.
Todavia, isso não
poderia ter sido considerado um problema tal que não pudesse ter
sido resolvido por meios verdadeiramente cristãos de pregação e de
ensino bíblico, coisa que faltava totalmente ao povo da época, na
medida inversa em que a igreja oficial se preocupava muito mais com a
ostentação de poder político e econômico no mundo.
Até mesmo o Papa
Inocêncio III (a partir de 1198) chegou a reconhecer que se devia à
corrupção prevalecente dentro da Igreja a culpa pelo crescente
número de dissidentes e aos pregadores itinerantes na Europa, em
especial no sul da França e no norte da Itália. A maioria dos que
haviam, ou era de cátaros ou de valdenses. Ele repreendeu os
sacerdotes por não instruírem o povo, dizendo: “Os filhos têm
falta de pão, que vós não quereis repartir com eles.”
No entanto, em vez de
promover a educação bíblica do povo, Inocêncio afirmou que “a
profundeza da Escritura divina é tal, que não somente os simples e
iletrados, mas até mesmo os prudentes e os instruídos, não são
plenamente capazes de tentar entendê-la”. A leitura da Bíblia foi
proibida a todos, exceto aos clérigos, e depois foi permitida apenas
em latim.
Para contra-atacar a
pregação itinerante dos dissidentes, o papa Inocêncio III, que já havia declarado a "heresia" como crime de lesa-majestade e condenado as traduções não autorizadas da Bíblia para o francês, em 1203 enviou dois monges cistercienses da Abadia de Fontfroide para ensinar aos Albigenses na França a fé e os ensinamentos católicos: Raoul de Fontfroide e Pierre de Castelnau, um inquisidor da ordem do cister que se conduzia com a intransigência de um juiz seguro da lei que aplicava.
Em dezembro dirigiram-se a Toulouse, onde fizeram jurar ao conde que extirparia a heresia. Em fevereiro de 1204 aconteceu uma reunião em Béziers presidida pelo rei Pedro II de Aragão. O rei reconhecera-se vassalo da Santa Sé mas, quanto ao pedido dos legados, manifestou que não estava disposto a usar a espada contra os seus vassalos ocidentais.
Uns meses mais tarde Arnaud Amaury, abade de Cîteaux, incorporou-se à delegação, mas, ainda com o reforço de Amaury os legados não obtinham sucessos, porquanto a sua apresentação não era a mais adequada, pois percorriam o país em luxuosos carros de cavalos acompanhados por todo um cortejo de servidores, quando precisamente o luxo e a suntuosidade era o que mais reprochava o povo occitano à igreja romana.
Em maio de 1206 os abades decidiram regressar às suas respetivas abadias, porém, no caminho de regresso fizeram uma parada em Montpellier e ali coincidiram com dois castelhanos que regressavam de Roma. Eram Diego de Acebes, bispo de Osma, e o seu vice-prior, Domingos de Gusmão, posterior fundador da Ordem dos Frades Pregadores, ou Ordem Dominicana.
Os legados expuseram as suas dificuldades: quando pregavam, eram objetados por conta do comportamento detestável dos clérigos, mas se dedicavam-se a reformar os clérigos, teriam de renunciar a dedicar tempo à pregação. Os castelhanos expuseram uma solução: pôr de lado a reforma dos clérigos e dedicar-se exclusivamente à pregação mas, para que esta fosse eficaz, era preciso que cumprisse uma condição imperativa: a pobreza, ou seja, viajar com humildade, ir a pé, sem dinheiro, em duplas, imitando os costumes dos Perfeitos cátaros e que antigamente fora utilizado pelos apóstolos.
Os próprios Diego de Acebes e Domingos de Gusmão colocaram a prática desse método que eles propuseram a prova e, pouco a pouco, conseguiam os seus efeitos, convertendo crentes cátaros e até mesmo alguns Perfeitos. Em contraste com o opulento clero católico, eles atuaram como pregadores viajantes, ainda que comissionados a defender a ortodoxia católica contra os “hereges” no sul da França.
Contudo, Diego regressou para Osma e Domingos de Gusmão escolheu, então, como companheiro a Guillem Claret, clérigo de Pamiers, com quem se instalou em Fanjeaux, no centro da região, onde converteram um grupo de Perfeitas e mulheres crentes cátaras, instalando-as no Mosteiro de Prouilhe, perto de Fanjeaux, tornando o num centro educacional e hospitalar de garotas, a semelhança das "Casas das Perfeitas".
