sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O Sinédrio


O Sinédrio era um conselho de juízes, que exercia a função de Corte Suprema da lei judaica. Esta entidade teve como mais remota origem, os desdobramentos da lamentação de Moisés à Jeová Deus, após Moisés ouvir o murmúrio dos israelitas pela falta de ter carne por alimento, no deserto, enquanto Moisés, por sua vez, considerou a carga pedida por Deus, para cuidar sozinho do povo, como muito grande, dizendo que ele, sozinho, não poderia suportar. (Números 11).

"E o Senhor disse a Moisés: "Reúna setenta autoridades de Israel, que você sabe que são líderes e supervisores entre o povo. Leve-os à Tenda do Encontro, para que estejam ali com você.  Eu descerei e falarei com você; e tirarei do Espírito que está sobre você e o porei sobre eles. Eles o ajudarão na árdua responsabilidade de conduzir o povo, de modo que você não tenha que assumir tudo sozinho." (Números 11:16,17)

Com isso, Deus permitiu a divisão da carga de Moisés com outros setenta anciãos, que foram ungidos por Espírito Santo, para cuidar do povo de Israel. Com isso Deus aprovou a criação de um conselho de anciãos do povo e seus oficiais, para cuidar do povo israelita, mesmo que, quando o Espírito repousou sobre eles, eles profetizaram, mas depois nunca mais. (Números 11:25).

Em verdade, o termo “setenta anciãos de Israel” já havia surgido, antes, quando o povo ainda se encontrava próximo ao Sinal, por que “ali se acampou em frente ao monte” (Êxodo 19:2), e após Jeová ter discorrido a Moisés sobre toda a Lei que era necessária àquele povo, setenta dos anciãos de Israel foram autorizados a subir (por apenas uma parte do percurso) e adorar de longe (Êxodo 24:1), no dia seguinte após Moisés escrever todas as palavras (da Lei) do Senhor (Êxodo 24:4).

Quando os filhos de Israel, segundo a ordem de marcha, partiram do deserto de Sinai; e a nuvem parou no deserto de Parã (Números 10:12), aquele povo já não era mais o mesmo. Muito embora a maioria deles não percebesse, ele estava transformado, fortalecido, organizado e cheio de moral. Já não se falava mais em temores, mas falava-se em ordem de exércitos, segundo as tribos. Sim, eles pareciam prontos para avançar, mesmo por um caminho por onde muitos perigos lhes aguardasse. 

Todavia, isso não bastou para evitar que, depois de um certo tempo, novamente queixava-se o povo, falando o que era mal aos ouvidos do Senhor Deus (Números 11:1). Mesmo castigados, o vulgo, que estava no meio deles, veio a ter grande desejo; pelo que os filhos de Israel tornaram a chorar, e disseram: Quem nos dará carne a comer? (Números 11:4). E irritaram, ainda mais a Deus, dizendo: coisa nenhuma há senão este maná diante dos nossos olhos. (Números 11:6).

É interessante notar que, já não era a primeira vez que o povo murmurava por causa de alimento e, desde antes do povo ter chegado ao Sinai, Jeová já vinha cuidado com zelo das necessidades deles: eles tinham o maná diariamente (exceto no sétimo dia, compensado com o dobro, de conservação especial, no sexto dia, ver Êxodo 16). Codornizes como alimento, o povo recebia frequentemente (creio que diariamente, pela tarde (Êxodo 16:12)), na medida da necessidade deles, coisa muito bem conhecida pelo Senhor. Mas o que muitos do povo queria, na verdade (como quer, até os dias de hoje), era sempre mais e mais, mesmo quando o "mais" não lhe fosse, de fato, nada conveniente.

Deste modo, pela "saudades" que o povo expressava sentir pela vida que haviam deixado para trás, no Egito, de onde o próprio Senhor, com grande poder, os havia tirado, mesmo Jeová tendo aprovado a criação daquele conselho de anciãos do povo e seus oficiais (que, muito mais tarde resultará na tradição de criação do sinédrio), para cuidar daquele murmurante povo israelita (que não são diferentes dos humanos de toda Terra de hoje em dia), tal instituição, também não bastou, segundo a Justiça de Deus, para livrar aquele povo de (mais) castigo.

Então soprou um vento do Senhor e trouxe codornizes do mar, e as espalhou pelo arraial, e o povo se levantou todo aquele dia e toda aquela noite, e todo o dia seguinte, e colheram as codornizes; o que menos tinha, colhera 10 gômeres (cerca de 44kg), e as estenderam para si ao redor do arraial. (No entanto,) quando a carne estava entre os seus dentes, antes que fosse mastigada, se acendeu a ira do Senhor contra o povo, e feriu o Senhor o povo com uma praga terrível. (Números 11:31-33).

Aqueles setenta homens, que haviam sido ungidos com Espírito, para ajudar na administração do povo, não foram o bastante para impedir que o povo continuasse errando, pecando contra Deus, de modo que, exceto Calebe, filho de Jefoné o quenezeu, e Josué, filho de Num (se é que estes dois homens deveras estiveram inscritos entre aqueles primeiros setenta), porquanto perseveraram em seguir ao Senhor (Números 32:12), entrariam na Terra Prometida, e, assim se acendeu a ira do Senhor contra Israel, e fê-los andar errantes pelo deserto quarenta anos até que se consumiu toda aquela geração, que fizera mal aos olhos do Senhor. (Números 32:13).

Apesar de que o numeral de contagem setenta, apareça em diversos momentos nos seis primeiros livros da Bíblia, tal numeral só voltaria a aparecer como contagem de pessoas das tribos de Israel, já no tempo de Juízes, ao fazer referência a casa de Gideão (também chamado Jerubaal, querendo dizer, Baal contenda contra ele, pois derrubou o seu altar. (Juízes 6:32).), após a vitória de Jeová usando ele contra os dominadores midianitas: E teve Gideão setenta filhos, que procederam dele, porque tinha muitas mulheres. (Juízes 8:30).

Antes de Gideão e de os trezentos, os filhos de Israel fizeram o que era mau aos olhos do Senhor Deus; e Ele os deu nas mãos dos midianitas por sete anos. (Juízes 6:1).

E logo em seguida, o mesmo numeral aparece mais uma vez, no início de Juízes 9, mencionado por um outro filho que Gideão teve, Abimeleque, ao falar contra os seus setenta irmãos, porém com Gideão estando já falecido, após ele mesmo ter tropeçado em servir ao Senhor, e com boa parte do povo de israel, ingrato a Jeová, o seu Deus libertador, tendo retornado a idolatria que lhes fora ensinada pelos seus dominadores estrangeiros, pondo imagens de baal-berite por deus.(Juízes 8:33).

De parte dos despojos dos midianitas vencidos, Gideão havia feito um éfode, e colocou-o na sua cidade, em Ofra; e todo o Israel se prostituiu (idolatrando) ali após ele; e (isso) foi por tropeço a Gideão e à sua casa (Juízes 8:27), até que aquele irmão enjeitado, porquanto era filho ilegítimo, nascido fora da casa de Gideão, foi à casa de seu (falecido) pai, a Ofra, e matou a seus irmãos, os filhos de Jerubaal (Gideão), setenta homens, sobre uma só pedra. Mas Jotão, filho menor de Jerubaal, ficou, porquanto se tinha escondido. (Juízes 9:5). Todavia, por fim, Deus fez tornar sobre Abimeleque o mal que tinha feito a seu pai, matando a seus setenta irmãos. (Juízes 9:56). 

Ou seja, a seus sessenta e nove irmãos, e mais a ele próprio, pois havia pedido ao seu servo: mata-me; para que não se diga de mim: uma mulher o matou. (Juízes 9:54).

Muito tempo depois, já tendo passado o reinado de Davi, e depois dele, o de seu Filho Salomão e, tendo após este, o reino sendo dividido, numa situação que já perdurava por várias gerações, também Acabe (rei do reino do norte, que se vendeu para fazer o que é mau aos olhos de Jeová, instigando-o Jezabel, sua esposa (1 Reis 21:25)) tinha setenta filhos em Samaria. Jeú (vaso de ira do Verdadeiro Deus) escreveu cartas, e as enviou a Samaria, aos chefes de Jizreel, aos anciãos e aos aios dos filhos de Acabe, dizendo:

Logo, em chegando a vós esta carta, pois estão convosco os filhos de vosso senhor, como também os carros, os cavalos, a cidade fortalecida e as armas. Olhai pelo melhor e mais reto dos filhos de vosso senhor, o qual ponde sobre o trono de seu pai, e pelejai pela casa de vosso senhor. Porém eles temeram muitíssimo, e disseram: Eis que dois reis não puderam resistir a ele; como, pois, poderemos nós resistir-lhe? (2 Reis 10:4).

O numeral setenta continua aparecendo em várias outras passagens da narrativa bíblica, associada a outros numerais e, principalmente associada a exata contagem do tempo em anos, até que ela volta a aparecer, com maior precisão e com maior poder de significado, associada a "um grupamento de setenta anciãos", no livro de Ezequiel, no capítulo 8, quando aquele profeta, tomado pelo Espírito do Deus Vivo, recebe revelações proféticas que incluem a visão de toda a forma de répteis, e animais abomináveis, e de todos os ídolos da casa de Israel, (que) estavam pintados na parede em todo o redor. (Ezequiel 8:10).

E estavam em pé diante deles setenta homens dos anciãos da casa de Israel, e Jaazanias, filho de Safã, em pé, no meio deles, e cada um tinha na mão o seu incensário; e subia uma espessa nuvem de incenso. Então (o Espírito) me disse: Viste, filho do homem, o que os anciãos da casa de Israel fazem nas trevas, cada um nas suas câmaras pintadas de imagens? Pois dizem: O Senhor não nos vê; o Senhor abandonou a terra. (Ezequiel 8:11-12).

Aqui, o Espirito de Jeová Deus permitiu a Ezequiel compreender como e porque a presença de Deus, deixaria o seu templo, o Templo de Salomão em Jerusalém, por causa da corrupção da justiça e dos pecados de idolatria que os líderes do país estavam fazendo em segredo. Pensando que Deus não os via, líderes da nação adoravam abominações no templo. Deus pergunta a Ezequiel: "Você viu o que os anciãos da casa de Israel fazem nas trevas", para que Ezequiel fosse por testemunha do por quê a presença de Deus estava deixando o Templo.

Assim, bastante tempo posteriormente, quando a ideia de se ter um conselho baseado naquela antiga tradição mosaicas ressurgiu, tal conselho veio a adotar a formação de setenta mais um membros, tal como se supunha, por serem herdeiros das tarefas desempenhadas por aqueles setenta anciãos que ajudavam a Moisés na administração do povo, além do próprio Moisés.

Muito provavelmente, a ideia de Sinédrio desenvolveu-se integrando representantes da nobreza sacerdotal e das famílias mais notáveis, possivelmente durante o período persa, ou seja, a partir do século V – IV a.C.

Depois da morte de Alexandre Magno (também dito Alexandre, o grande), morto na Babilônia, em 323 a.C., os generais de Alexandre passaram a disputar entre si o domínio do império e, com isso, a parte oriental daquele império se dividiu entre os Ptolomaicos (partidários do também falecido general Ptolemeu), no Egito e os Selêucidas (partidários de Seleuco I Nicator, filho do general Antíoco e sobrinho de Ptolomeu), na Síria, e, assim, iniciou-se um período marcado pela helenização, que foi o confronto entre religião judaica tradicional e a cultura helenística, que ora havia se tornado uma mescla entre a cultura grega, com a cultura do oriente próximo.


A princípio, Jerusalém ficou sob influência ptolomaica, com relativa liberdade para o culto do judaísmo, porém, com a morte de Ptolemeu IV em 204 a.C., Antíoco III, que se tornara o mais notório dos governantes selêucidas após o próprio Seleuco I, entendeu que a situação mostrava-se propícia para nova campanha ocidental (Quinta Guerra Síria). Antíoco e Filipe V da Macedônia então fizeram um acordo para dividir as possessões ptolemaicas fora do Egito, e preparou uma invasão da Celessíria (que incluia a Judeia).

Antíoco arrasou depressa a região e, após um breve revez em Gaza, deu um esmagador golpe aos Ptolemeus perto da cabeça do rio Jordão, obtendo o importante porto de Sídon. Em 200 a.C., emissários romanos chegaram a Filipe e Antíoco exigindo que se abstivessem de prosseguir, e invadisse também o Egito, pois os romanos temiam, assim, sofrer alteração na sua importação de grãos do Egito, que era importante para a manutenção da população cidadã em Roma, mas a Judeia ficaria, doravante, sob o domínio dos selêucidas.

O termo “Sinédrio” não provém da língua hebraica, mas vem da junção de duas palavras gregas que são syn- (junto) e hedra (assento, lugar que se ocupa). O Sinédrio operava em Israel no período em que Jesus viveu como homem, propondo-se à missão de administrar a justiça, interpretando e aplicando a Torá (Pentateuco ou Lei de Moisés), tanto oral, como escrita, e segundo a orientação na tradição judaica.

Ao que tudo indica, não houve, precisamente, referências a efetiva existência de um conselho de anciãos com o nome de Sinédrio, até o tempo em que a dinastia dos reis selêucidas passaram a dominar sobre a judeia, tendo sido mencionado pela primeira vez, com o nome de Gerousia (conselho dos anciãos), no tempo do rei Antíoco III da Síria (223-187 a.C.).

Mais adiante, em 189 a.C. o reino selêucida perdeu a guerra contra Roma, o que teria como consequências a perda da Ásia Menor e o pagamento anual de 15 mil talentos aos Romanos. Numa tentativa de conseguir os fundos necessários, Heliodoro, um dos ministros do rei Seleuco IV, tentaria se apoderar, em vão, do tesouro do Segundo Templo de Jerusalém.

Tal como sucedeu em outras partes, a cultura e os modelos de vida gregos difundiram-se, também, pela Judeia. Alguns membros da elite judaica sentiam-se atraídos pela cultura grega e desejavam uma integração nesse mundo. Em 175 a.C., o sumo sacerdote Jasão obteve a autorização de Antíoco IV para transformar Jerusalém numa cidade helénica, o que incluíu a fundação de um ginásio, onde os jovens se exercitavam nus.