Os sucessos de Domingos de Gusmão manifestavam a eficácia dos seus métodos. Entretanto, tratava-se de uma pregação longa e trabalhosa que exigia modéstia e paciência, Domingos de Gusmão parecia plenamente adaptado para aquela situação, mas não os legados papais cistercienses que aguardavam uma conversão massiva e entusiasta e, em lugar disso, tinham de seguir, em conjunto, aquele método de ir de povoação em povoação, enfrentando a oposição dos contra-pregadores cátaros, que ocasionalmente demonstravam conhecer o Evangelho melhor que os seus próprios clérigos.
Assim, a campanha em 1207 era sentida, na verdade, como um insucesso pelos legados papais que, originalmente, haviam sido enviados para argumentar com os cátaros e para tentar trazê-los de volta ao aprisco católico, rapidamente. Neste clima, com a heresia em pleno auge e a crescente humilhação da Igreja Romana frente da passividade e conivência dos senhores occitanos, somente faltava uma chispa que servisse de argumento a Inocêncio III para tomar as armas.
Enquanto Domingos e os outros cistercienses se dedicavam a pregação do Evangelho, o legado papal Pierre de Castelnau tomou a iniciativa de expor um acordo geral de paz a todos os condes e senhores do Languedoque, pedindo que se comprometessem a não empregar judeus na sua administração (para evitar empréstimos que não fossem eclesiásticos), devolver o dinheiro não pago às igrejas em forma de tributo, e, sobretudo, perseguir os hereges cátaros pela força.
Ao conde Raimundo VI de Toulouse era impossível aceitar tais condições sem quebrantar os fundamentos do seu poder, de modo que ele se negou e, por isso, foi excomungado a 29 de maio de 1207, excomunhão que foi ratificada, meses depois, numa reunião em Saint-Gilles.
Então, eis que a chispa que faltava chegou: A 14 de janeiro de 1208, Pierre Castelnau foi assassinado quando se dispunha a cruzar o rio Ródano, ao voltar da reunião de Saint-Gilles, ainda em território dos Albigenses.
Não obstante o fato de que não se pode comprovar que o assassinato tenha sido ordenado por Raimundo, o Papa Inocêncio III acusou-o abertamente, e toda a responsabilidade caiu, não apenas sobre ele, as suas terras, e sobre os senhores feudais occitanos com os quais o Conde de Toulouse mantinha algum tipo de vínculo mas, também, e principalmente, sobre todo o povo daquela região de condados.
Visto que "os esforços falharam" e, até mesmo um dos legados católicos foi morto (supostamente por um herege), alterou o foco das missões, que passaram a incluir a violência, enquanto a cruzada militar iria substituir a cruzada pacífica. A 9 de março de 1208, o Papa dirigiu uma carta a todos os arcebispos do Languedoque e a todos os condes, barões e senhores do reino da França. Um fragmento daquela carta dizia:
"Despojai os hereges das suas terras. A fé desapareceu, a paz morreu, a peste herética e a cólera guerreira cobraram novo alento. Prometo-vos a remissão dos vossos pecados se puserdes limite a tão grandes perigos. Ponde todo o vosso empenho em destruir a heresia por todos os meios que Deus vos inspirará. Com mais firmeza ainda que com os Sarracenos, pois são mais perigosos, combatei os hereges com mão dura."
Inocêncio III ordenou em 1209 a Cruzada
Albigense: o papa pronunciou um anátema contra Raimundo VI, o conde de Toulouse e declarou as suas terras "entregues como presa". Isto equivalia a uma chamada direta a Filipe II Augusto, rei da França, bem como a todos os condes, barões e cavaleiros do seu reino para acudir à cruzada.
Albi era uma das cidades onde os cátaros eram
especialmente numerosos, de modo que os cronistas da Igreja oficial chamavam
os cátaros de albigenses (em francês: albigeois) e usavam o termo "albigense" para designar todos os que consideravam “hereges” daquela região,
inclusive, até mesmo, os cristãos valdenses do Piemonte (norte da Itália). Curiosamente, a primeira concentração de tropas dos exércitos da cruzada do papal de Inocêncio III (20 000 cavaleiros, mais de 200 000 cidadãos e camponeses, sem contar o clero) aconteceu na cidade de Lyon.