Estas medidas pareceram excessivas para muitos judeus, que mostraram o seu descontentamento. Em resposta a esta contestação, Antíoco IV tomou medidas que visavam impor de forma coerciva o helenismo. Os judeus passaram a ser obrigados a fazer sacrifícios em nome dos deuses pagãos e proibidos de praticar a circuncisão e de observar o Sabbat. Em dezembro de 168 a.C., o Templo de Jerusalém seria profanado com a instalação de uma estátua de Zeus.

Com a proibição em 167 a.C. da prática do judaísmo pelo decreto de Antíoco IV, e com a introdução do culto do Zeus Olímpico no Templo de Jerusalém, muitos judeus decidem resistir a esta assimilação, e acabaram sendo perseguidos e mortos. Conforme diz o apócrifo de 1 Macabeus, em seu capítulo 1:56-64:

"rasgavam e queimavam todos os livros da lei que achavam; em toda parte, todo aquele em poder do qual se achava um livro do testamento, ou todo aquele que mostrasse gosto pela lei, morreria por ordem do rei. Com esse poder que tinham, tratavam assim, cada mês, os judeus que eles encontravam nas cidades e, no dia vinte e cinco do mês, sacrificavam no altar, que sobressaía ao altar do templo. As mulheres, que levavam seus filhos a circuncidar, eram mortas conforme a ordem do rei, com os filhos suspensos aos seus pescoços. Massacravam-se também seus próximos e os que tinham feito a circuncisão. Numerosos foram os israelitas que tomaram a firme resolução de não comer nada que fosse impuro, e preferiram a morte antes que se manchar com alimentos; não quiseram violar a santa lei e foram trucidados. Caiu assim sobre Israel uma imensa cólera."

Judas Macabeu, filho de Matatias
Entre os judeus que permanecem fiéis à Torá, estava o sacerdote Matatias, chamado de Hasmoneu devido ao nome do patriarca de sua linhagem (Hasmon). Recusando-se a servir no templo profanado, Matatias se exila com sua família em sua propriedade em Modin. Matatias tem cinco filhos: João, Simão, Judas, Eleazar e Jônatas. Convocados para os sacrifícios pagãos, Matatias acaba matando o emissário real e um outro sacerdote que se propõe a oficiar os sacrifícios. Convoca então os judeus fiéis à Torá e foge com seus filhos para as montanhas, iniciando o movimento de resistência contra o domínio estrangeiro, destruindo altares, circuncidando meninos à força e recuperando a Torá das mãos dos gentios.

Todavia a história do livro de Macabeus é bastante clara em mostrar que foi apenas após uma aliança ocorrida entre os macabeus e os romanos, uma aliança defensiva contra os gregos com o senado romano, que permite expelir definitivamente os invasores helenistas o que põe um termo, ao movimento guerrilheiro liderado por Judas Macabeu, filho de Matatias, e de seus irmãos. Paralelamente a isso, ocorria que do ponto de vista militar, a Grécia havia entrado num declínio tal, que os romanos conquistaram todo o seu território, de 168 a.C. em diante, ainda que, em contrapartida, a arte, a cultura e a religião grega, é que houvessem, de fato, conquistado os romanos.

Na Judeia, sucedendo ao terceiro irmão Macabeu, Simão, encontramos o filho deste, João Hircano, que consolida o poder em suas mãos realizando ainda mais alianças com Roma e outros impérios de sua época. Esta dinastia, a dinastia da casa de Matatias, conhecida como "os asmoneus", passa governar a Judeia. Para Governar, João Hircano e seus sucessores, usurpam tanto o título de etnarca como o de sumo-sacerdote.

Os assideus, alarmados com as ambições dos asmoneus, e com o caráter secular que assume o seu reinado, rompem com eles. Segundo este grupo, ao se fazer sacerdote sem possuir o direito de família os asmoneus cometem uma terrível falta. Isto gerou a ruptura profunda entre os descendentes dos assideus (fariseus e essênios) e o partido ligado aos asmoneus (saduceus), os três partidos judaicos que, então, se formam.

Não obstante ao fim do domínio do helenismo grego sobre a Judeia, as diversas controvérsias entre os partido judaicos, agravado por dissidências internas, de continuo mantinham os judeus enfraquecidos como nação e o seu reino, agora sob o permanente olhar rapinante da águia romana. A questão a ser levantada é: O que o povo judeu poderia ter em haver com a politeísta idolatria estatal romana, que não fosse a mesma coisa que tivesse em haver com o panteísmo helênico dos gregos?

A Roma cuja fama empolgara os macabeus, levando-os a  fazer com ela um pacto, sem consultar a Deus (ver Capitulo 8 do livro apócrifo I Macabeus), agora era o que se tornava em ameaça maior. O fato é que, em 64 a.C., em meio a um novo acirramento das disputas internas dos judeus, o general romano Pompeu marchou com suas tropas, invadiu e conquistou Jerusalém, e fez do débil reino judeu um estado vassalo de Roma.

Sabe-se que o Sinédrio era composto de 71 membros, escolhidos entre varões eminentes, entre os quais estava o sumo sacerdote, pertencendo também ao grupo, pessoas de relações deste e que a sua existência com o nome de synedrion, pode ser comprovada desde o tempo do rei Hircano II ( 63 a 40 a.C.). Nesses tempos, era presididos pelo monarca asmoneu (da linhagem dos macabeus), que era, também, o sumo sacerdote.

Entre 57 a.C. e 55 a.C., Aulo Gabínio, procônsul romano para a Síria, tripartiu o antigo reino em Galileia, Samaria e Judeia, com cinco sinédrios (côrte de juízes). Herodes o Grande, no começo de seu reinado, mandou executar grande parte dos membros do grande sinédrio de Jerusalém (quarenta e cinco, segundo o historiador e apologista judaico-romano Flávio Josefo, em Antiquitates Judace 15.6), porque o conselho se atrevera a recordar-lhe os limites dentro dos quais deveria situar-se o seu poder. Herodes substituiu-os, durante seu reinado, por personagens submissos aos seus desejos e, depois, no tempo de Arquelau, teve limitada importância.

O termo Sinédrio é usado vinte e duas vezes no Novo Testamento e, muito embora aldeias e cidades espalhadas pela Judeia possuíssem os seus próprios conselhos de anciãos locais, formado por fazendeiros, comerciantes, escribas e sacerdotes locais, por ser Jerusalém reconhecida pelos romanos como a capital religiosa do Judaísmo, contendo ela, ainda, as instalações do templo histórico, o Sinédrio de Jerusalém era o conselho que exercia, oficialmente, a representação judiciária de todo povo judeu perante a autoridade romana, que era, em última instância, quem de fato governava sobre a Judeia do tempo de Jesus.

O Sinédrio era uma importante instância de poder na Judeia no tempo de Jesus, apesar do poder político estar nas mãos dos Romanos. Governos leais a Roma exerciam o poder outorgado por Roma. O Sinédrio em Jerusalém era composto por:
  • Grandes sacerdotes, normalmente os saduceus: um sumo sacerdote era o capitão do templo e um outro supervisionava os procedimentos e comandava o guarda do templo (Atos 5:24-26), ambos responsáveis pelo andamento do culto e, também, outros sacerdotes que serviam de tesoureiros, controlando os salários de trabalhadores e de sacerdotes de outras localidades, monitorando a arrecadação de fundos que vinha através do templo de Jerusalém;
  • Anciãos, constituídos de chefes patriarcais de grandes famílias, aristocracia financeira e distintos leigos religiosos da Judeia, ricos comerciantes e latifundiários. Homens como José Arimateia (Marcos 15:43), dividiam a visão conservadora dos saduceus e davam a assembléia à diversidade de um parlamento moderno;
  • Escribas que eram considerados os intelectuais da época. Podiam ler, escrever e interpretavam as leis judaicas. A maioria deles eram fariseus. Eles eram advogados profissionais treinados em teologia, direito e filosofia, e eram organizados em grêmios, normalmente seguindo a um rabinos ou professor célebre. Gamaliel, um escriba famoso do sinédrio, que aparece no Novo Testamento (Atos 5:34), foi o erudito que instruiu o Saulo de Tarso (futuro apóstolo Paulo)  (Atos 22:3), antes dele se tornar cristão.
Nós sabemos mais sobre alguns aspectos do Sinédrio nos dias de Jesus, do que podemos dizer sabemos sobre ele antes ou depois. Uma coisa que sabemos é a extensão de sua influência. Funcionava em Jerusalém, mas sua ação e decisões oficialmente se estendiam em toda a Judeia. Porém, mas, na prática, apesar do Sinédrio ter jurisdição restrita a Judeia, de fato, ele tinha influência para além da província da Galileia e até mesmo em Damasco (Atos 22:5).

O Senhor intervém e aborta a missão do funcionário do Sinédrio,
Saulo de Tarso, discípulo de Gamaliel, próximo a Damasco.
A narrativa bíblica nos mostra: E Saulo, respirando ainda ameaças e mortes contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo sacerdote. E pediu-lhe cartas para Damasco, para as sinagogas, a fim de que, se encontrasse alguns deste Caminho (ou seja, cristãos), quer homens quer mulheres, os conduzisse presos a Jerusalém. (Atos 9:1-2). Anos mais tarde, com seu nome já mudado para Paulo, ele próprio contaria a narrativa disso em Atos 22. 

Na época dos governadores romanos, inclusive na de Pôncio Pilatos, o Sinédrio exerceu de novo suas funções judiciais em processos civis e penais, dentro do território da Judeia. O trabalho do conselho era basicamente o de julgar assuntos da lei judaica, quando surgiam discórdias, mas, era um tribunal com poderes criminais, políticos e religiosos, e, em todos os casos, sua decisão era final.

Eles julgavam acusações de blasfêmia como nos casos de Jesus (Mateus 26:65) e Estevão (Atos 6:12-14) e também participavam na justiça criminal. Nesse momento, suas relações com a administração romana eram tensas, e o relativo âmbito de autonomia que lhe foi outorgado estava em consonância com a política romana nos territórios conquistados.

O sumo sacerdote indicado pelos romanos, em exercício entre 18 e 36 d.C. era Josefo ben Caifás, que havia se casado com a filha de Anás ben Sete, antigo sumo-sacedote e pai e outros cinco também sumo sacerdotes, que exerceram em períodos distintos, tanto antes, quanto depois de Caifas. No entanto, como nos explica Lucas: "Sendo Anás e Caifás (ambos) sumos sacerdotes, veio no deserto a palavra de Deus a João, filho de Zacarias." (Lucas 3:2), Anás era quem, na verdade, ainda detinha o maior efetivo poder no Sinédrio, sendo seguido por seu genro.
Sendo Anás e Caifás sumos sacerdotes, veio no deserto a palavra de Deus a João, filho de Zacarias.

Lucas 3:2
Sendo Anás e Caifás sumos sacerdotes, veio no deserto a palavra de Deus a João, filho de Zacarias.

Lucas 3:2
Sendo Anás e Caifás sumos sacerdotes, veio no deserto a palavra de Deus a João, filho de Zacarias.

Lucas 3:2
Sendo Anás e Caifás sumos sacerdotes, veio no deserto a palavra de Deus a João, filho de Zacarias.

Lucas 3:2

O filósofo judeu Filo, indica que no período romano, o sinédrio podia julgar violações ao templo, cuja pena era capital, e isso explicaria as mortes de Estevão (Atos 7:58-60) e Tiago. Gentios que eram pegos ultrapassando o recinto do templo eram avisados sobre a pena de morte automática. Porém, o Novo Testamento e o Talmude discordam de Filo nesse ponto de vista, de modo que não podemos afirmar se o sinédrio tinha, ou não, um poder de punição capital, ou se as mortes de Estevão e Tiago foram atos de exceção.

No julgamento de Jesus, as autoridades estavam convencidas em envolver o governador romano Pilatos, que por si só poderia mandar matar Jesus (João 18:31). De acordo com o Talmude, o sinédrio perdeu o privilegio de executar punição capital "quarenta anos antes da destruição do (segundo) templo", que se deu no ano 70 d.C, ou seja, por volta da época da morte de Jesus, não sendo possível se precisar ao certo.

Não obstante, o mais provável é que nesses momentos, a “potestas gladii”, isto é, a capacidade de ditar uma sentença de morte, estivesse reservada ao governador romano (“prefectus”), que como era habitual, teria recebido do imperador romano amplos poderes judiciais, entre eles e os de pena de morte. O Sinédrio, portanto, embora pudesse julgar as causas que lhes eram próprias, não tinham poder de condenar ninguém a morte.

De qualquer modo, o seu lugar de referência do Sinédrio era o templo de Jerusalém e, por oportunizar decisões políticas e criminais, o templo passou a ser considerado, simultaneamente, um centro político, jurídico e religioso. Após ser preso Jesus tinha que ser julgado pelo Sinédrio de Jerusalém pois, sendo Judeu, tinha que passar por aquela instância. Todavia, a reunião de seus membros do Sinédrio, durante a noite, para interrogar Jesus, foi apenas uma investigação preliminar, com a finalidade de definir as acusações que poderiam ser formuladas e que mereceriam a pena capital, para apresentá-las, na manhã seguinte contra Jesus, no processo perante o Prefeito romano.

Sabemos, ainda, que o apostolo Paulo, quando preso, temendo que o condenassem a morte, alegou o título de cidadão Romano exigindo julgamento em pela justiça romana, foi o que aconteceu, em parte, tendo ele sido enviado a Roma. Antes disso, o mesmo Paulo havia se indignado por saber que o entendimento sobre a morte e a ressurreição de Jesus Cristo havia sido removido da mente dos Gálatas. Se a lei estava prestes a ser restabelecida na Igreja, a morte de Cristo não havia surtido efeito naquela comunidade.

As palavras de Paulo foram, então, aparentemente duras. Ele, que no passado foi grande defensor da lei e que percebeu ser ela um grande empecilho para enxergar a graça de Jesus, se vê agora fazendo o papel oposto: Mostrar que a graça é superior à lei. Quando Paulo apresentou o Evangelho àquela igreja, a igreja creu na sua pregação, agora distante, ouviu rumores sobre “Outro Evangelho”.