Poucas décadas antes, em 1179 um zeloso grupo composto de homens e mulheres da cidade de Lyon, que mais tarde passaram a ser chamados de valdenses, pediram ao então papa, Alexandre III, uma licença especial para continuar seus trabalhos de pregação do Evangelho, que foi negada. A Igreja achou aquele evento tão perturbador que, em 1184, aqueles cristãos da cidade de Lyon, foram excomungados pelo papa e expulsos de suas casas pelo então bispo de Lyon. Como eles já eram naturalmente desapegados de casas e de outros bens materiais, aquela medida, na realidade, serviu apenas para dar a oportunidade de divulgação da mensagem da Bíblia em outras regiões.
Notem, ainda, que este mesmo período foi marcado pelo surgimento de um outro movimento singular, mas da mesma motivação, quando Giovanni di Pietro di Bernardone, mais conhecido como São Francisco de Assis, entrou para orar na igreja de São Damião, fora das portas da cidade, e ali, diz a tradição, ele ouviu pela primeira vez a voz que chamou a sua atenção para o estado de ruína de sua Igreja e instou para que Francisco a reconstruísse. A princípio Francisco tratou de trabalhar de pedreiro, pois, em sua ignorância acreditou tratar-se de prédios precisando de reformas.
Todavia, não era. Tratava-se de algo muito mais grave: era a religião do cristianismo contaminada, a Igreja de Jesus se tornara numa instituição corrompida, conduzida pela mais absoluta ganância humana por poder mundano.
Giotto: Francisco e seus companheiros diante de Inocêncio III, 1297-1299.
Basílica de São Francisco de Assis, Assis.
No mesmo ano em que as tropas da cruzada papal, sob o comando de Simon de Montfort posicionaram-se diante da cidade de Béziers (a primeira de muitas que vieram em seguida), para ataca-la exterminando uma parte da população sem levar em conta a sua filiação religiosa e pronunciando, segundo a crônica de Cesáreo de Heisterbach, a frase: "Matai-os todos, Deus reconhecerá os seus!", ceifando à espada quase 20 mil vidas, depois do que, a cidade inteira foi despojada e queimada, Francisco, tendo reunido mais um grupo de seguidores de Assis, dirigiu-se para Roma a fim de obter do papa a autorização da primeira Regra para a fundação de sua Ordem, a chamada Regra primitiva, que prescrevia uma pobreza absoluta para os monges e para a Ordem, em imitação literal da vida de Jesus Cristo e seus apóstolos, conforme narrada nos Evangelhos.
Segundo o cronista inglês Matthew Paris, lá chegando, sujos e vestidos pobremente, foram ridicularizados pela corte de Inocêncio III, que mandou não aborrecê-lo com sua Regra, considerada excessivamente rigorosa e impraticável, e que fosse pregar entre os porcos. Tendo-o feito num chiqueiro próximo, coberto de lama voltou para o papa, que refletindo um momento, decidiu recebê-los em uma audiência formal, depois que se lavassem.
Francisco e seus amigos se prepararam então para esse outro encontro, conseguindo o apoio de prelados eminentes para a sua causa. Segundo relatos antigos, nesse ínterim Inocêncio teve um sonho, onde viu a Basílica de São João de Latrão prestes a desabar, apenas sustentada por um pobre religioso, que ele interpretou como sendo Francisco.
Com a recomendação favorável de alguns conselheiros e com o aviso recebido em sonho, Inocêncio finalmente autorizou a Regra, porém, não por escrito, nem outorgou o estatuto de Ordem ao grupo, apenas permitiu que pregassem e dessem socorro moral às pessoas, mas acrescentando que se eles conseguissem frutos de seu trabalho, voltassem a ele para que sua situação fosse completamente regularizada.
A regularização só viria a partir de 14 anos após esse encontro, com o texto da Regra primitiva já tendo resultado em profundamente alterado, com a maioria das citações do Evangelho e as passagens poéticas removidas e substituídas por fórmulas legais, impostas pela hierarquia eclesiástica romana e pela pressão de parte de seus próprios companheiros, essas mudanças pouco refletiam o espírito original franciscano.
Francisco via a si mesmo como o mensageiro de um mandado divino, crendo que a Regra primitiva não podia ser alterada sem traição a Cristo que o inspirava e que era a autoridade suprema a ser considerada, a quem o próprio papa devia subordinação. Contudo, ao que parece, Cristo não falava ao papa nem aos monges, somente ele ouvia sua voz, e assim, inevitavelmente, sua credibilidade e a propriedade de sua intransigência eram postas em dúvida.