Assim, Paulo confronta os irmãos, argumentando severamente com os Gálatas:

Ó insensatos gálatas! quem vos fascinou para não obedecerdes à verdade, a vós, perante os olhos de quem Jesus Cristo foi evidenciado, crucificado, entre vós? Só quisera saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé? Sois vós tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, acabeis agora pela carne? Será em vão que tenhais padecido tanto? Se é que isso também foi em vão. Aquele, pois, que vos dá o Espírito, e que opera maravilhas entre vós, o faz pelas obras da lei, ou pela pregação da fé? (Gálatas 3:1-5)

O apóstolo Paulo ficou perplexo com a rapidez com que os crentes gálatas haviam se desviado da fé. Eram filhos da fé de Paulo, foram evangelizados e doutrinados pelo apóstolo. Tão depressa se desviaram para seguir a estranhos, e o pior, um evangelho contraditório.

Paulo começa a defesa de seu evangelho relembrando aos Gálatas de que sua vida cristã, que teve início com Cristo crucificado e foi certificada pelo Espírito Santo, estava completamente separada da lei. Eles seriam tolos de abandonar o caminho de Deus e tentar alcançar a perfeição por seus próprios esforços, como vinham fazendo muitos dos judeus do tempo de Jesus, e muitos o fazem até os dias de hoje.

Sobre esse evangelho, cuja ação é questionada, como dom espiritual dos Gálatas, encontramos a mesma argumentação em Galatas 2:7-9. Paulo explica aos Gálatas que sua preferência na obediência da lei significa uma recaída na situação que eles há muito haviam superado. A lei, por sua vez, não pode modificar a superioridade do Evangelho dado por Cristo.

Paulo finaliza esta passagem revelando que o Espírito Santo, que opera milagres, que dá entendimento e que foi concedido mediante a Fé, adquiriu algo que em muito supera a lei (Galatas 3:5). Foi muito difícil para a Igreja primitiva, constituída a princípio de judeus, aceitarem também que a porta da fé foi aberta, igualmente, aos nós gentios. Todos os pactos, a adoção de filhos, as alianças, as promessas, que antes foram dados ao povo judeu, agora passavam aos cristão de todas as raças, línguas e nações: Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência. (Romanos 9:8)

Deus trouxe uma revelação bem clara ao apóstolo Pedro, através daquele lençol que descia do céu, com todo tipo de animais, que para os judeus eram imundos (Atos 10:9-48), que nós gentios também fomos feitos um com eles (Efésios 2:14). Os legalistas desviam os olhos de cristão incautos, da graça de Jesus para a letra morta da lei feita para o velho homem. Entretanto, os gálatas não tinham desculpas, pois Paulo havia lhes deixado bem claro o significado da morte e da ressurreição de Jesus.

Os judeus consideravam Abraão como seu pai e fonte de suas bênçãos espirituais. Eles acreditavam (e muitos ainda creem) que a simples ascendência física de Abraão os torna justos. Paulo mostra que Abraão agradou a Deus pela fé, e não por realizar obras da lei, uma vez que a lei sequer existia na época de Abraão.

Ele também insiste que os verdadeiros filhos de Abraão, e herdeiros da bênção prometida, são aqueles que vivem pelo princípio da fé. Paulo apresenta as alternativas da fé (Gálatas 3:11), e da lei (Gl 3:12) como formas de justificação. Entretanto, ao invés de justificar, a lei mal diz (Gl 3:10), pois ela faz exigências que o homem, de fato, nunca logrou cumprir.


O legalismo está fundamentado no uso inadequado da lei. Quando abraçamos o legalismo, abrimos a porta para a feitiçaria entrar nas nossas vidas. O legalismo libera uma feitiçaria, um fascínio demoníaco (tal qual as abominações do conselho de anciãos que o Espírito de Jeová mostrou a Ezequiel), que se manifesta através da manipulação, da dominação e da intimidação, que roubam nossa sensibilidade e nosso bom senso em relação ao Evangelho.

Ao invés de desenvolver uma comunhão entre os irmãos, o legalismo faz com que os líderes ajam com extrema severidade e, em geral, sem misericórdia. No sei da igreja a pessoa legalista se irrita por questões insignificantes e amorais, fazendo com que a igreja se distraia do seu real propósito. Assim, qual é o fruto do legalismo, se não a morte? Por isso, produzir fruto é uma questão de relacionamento pessoal com Deus, e não de esforço em agradar a homens. Na verdade, o legalismo pode, mesmo, destruir o relacionamento e a unidade do corpo de Cristo.

Que intrigante e curioso é esta passagem de gálatas 3. O Apóstolo Paulo chamando uma Igreja, pessoas ditas evangélicas, chamando "Ò Gálatas insensatos!". Ora, parece uma postura arrogante e provocativa do Apóstolo. A impressão que se tem é que ele estava provocando aquelas pessoas, sendo arrogante, mas não, esta passagem nos mostra o quanto isso indignava Paulo e quanto Jeová os amava por meio dele, porque o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho. (Hebreus 12:6). Ver os gentios que eram selos do apostolado de Paulo vivendo debaixo das obras da lei. Isto indignava o coração daquele Apóstolo.

Alguém pode se perguntar: Uma Igreja que se diz cristã, evangélica pode se tornar insensata? Eu achei que todos os lugares que tem uma placa dizendo “igreja” são bons! São lugares de Deus onde se vive corretamente o evangelho: pode uma igreja se tornar insensata? Porque Paulo está dizendo isto a uma igreja: “vocês são insensatos”? Pode uma igreja se tornar ignorante espiritualmente? Viver algo que não está correto? Tanto pode que isto estava, de fato, acontecendo com os Gálatas.

A verdade a ser aplicada é que a pregação do evangelho tem por objetivo a apresentação de Cristo como o provedor, não apenas da salvação para a vida eterna para os que nele creem, como, também, de uma liberdade superior, desde já, como integrantes da ordem superior, que é o corpo de Cristo. A lição a ser apreendida reitera que pela lei ninguém é justificado diante de Deus, e alerta sobre as distorções teológicas que solapam a fé de muitos, se não estiver sabido, plenamente, que o evangelho é o único meio externo da graça salvadora.

A Escritura encerrou tudo debaixo do pecado, para que a promessa pela fé em Jesus Cristo fosse dada aos crentes. (Gálatas 3:22). Se fosse possível o homem ser salvo por meio da lei ou de seus próprios recursos, não haveria necessidade de Jesus, o Salvador, vir ao mundo. Como podeis murmurar, cristãos, duvidando, se aquilo que recebestes é algo que supera, em muito, qualquer coisa que foi recebida, por quaisquer dos outros que temem o nome do Senhor, mas que não atingem reconhecer a glória do seu Cristo?

O cristão foi colocado, em sua conversão, em um excelente lugar: no próprio corpo de Cristo, segundo Paulo já havia escrito aos coríntios (1 Co 12:13). Estando nele, estamos envolvidos na obra que Deus está realizando no mundo, e nessa posição, veremos diversas portas grandes e eficazes de abrindo diante de nós. Deus nos chamou para, por intermédio de nossas vidas, cumprir Seus propósitos soberanos, enquanto aguardamos o retorno do Salvador. Mas não devemos ignorar que teremos oposição, sempre.

A fé nos diz que nós já fomos curados, restaurados, perdoados, a fé nos diz que já somos mais que vencedores, e podemos todas as coisas naquele que nos fortalece, a fé. É justamente a fé, que nos impede, inclusive, também, de tropeçarmos murmurando contra o nosso Deus. Enfim, não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo, que abundantemente ele derramou sobre nós por Jesus Cristo nosso Salvador. (Tito 3:5-6). Acredite, se quiser!

terça-feira, 29 de abril de 2014

O Feminismo Misândrico Islandês


O (Lamentável) Feminismo Misândrico Islandês

Misandria é uma palavra que significa "ódio pelos homens", ou, melhor dizendo, ódio pelos seres humanos do sexo masculino. A palavra tem origem grega vindo de Misos (grego μίσος , "ódio") + Andras (grego ἀνδρας , "homem"). Embora a misandria às vezes seja confundida, em termos, com a misantropia, eles não são intercambiáveis, uma vez que esta outra palavra se refere ao ódio da humanidade em geral. Uma ideia relacionada com a misandria é a androfobia, que é o medo dos homens, mas não necessariamente o ódio dos homens.

A misandria é geralmente, mas não exclusivamente, associada com as mulheres, não obstante que alguns homens também possam ter opiniões misândricas. Embora a misandria seja discutida com menos freqüência do que a misoginia (palavra vem do grego misos (μῖσος, "ódio") e gyné (γυνή, "mulher")), e por isso é também é menos compreendida, há cada vez mais a investigação e a discussão sobre o tema. Embora a pesquisa seja relativamente nova, um crescente corpo de trabalho está surgindo na atual teoria cultural.

Algumas feministas e masculinistas postulam que a "guerra dos sexos" decorrente dos tradicionais papéis de gênero, e sua repartição, são a principal fonte tanto de misoginia e quanto de misandria. Isso aparentemente implica que a misandria poderia ser mitigada por homens e mulheres, respeitando as semelhanças e diferenças de cada um, e os homens e mulheres, juntos, são responsáveis ​​por ela.

Alguns masculinistas sustentam que misandria tem sido endêmica desde os anos 1980 (Nathanson & Young, 2001, p. 234) decorrente da propagação da advocacia anti-macho feminista na cultura popular, e, assim, afirmam que a misandria tornou-se uma patologia social. Algumas feministas, no entanto, controversas, afirmam que a misoginia é uma doença social verificável, mas a misandria pode não existir em todos (Nathanson & Young, 2001, p. 18).

As feministas misândricas (que tem ódio real pelo masculino) que afloram na Islândia e machistas misóginos (que tem ódio real pelo feminino) de alguns recônditos muçulmanos (como Afeganistão), se comparados, apresentam muitas semelhanças, apresentam uma grande facilidade de interação e, havendo oportunidade que os façam se aproximar, em pouco tempo de contato, estes dois grupos passam a desenvolver uma grande sinergia.

Comparem suas idéias e verão que as feministas misândricas apesar de verem os homens verdadeiros e maduros como inimigos, por os considerarem machistas, se dão muito bem com os misóginos e freqüentemente adotam medidas semelhante, regadas a falso moralismo e falsas verdades, que têm como único objetivo o de causar o maior afastamento possível entre o homem e a mulher verdadeiros.

Apesar de adotarem técnicas diferentes (as misândricas distorcem o feminismo e os misóginos distorcem a religião), a simbiose entre a misandria e a misoginia ocorre com muita facilidade por que, no mais profundo e obscuro centro dos seus objetivos, ambos nutrem o bizarro desejo de causar a destruição da espécie humana.

As misândricas não atacam os misóginos pois sabem que eles são inócuos, nada fazem de mal aos seus propósitos. Por sua vez, os misóginos também não atacam a misândricas, pois, não vêem nestas, perigo de forma alguma.

Ambos, de fato, odeiam não apenas a humanidade, mas também e acima de tudo odeiam a Deus, Sua soberania, Sua sabedoria e Seus requisitos. Todo ensinamento que vá além, ou que se oponha aos mandamentos do Deus-Criador, ensinando que um homem não precise ser, necessariamente, homem e uma mulher não precise ser, necessariamente, mulher, é doutrina de demônios.

Esse é o grande trauma que move os misóginos e as misândricas, ambos temem, acima de tudo, os verdadeiros desígnios do homem e da mulher determinados por Deus, e são criaturas que possuem extrema dificuldade em sintetizar qualquer forma de amor verdadeiro. Astutamente, feministas misândricas islandesas fingem querer ajudar a mulher a crescer mas, o que realmente querem, é estabelecer uma “homocracia” no mundo.

A Islândia atual esta para o feminismo, assim como o Afeganistão está para o machismo. Ambos distorcidos e por isso tendem ao fracasso histórico, inevitável, de uma forma ou de outra.

Paz e serenidade aos homens e mulheres de boa vontade. Que Deus abençoe a todos e, pode parar a leitura por aqui mesmo, e rir um pouco com a PLENA IGUALDADE que foi conquistada pelo feminismo, na charge abaixo:


Todavia, para aqueles que, tola ou ingenuamente, acreditam que, assim como a existência e o poder inferior do ser espiritual denominado Satanás, o Diabo, a misandria "também é apenas mais uma invenção machista", prossiga em apreciar uma lista de frases que algumas pseudo feministas (provavelmente lésbicas recalcadas, ou, mais pejorativamente, as feminazistas) andaram vociferando por aí, em suas missões, mostrando que a causa delas não é a de igualdade (mesmo que de uma igualdade cômica), mas sim, é a estupidez da supremacia feminina e a abominação da aprovação das relações sexuais homossexuais. Vejamos:

“Eu sinto que ‘ódio aos homens’ é um honorável e viável ato político, que os oprimidos tem o direito ao ódio contra a classe que a está oprimindo.” (Robin Morgan – ex-presidente da Organização Nacional das mulheres (NOW) e editora da MS magazine)

“Quando uma mulher atinge orgasmo com um homem ela está apenas colaborando com o sistema patriarcal, erotizando sua própria opressão...” (Sheila Jeffrys, professora feminista lésbica e ativista política)

“Todos os homens são estupradores e é tudo o que eles são. Eles nos estupram com seus olhos, suas leis e seus códigos.” (Marilyn French, novelista e feminista americana)

“Sexo é a cruz em que as mulheres são crucificadas ... sexo só pode ser adequadamente definido como estupro universal.” (Hodee Edwards, ‘Estupro define Sexo’)

“Numa sociedade patriarcal, toda relação sexual heterossexual é estupro porque as mulheres, como um grupo, não são fortes o suficiente para consentir.“ (Catherine MacKinnon in Professing Feminism: Cautionary Tales from the Strange World of Women's Studies, p. 129”)

“Compare os relatos de vítimas de estupro com o de relatos de sexo das mulheres. Eles se parecem muito ... A maior distinção entre coito (normal) e estupro (anormal) é que o normal acontece tão freqüentemente que alguém não pode fazer os outros enxergarem que há algo de errado nisso.” (Catherine MacKinnon, citada no livro de Christina Hoff Sommers, "Hard-Line Feminists Guilty of Ms.-Representation," Wall Street Journal, November 7, 1991)

“Coito heterossexual é a pura, formalizada, expressão de desprezo pelo corpo das mulheres” (Andrea Dworkin, feminista americana famosa por sua oposição a pornografia.)

“Homens que são acusados injustamente de estupro podem, ás vezes, ganhar com a experiência” (Catherine Comins, Universidade Vassar assistente de reitor da Student Life in Time, Junho 3, 1991, p. 52.)