Segundo os relatos, a Regra bulada (Regra primitiva profundamente alterada) só foi aceita por Francisco por força da obediência que ele devia ao papa como líder da Igreja, da qual jamais quis afastar-se, mas submeteu-se, com grande pesar, e os seus primeiros biógrafos referem este período como o da sua "grande tentação", a de abandonar todo o trabalho. Por fim aceitou o fato consumado, e entregando os frutos para Deus, pacificou-se.
A cruzada contra os
albigenses:
O importante despertar
espiritual daqueles anos entre os irmãos, teve o seu epicentro na
região conhecida como o Meridional da França, especialmente em
Languedoque. Ali multidões de homens e mulheres de todas as classes
e condições, incluindo nobres e bispos do clero, somaram-se às
filas dos irmãos, e as suas congregações cresceram em um número
alarmante aos olhos da hierarquia da cristandade oficial.
Em 1167 foi realizada uma
conferência de mestres que congregou irmãos de todas as partes da
Europa, inclusive de Constantinopla. Ali estavam os paulicianos,
cátaros, albigenses, bogomilos, reunidos simplesmente como irmãos,
sem aceitar nenhum dos apelidos que os seus caluniadores lhes
colocavam. Relataram do avanço da obra em lugares tão distantes
como a Romênia, Bulgária e Dalmácia. E este fato nos ajuda a
visualizar a amplitude e alcance do despertar espiritual que eles
protagonizaram naqueles anos.
O povo comum, cansado das
exigências extorsivas e da generalizada decadência do clero da
Igreja oficial, sentiu-se atraído pelo modo de vida dos cátaros. Os
perfeitos identificavam a Igreja Católica e sua hierarquia com a
“sinagoga de Satanás” e “a mãe das meretrizes”, de
Revelação (Apocalipse) 3:9 e 17:5. A doutrina dos cátaros
prosperava e suplantava a Igreja no sul da França. Nessa região,
devido à influência dos irmãos, desenvolveu-se a civilização
mais rica e próspera da Europa.
Finalmente, o Papa
Inocêncio III decidiu acabar por completo com os 'hereges', depois
de fracassar em suas tentativas de convencer, mediante os seus
legados, aos albigenses, pois estes se negaram a reconhecer outra
autoridade além das Escrituras, e à cristandade organizada como a
"verdadeira noiva de Cristo". Tentaram, então, convencer o
conde de Provença e outros governadores das províncias do sul da
França para que o apoiassem em seus intentos de aniquilação dos
"hereges".
Por meio de cartas e de
legados, o papa importunou reis, condes, duques e cavalheiros
católicos da Europa. Prometeu indulgências e as riquezas de
Languedoc a todos os que lutassem para erradicar a heresia “de
qualquer modo”. No entanto, frente à resistência de suas
pretensões, convocou uma cruzada de extermínio contra os albigenses
e as províncias do Meridional francês.
A reação do Papa
Inocêncio III foi lançar e financiar a chamada Cruzada Albigense, a
primeira cruzada organizada dentro da cristandade contra pessoas que
afirmavam ser cristãs. Sua convocação não deixou de ser atendida.
Chefiado por prelados e frades católicos, um exército misto de
cruzados, procedentes do norte da França, de Flandres e da Alemanha,
dirigiu-se ao sul, ao vale do Ródano.
Centenas de milhares se
uniram à cruzada convocada pelo Papa, atraídos pelas riquezas que
ficariam a mercê da pilhagem e da devastação. Liderada pelo
terrível Simon de Monfort, soberano da nobreza anglo normanda, a
cruzada contra os albigenses devastou o sul da França até reduzi-lo
a mais completa desolação. Um após o outro, os pacíficos povos do
sul foram tomados e todos os seus habitantes passados ao fio da
espada.
Em Minerva, Monfort
encontrou 140 irmãos cátaros, que negaram a abnegar-se de sua fé,
por isso foram entregues às chamas de uma grande fogueira que ele
mesmo preparou no centro do povo. Em Beziers, vendo rodeada a cidade
e compreendendo que toda resistência seria inútil, o conde Rogélio,
junto com o bispo, saiu para pedir clemência para as mulheres e
meninos e ainda para aqueles que não eram 'hereges', pois nem todos
nela eram cátaros (ou albigenses).
A resposta de Simon de Monfort foi ratificar o que antes já havia sido dito pelo legado papal e inquisidor Arnold Amaury quando um soldado que estava preocupado em matar católicos ortodoxos, em vez de apenas cátaros hereges pediu conselho: "Matem
a todos. Deus reconhecerá os seus".
Naquele dia de verão, em
1209, foi massacrada a população de Béziers, no sul da França. O abade cistercense e futuro arcebispo de Narbonne, Arnaud Amalric (Amalry), nomeado legado papal líder dos cruzados
católicos, não mostrou nenhuma misericórdia. Quando seus homens
perguntaram como distinguiriam os católicos dos "hereges",
relata-se que ele, juntamente com Monfort, deu a infame resposta
acima citada. Historiadores católicos atenuam-na para rezar: “Não
se preocupem. Acho que muito poucos [hereges] serão convertidos.”
Não importa qual a
resposta exata, o resultado foi a matança de pelo menos 20.000
homens, mulheres e crianças pelas mãos de uns 300.000 cruzados,
chefiados por prelados da Igreja Católica. A destruição de Béziers
marcou apenas o início duma guerra de conquista que destruiu
Languedoc numa orgia de fogo e de sangue.
A sangrenta cruzada se
estendeu por cerca de vinte anos: Albi, Carcassonne, Castres, Foix,
Narbonne, Termes e Toulouse caíram todas diante dos sanguinários
cruzados, até devastar totalmente o país. Em 1211 caiu Albi e em
1221, Toulouse e Avinhon. Seus habitantes tiveram a mesma sorte de
todos os outros, e foram passados ao fio da espada.
Em baluartes cátaros,
tais como Cassès, Minerve e Lavaur, centenas dos perfeitos foram
queimados na estaca. Segundo o frade cronista Pierre des
Vaux-de-Cernay, os cruzados, "com alegria de coração,
queimaram vivos os perfeitos". Em 1229, depois de 20 anos de
lutas e devastações, Languedoc passou a ficar sob a coroa francesa.
Mas a matança ainda não acabara.
O que provocou esse
massacre? Ele foi apenas o começo da Cruzada Albigense, lançada
pelo Papa Inocêncio III contra os chamados hereges da província de
Languedoc, no centro-sul da França. Antes de ela terminar,
possivelmente um milhão de pessoas — cátaros, valdenses e até
muitos católicos — haviam perdido a vida, irmãos que morreram,
pela guerra ou queimados na fogueira.
No entanto, os poucos que
conseguiram sobreviver, fugiram para diferentes países levando
consigo a sua fé e testemunho. Não obstante, a cristandade oficial
não retrocedeu em seu esforço por destruir “a heresia albigense”.
No Concílio de Toulouse, em 1229 foi criada a Inquisição, com o
fim de continuar a perseguição em cada recanto da Europa. E a
Inquisição completou a obra inconclusa da cruzada contra as
províncias do Meridional francês. Deste modo, a civilização de
Provença foi extinta por completo.
Apesar de tudo, a fé dos
irmãos não morreu. Em qualquer lugar que fossem, tornaram a
levantar o testemunho de Jesus Cristo, agora aprimorado pelo
sofrimento da perseguição. Por toda a Europa, numerosos irmãos
saíam da cristandade organizada, e aqui e acolá tornavam a
aparecer, para em seguida ocultar-se, durante os terríveis séculos
em que a Inquisição exerceu o seu império.
Em 1231, o Papa Gregório
IX instituiu (oficialmente) a Inquisição papal, a fim de dar apoio à luta armada. Com o lançamento da bula “Excomunicamus”, estabelecia a nova forma de ação do início do sistema inquisitorial. Basedo em denúncias e em coações, buscando as confissões dos hereges em julgamentos eclesiásticos, os encarregados de tais missões eram as “cortes” chamadas genericamente de Tribunal do Santo Ofício.
Os que pensavam de forma contrária ao “bom senso” reinante, estariam sujeitos à perda de propriedades, da liberdade e da própria vida - sua e daqueles que os protegessem. A nova diretriz aproveitava para proibir a manutenção de Bíblias nas casas de pessoas comuns.
Porém, já a partir de 1233, o mesmo Gregório IX lançou duas bulas que efetivaram as ações do Tribunal do Santo Ofício. Destaca-se a bula “Licet et Capiendos”, dirigida aos Dominicanos. Ela determinava que estes seriam os responsáveis pelas ações contra os suspeitos. Ordenava que não poupassem métodos para obter as confissões e exigia apoio do poder secular, privando os pecadores dos benefícios espirituais com severas censuras eclesiásticas.