“Heterossexualidade é um costume obstinado na qual as instituições supremacistas masculinas asseguram sua própria perpetuação e controle sobre nós. As mulheres são conservadas, mantidas e contidas através do terror, violência e o spray de sêmen... [lesbianismo é] um meio ideológico, político e filosófico de liberação de todas as mulheres da tirania heterossexual ...” (Cheryl Clarke, "Lesbianismo, um ato de resistência," in This Bridge Called My Back: Writing by Radical Women of Color, ed. Cherrie Moraga (Women of Color Press,1983), pp.128-137.)

“A novas variações deste angustiante antigo tema central em hormônios e DNA: Homens são biologicamente agressivos; seus cérebros fetais foram inundados em andrógeno; seu DNA, de modo a se perpetuar, se atira em assassinato e estupro.” (Andrea Dworkin, Letters from a War Zone, p. 114)

“HOMEM: … uma forma obsoleta de vida... um criatura vulgar que precisa ser vigiada... um bebê-homem contraditório...” “INTOXICAÇÃO POR TESTOSTERONA: ... ‘Até agora era pensado que o nível de testosterona em um homem é normal simplesmente porque eles a tem. Mas se você considerar como seu comportamento é anormal, então você é levado a hipótese que quase todos os homens estão sofrendo de “intoxicação por testosterona.” (Tirado de ‘Um Dicionário Feminista”, ed. Kramarae and Treichler, Pandora Press, 1985)

“Eu acredito que as mulheres tem uma capacidade para entendimento e compaixão que um homem estruturalmente não tem, não tem porque ele não pode ter. Ele é simplesmente incapaz de ter”. (Ex-deputada americana Barbara Jordan)

“Em tudo que o homem constrói, eles cavam um lugar central pra morte, deixam seu cheiro detestável contaminar cada dimensão do qualquer coisa que ainda viva. Homens especialmente amam assassinato. Na arte eles celebram isso, e na vida eles o cometem. Eles abraçam o assassinato como se a vida sem isso fosse vazia de paixão, sentido, e ação, como se assassinato fosse consolo[...] (Andrea Dworkin, Letters from a War Zone, p. 214)

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Mene, Mene, Tequel e Parsim - Você Sabe o Que Significa?


"Então respondeu Daniel e disse na presença do Rei: Os teus presentes fiquem contigo, e dá os teus prêmios a outrem...”. Daniel 5:1-31.

A grande maioria das pessoas adora a alguma divindade. Pode ser um deus de pedra, de barro, de bronze; pode ser um ídolo humano, um cantor, um político, um filho, alguém que morreu e pode ser algum vício, algum costume feio que toma o lugar do Deus verdadeiro em sua vida.

Acontece que Deus não divide Sua glória com ninguém, ainda que seja a melhor pessoa sobre a face da terra. Render tributos de glória ao Senhor é fundamental e indispensável.

Nabucodonosor pagou um alto preço por não tributar a Deus a glória por tudo o que o Senhor lhe havia dado, acabou virando boi e por sete longos anos, o reino foi tirado dele, e ele pastava como os animais e o orvalho do céu estava sobre sua cabeça.

O Rei Belsazar, sucessor do trono de seu pai, Rei Nabucodonosor, oferecia um grande banquete regado a bebidas alcoólicas (drogas), muitas mulheres (prostituição) e falsa adoração (idolatria), aos seus mil convidados mais achegados.

Como se não bastasse esse cenário de orgias e concupiscências mandou buscar os utensílios de ouro e prata que seu pai havia confiscado do templo (do Deus de Judá) que estava em Jerusalém, e beberam neles o rei, seus convidados e mulherio. 

Tamanha profanação não passou despercebida aos olhos “daquEle que tudo vê e tudo sabe”, e num instante apareceu uma mão que passou a escrever na caiadura da parede do palácio as seguintes palavras: “Mene, Mene, Tequel e Parsim”.

מנא מנא תקל ופרסין‎


Em pânico e transtornado com a aparição, o rei Belsazar encerrou a festança e a adoração que fazia aos deuses falsos. O homem que se sentia “o cara”, descobriu que era pó e ficou com muito medo, seus pensamentos se atropelavam sem sentido e seus joelhos batiam um no outro.

Imediatamente ele convocou todos os sábios e adivinhos, os astrólogos e caldeus para decifrarem a escritura na parede, porém, nenhum deles obteve sucesso. A propósito, a questão não era de mera tradução idiomática: Mene, Mene. Tequel. Parsim é uma frase simples formada por três palavras aramaicas. Porém, ainda que devidamente traduzida, trata-se de um trocadilho incompreensível.

O Dr. Judah J. Slotki salienta que a escrita a mão significa “um mané, um mané, um siclo e meio siclos”. (Soncino Books of the Bible [Livros da Bíblia, de Soncino], obra editada por A. Cohen, Londres, 1951); Decerto, em sua corte, o rei Belsazar deveria ter alguns sábio altamente versados no idioma aramaico, mas, no entanto, incapazes de decifrar os desígnios de Deus.

Nesse cenário entra em ação a rainha-mãe, e sugere ao rei que chame Daniel, um dos cativos de Judá, e que no passado já havia revelado e interpretado os sonhos do Rei Nabucodonosor. Na presença do rei, Daniel dispensou todas as polpas, as cortesias, as condecorações, as nomeações e os presentes e passou a falar: 

“Assim como teu pai, não humilhaste o teu coração perante o Altíssimo, pelo contrário, profanastes os utensílios do templo, e deste louvor aos deuses de prata, de ouro, de bronze, de ferro, de madeira e de pedra, que nem vêem, não ouvem, nem sabem; mas ao Deus Único, em cuja mão está a tua vida, e todos os teus caminhos, a Ele não glorificaste, de forma que a escritura que viste ,foi escrita pelo meu Deus, e o seu significado e este:

MENE: Contou Deus o teu reino, e deu cabo dele;

TEQUEL: Pesado foste na balança, e achado em falta;

PERES (1) : Dividido foi o teu reino, e dado aos Medos e aos Persas”.

Naquela mesma noite, foi morto Belsazar, Rei dos Caldeus e a cidade de Babilônia caiu, sem resistência, diante do líder persa que viria a ser chamado de Ciro, o Grande, que apoderou-se do reino e passou a dominar toda a região com um forte exército medo-persa.

No Antigo Testamento, há várias profecias sobre a queda da Babilônia. Estas profecias foram cumpridas na queda do domínio babilônico e até na destruição da cidade, mas não literalmente de uma forma imediata e desastrosa. A cidade “caiu” ao líder persa Ciro em 539 a.C., sem batalha alguma que fosse digna de registro, na data que geralmente marca o fim do segundo império babilônico, mas as batalhas de conquista da região ocorreram em outros lugares, fora da cidade.


Sabemos que os persas e medos se juntaram para vencer completamente os babilônicos. Isaías fala especificamente de Ciro (45:1-2; 48:14-15) e dos medos como instrumentos de Deus neste castigo (Isaías 13:17-20). Devido à sua fidelidade e determinação de fazer a vontade de Deus, Daniel foi chamado de “homem muito amado” e foi usado pelo Senhor para revelar aos seus servos algumas das mensagens mais importantes do Antigo Testamento. 