A punição oficial por heresia era a morte por queima na estaca. O fanatismo e a brutalidade dos inquisidores foram tais, que irromperam revoltas em Albi e em Toulouse, e em outros lugares. O medo e o terror brutalizou a alguns a ponto de, em Avignonet, todos os membros do tribunal inquisitorial serem atacados e mortos.
Em 1244, a rendição da montanha fortaleza de Montségur, último refúgio de muitos perfeitos, foi aplicado o golpe mortal à doutrina dos cátaros. Cerca de 200 homens e mulheres pereceram queimados em estacas. No decorrer dos anos, a Inquisição caçou os cátaros remanescentes. O último cátaro supostamente foi queimado na estaca em Languedoc, em 1330. O livro Medieval Heresy menciona: “A queda do albigensismo foi a principal medalha da Inquisição.”
No ano de 1252, o Papa Inocêncio IV publicou o documento “Ad Extirpanda”, autorizando o uso de tortura física para se obter as confissões. As torturas sistemáticas tinham o objetivo de erradicar aquilo que nem a espada nem a lei haviam conseguido destruir. Além de trazer uma série de orientações aos inquisidores, continha uma frase que resumia bem os ânimos da época: “os hereges devem ser esmagados como serpentes venenosas”. O conjunto de ações direcionadas a inquirir, ou questionar o comportamento dos desgarrados, ficou conhecido como “Santa Inquisição”, nome que se tornou sinônimo de tortura, horror e irracionalidade. Os
juízes da Inquisição — na maioria frades dominicanos e
franciscanos (justamente aquelas Ordens que, em suas origens, tiveram causas em comum com as dos hereges) — estavam sujeitos a prestar contas apenas ao papa.
Por viverem em terras que ficavam além da jurisdição de Roma, os cátaros, assim como outras congregações de cristãos que existiram por muitos séculos, permaneceram quase inteiramente livres da corrupção papal. Estavam rodeados de pagãos e, no transcorrer dos séculos, foram afetados por seus erros; mas continuaram a considerar a Escritura Sagrada como a única regra de fé, aceitando muitas de suas verdades.
Os cátaros estavam longe
de serem cristãos perfeitos mas, será que por criticarem a fragorosa corrupção da Igreja
Católica justificaria seu extermínio cruel pelas mãos de pretensos cristãos?Provavelmente homens, aparentemente, ainda piores do que eles? (digo "aparentemente" pois, gostando ou não, todos nós julgamos pelas aparências, coisa que o próprio Senhor Jeová nos alerta, diversas vezes, por meio de toda Escritura).
Ao que tudo indica, seus perseguidores e assassinos católicos desonraram a Deus e a
Cristo, e difamaram o verdadeiro cristianismo, por torturar e
massacrar essas dezenas de milhares de dissidentes. Mas isso tudo apenas teve
o efeito prático de fazer com que as pessoas que protestavam contra o que era mal pudessem aperfeiçoar a sua fé cristã, corrigindo paulatinamente os desvios
que neles haviam a princípio.
Após arrefecer a fúria cruzada, os sobreviventes passaram a pregar como faziam os primeiros cristãos: em catacumbas, cavernas e nas florestas. Isto porque a cruzada albigense, apesar de sua brutalidade atroz e, como devia ser de se esperar por parte daqueles realmente entendem o mover de Deus sobre a humanidade, não havia sido suficiente para exterminar todos os indivíduos, muito menos ainda os seus ideais.
Até que por fim, com o advento da Reforma,
saíram novamente à luz, e se encontravam em centenas de milhares,
dispostos a escrever um novo capítulo de sua heroica história,
encontrando-se unidos à própria Reforma, ou tomando parte da
reforma mais radical, com o nome de anabatistas (rebatizadores), a
chamada "ala radical" da Reforma Protestante.
Fé é escolha e nisso consiste o livre arbítrio. Todo ser humano tem o direito a essa escolha: de ter ou não um Deus e o de escolher a qual Deus servir, sem ser importunado pelos demais humanos. Todavia, àquele que escolhe ser cristão, deve se lembrar: não há cristianismo que não seja, também, bíblico e não há algo bíblico que não seja também cristão. Querer dissociar uma coisa da outra é uma das artimanhas mais modernas do diabo. Cristão e bíblico, ou você é, ou não é. Não existe meio termo.
"Não podereis servir ao Senhor, porquanto é Deus santo, é Deus zeloso, que não perdoará a vossa transgressão nem os vossos pecados. Se deixardes ao Senhor, e servirdes a deuses estranhos, então ele se tornará, e vos fará mal, e vos consumirá, depois de vos ter feito o bem." (Josué 24:19-20)
Não obstante, nem todo saldo da perseguição ao catarismo desembocou em uma forma cristianismo mais pura e singela mas, sim, resultou, também, por culpa do alto grau de terror a que a população em geral esteve sujeita, em um tipo de distorção muito mais proeminente, e que chega a nós, com grande força, até os dias de hoje: a franco-maçonaria e o seu veio principal de religiosidade, que resulta da fusão do cristianismo primitivo com a mitologia egípcia (uma escola gnóstica, portanto, não cristã, com o intuito alegado de prestar auxílio à evolução espiritual da humanidade).
Uma postagem em um importante site maçônico do Brasil expõem o seguinte:
"Certamente, a aproximação entre os Cátaros e nossa Sublime Ordem se estabelece de forma direta, em uma relação simples de causa e efeito. Sem a existência de todos os eventos aqui estudados, talvez faltasse motivação para que os Irmãos do passado se dedicassem tanto à criação e fortalecimento das Colunas seminais da Loja. Os germes das escolas iniciáticas, formadas por homens livres que necessitavam de proteção mútua, se lançavam ao custo de muito trabalho, sangue e dedicação, neste alvorecer da Humanidade. Podemos afirmar que, se o Catarismo não tivesse ocorrido - assim como sua aniquilação sangrenta posterior - talvez a mais perfeita das associações humanas nunca tivesse existido. Foi esta tese, perturbadora e fascinante, que nos levou a pesquisar sobre o assunto."
Já, quanto a mim e a minha pesquisa postada, espero que os leitores entendam que eu não estou pretendendo, aqui, imputar culpa aos católicos de hoje, sejam estes do meio do povo ou do meio do clero da igreja católica, pelas ações criminosas e injustificáveis praticadas no passado, por membros diretores da igreja na qual eles congregam.
Todavia, as atrocidades e os erros praticados pelo corpo governante da instituição conhecida por igreja católica romana, têm sido tantos e tão graves tem o seu peso e, ocorrendo de forma recorrente em tantas épocas distintas da historia que eu, depois de ter tomado alguma ciência deles, mesmo tendo sido batizado como católico por meus pais e avós, não poderia mais, de modo algum, continuar confiando nela, ou acreditando na sinceridade dos princípios que ela declara.
Assim, como Deus tem me tornado livre e tem me dado a necessária provisão para uma escolha de minha parte quanto a isso, então eu decidi deixar de ser católico, desde os 19 anos de idade, em 1981, e me converti ao protestantismo (ou evangelismo).
Eu assim escolhi, até por que, eu descobri o evangelismo com um ramo do cristianismo, assim como a videira tem muitos ramos, dotado com uma doutrina diferente da católica e, ao meu modo de ver, muito mais condizente com o que a Bíblia realmente ensina: que a salvação é dada através da graça e bondade de Deus, na qual cada pessoa pode se relacionar diretamente com seu Criador, sem a necessidade de outro intermediário que não seja o próprio Senhor Jesus.
Além do mais, os protestantes se declaram seguidores do Evangelho - um dos seus princípios durante a Reforma era o da Sola Scriptura (do latim que significa "Só a Escritura"). Isso significava que, para os protestantes, apenas a Bíblia é fonte de revelação suprema, e que, até que retorne a nós aquele "o qual convém que o céu contenha até aos tempos da restauração de tudo, dos quais Deus falou pela boca de todos os seus santos profetas, desde o princípio" (Atos 3:21), não deveria ser permitido à Igreja alguma fazer doutrinas fora dela.
Conhecer a Bíblia com perspicácia não torna o mundo melhor para mim mas, me torna melhor para o mundo, para a glória de Deus.
Creio em Deus Pai, o Deus
Todo-Poderoso, o criador do céu e da terra, que formou ao homem do
pó da terra e lhe soprou-lhe nas narinas o fôlego de vida, e o
homem passou a ser alma vivente. Creio em Jesus Cristo, único Filho
de Deus desde o princípio, como sendo o meu único e suficiente
Senhor e Salvador. Creio que Jesus nasceu da virgem Maria, e que foi
concebido pelo poder do Espírito Santo e que viveu e ministrou entre
nós, sobre uma nova e eterna aliança de Deus para com a humanidade.
Sendo Jesus Cristo rejeitado por
muitos, foi perseguido, preso e torturado, morto e sepultado, desceu
a mansão dos mortos, tendo vencido a morte, ressuscitou ao terceiro
dia, voltando a estar entre nós. O senhor Jesus ressuscitado
ascendeu aos Céus, o qual convém que o retenha até aos tempos da
restauração de tudo, sentado à direita de Deus Pai, de quem tem
recebido todo o poder no céu e na Terra. Creio que a Ceia do Senhor
foi instituída por Jesus Cristo para que eu comemore Sua morte pelos
meus pecados.
Creio que o meu batismo é necessário,
validado pela minha escolha consciente, expressando a minha conversão
para a fé em Jesus Cristo e para atenção aos seus ensinamentos.
Creio que a Bíblia é a palavra inspirada de Deus, e eu a tenho como
minha única regra de fé e de conduta. Creio que a minha salvação
somente é possível por meio do sangue do Senhor Jesus Cristo,
derramado em resgate sacrificial para que todo ser humano que nele
crer tenha perdão e vida eterna. A minha crença é expressa por
manter-me, qual um ramo, continuamente ligado à cepa verdadeira, que
é Jesus e, por aceitar e praticar seus ensinamentos, garantindo uma
relação de fidelidade permanente com Deus.
Creio que os dons do Espírito Santo se
manifestam na igreja continuamente, até os dias de hoje e, creio na
necessidade da comunhão de todos os que creem em Jesus Cristo, não
deixando a nossa congregação mas, antes, admoestando-nos uns aos
outros, tanto mais, quanto vemos que se vai aproximando o grande dia
do Senhor, porque a cada um é dado um dom diferente, dentre uma
diversidade e dons mas, mediante o mesmo e único Santo Espírito,
que realiza todas estas coisas, distribuindo-as, como lhe apraz, a
cada um, individualmente.
Creio que a volta de Jesus Cristo é
uma realidade iminente que, tal qual relâmpago sai do oriente e se
mostra até no ocidente, poderá ser vista e entendida por todos
pois, assim há de ser a vinda do Filho do Homem, para julgar os
vivos e mortos. Creio que, então, todos os que estiverem em seus
túmulos memoriais ouvirão a voz do Senhor Jesus e sairão: os que
tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida; e os que tiverem
praticado o mal, para a ressurreição do juízo, para que se cumpra
a vontade do Deus Pai, estabelecendo o seu reino na Terra, assim como
ele já o tem feito no céu.
Creio que o Senhor Jesus Cristo é o
Rei dos reis e Senhor dos senhores; o único que possui imortalidade
e o único que é digno de receber toda a honra e a glória, a força
e o poder. Jesus Cristo é o meu rei eterno e imortal: A ele eu coroo
e ministro para sempre o meu louvor. Amém.
Nascido na capital de São Paulo em 31/01/1962 com a graça de André Luis Lenz, filho de Yolanda de Azedia Lenz e Luiz G. Lenz, residi toda a minha vida na cidade de Osasco-SP passando a infância e adolescência no bairro do KM18. Formei-me Técnico em Eletrônica pela FITO (Osasco) em 1981. Sonhando seguir carreira militar na aeronáutica me desiludi. Trabalhei em empresas como Scopus Tecnologia, Siemens do Brasil, LABO Computadores, Racimec, CELM, Videocompo e SENAI-SP. Casado com Deleide Neusa Novikovas em 1984, que me deu dois filhos: Claudia Wynie N. Lenz e Guilherme Bernardo N. Lenz. Divorciado em 2002. Formado em Processamento de Dados pela FATEC - São Paulo em 2002. Deixei o SENAI-SP em 2009 após 19 anos de bons serviço prestados e fazer duas viagens internacionais de estudos e pesquisas de longa duração para a Suécia (1999) e para o Japão (2001). Trabalhei, por último, na empresa Priscell Indústria e comércio LTDA, sendo responsável pelo projeto e produção de painéis elétricos (energia e controle) para automação de máquinas de fusão termo-controlada de adesivos e máquinas para linhas de armação, carregamento e fechamento de embalagens e cartuchos. Solteiro, cristão, cientista e SPH!