Esta história bíblica não somente ilustra como Deus trata aqueles que querem zombar dEle, mas também mostra que Ele chamará a juízo todos os governantes da terra (Reis, Imperadores, Presidentes, Ministros, Governadores, Senadores, Deputados e Prefeitos) e todos os que detêm o poder em meio a humanidade, pelos seus desmandos administrativos, abusos, crimes, falcatruas e descaso com a pobreza.

Pois bem, Belsazar pagou caro por não atribuir a Deus a glória devida ao Seu Nome e, quanto a nós, não adianta querermos escapar, dizendo, apenas com nossos lábios, que amamos a Deus, ou que sabemos que é tudo Dele. O que Ele quer é nosso reconhecimento de que tudo o que temos vem dEle, que nossas vidas estão em total dependência dEle e que não há salvação possível alguma, para nós cristãos, longe de seu filho Jesus.

Tributar a devida glória a Deus é a coisa mais inteligente que nós podemos fazer, assim como reconhecer Jesus como seu único Salvador é o passo decisivo, que divide a história de nossas vidas da mesma forma como é dividida a história universal: antes de Cristo (a.C.) e depois de Cristo (d.C.).

Oração: Senhor, não permita que me corrompa com as coisas do poder. Desenvolve em mim um coração puro e grato pelas coisas que tenho. Que a cada dia aprenda sempre a buscar as riquezas do alto assim como fez Daniel, e que meus desejos estejam de acordo com a Tua santa vontade em nome de Jesus. Amém. 

Notas:
  1. Peres: singular de Parsim.

O Mistério das Palavras que Faltam na Inscrição da Parede de Pedra das Nações Unidas (Nova York)


Segundo a enciclopédia virtual Wikipédia:

"A Organização das Nações Unidas (ONU) é uma organização internacional cujo objetivo declarado é facilitar a cooperação em direito internacional, segurança internacional, desenvolvimento econômico, progresso social e questões de direitos humanos. A ONU foi fundada em 1945 para substituir a Liga das Nações, para parar guerras entre as nações e para fornecer uma plataforma para o diálogo ".

Seu lema é "Nós, os Povos". Hoje é composta de 192 países-membros, com grande diversidade de crenças religiosas e ideologias culturais que devem ser respeitadas por todos. Seu objetivo de paz e desarmamento mundial está gravado na parede de pedra de frente para ele, que cita (apenas uma parte) de um bem conhecido versículo bíblico, de Isaías 2:4.

"Eles converterão as suas espadas em arados e suas lanças em foices; uma nação não levantará a espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra."



No entanto, seria este "nobre objetivo" de "paz universal" possível de ser alcançado, sem que se considere as palavras que foram omitidas?

Tais palavras omitidas podem  ser observadas na primeira parte do versículo Is. 2:4 e são os que aqui colocamos em negrito: "E Ele [o Senhor, Deus, Jeová, por meio do seu Filho Cristo Jesus] julgará entre as nações, e repreenderá a muitos povos, e estes converterão as suas espadas em arados e as suas lanças em foices; uma nação não levantará espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra." (Isaías 2:4).

Sabe o que significa completar a inscrição na parede de pedra da ONU? Significa afirmar que não será da força e do desejo dos próprios seres humanos que nascerá a verdadeira paz que é possível! Isso mesmo, os homens não cumprirão esse nobre objetivo, sozinhos, pela sua própria vontade.

Pois então, é por isso que o antigo profeta escreveu, no mesmo livro, a Bíblia: "Eu sei, ó Senhor, que não é do homem o seu caminho; nem do homem que caminha o dirigir os seus passos." Jeremias 10:23

Sabemos que é, de certa forma, natural, que as pessoas creiam na sua própria capacidade criadora, afinal, somos especiais criaturas (e filhos) de um Deus criador. Todavia, devemos manter ciência das nossas muitas limitações, a fim de não perdermos o bom juízo.

O próprio Senhor Jesus nos alertou: "Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer." (João 15:5)

A ONU fez uso de um versículo das Escrituras Sagradas judaico-cristãs, todavia, ao omitir as palavras iniciais daquele versículo, eles, de fato, negaram o poder de Deus e agiram de modo semelhante ao descrito pelo Apóstolo Paulo ao seu discípulo Timóteo, quando o alertava sobre um tipo de caráter humano que se tornaria proeminente nos últimos dias: "Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela". 2 Timóteo 3:5. Aqui, também,  não podemos omitir as palavras que completam o versículo: "Destes afasta-te." 

Será somente pelo efetivo exercício do poder de Deus, que a profecia de Isaías 2:4 poderá se cumprir e, para isso, Jeová já proveu um futuro governante, um Filho a quem ele atribuiu todo poder no céu e na Terra, para ser o Rei vindouro para toda a humanidade.

Deste modo, a paz profetizada por Isaías será desfrutada, apenas, por aqueles que se arrependem e passam a colocar a sua total confiança no Filho de Deus, eles são incorporados pelo Seu Espírito de vida em um único grupo multinacional chamado "o corpo", do qual Cristo Jesus é o seu único Chefe. É com este corpo, quando concluído, que o Senhor voltará para governar com "paz na terra, boa vontade para com os homens."

Além do mais, é preciso que, antes, Deus julgue entre as nações e repreenda os povos, para que, depois, sobrevenha tal desejada paz.

Todavia, o conselho primeiro de Deus para as nações impenitentes de hoje em dia não é o desarmamento, mas, ao invés disso, o armamento.

Porque há um tempo de julgamento em todo o mundo que vem para remover o pecador rebelde, para que assim a justiça possa reinar plenamente. Joel 3:9-10 profetiza: "Proclamai isto entre os gentios; preparai a guerra, suscitai os fortes; cheguem-se, subam todos os homens de guerra. Forjai espadas das vossas enxadas, e lanças das vossas foices; diga o fraco: Eu sou forte." (Joel 3:9-10)

O conselho do Senhor para com os reis (líderes) é no Salmo 2:10-12: "Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos instruir, juízes da terra. Servi ao Senhor com temor, e alegrai-vos com tremor. Beijai o Filho, para que se não ire, e pereçais no caminho, quando em breve se acender a sua ira; bem-aventurados todos aqueles que nele confiam."

Enquanto a nível internacional a ONU deixou de fora a "Ele", não faça o mesmo em um nível pessoal, em sua própria vida - pois não há paz sem Deus e o seu Filho. Como tem sido dito, "Conhecê-Lo é conhecer a paz - sem ele, não há paz". 

Existem 4 tipos de paz que só podem vir do Senhor Deus vivo:

Paz Política - "Do aumento do seu governo e da paz não haverá fim, ..." (Isaías 9:7) 

Paz de Salvação - "Justificados, pois, pela fé, tenhamos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo," (Romanos 5:1)

Paz Social - "Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio, na sua carne desfez a inimizade," (Efésios 2:14) 

Paz Pessoal - "e a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus." (Filipenses 4:7)

Veja também:

Amor, enquanto aguardamos o Reino de Deus na Terra

domingo, 5 de janeiro de 2014

Cátaros, Albigenses e Valdenses (uma história que precisa ser contada ou, porque deixei de ser católico) – Parte 2/2


Por mais que tentem, os inimigos das verdades bíblicas não conseguem impedir sua divulgação. “A palavra de Deus não está amarrada”, diz 2 Timóteo 2:9.

Conhecido como "Povo do Livro ", as Sagradas Escrituras é o que encarna a fé dos valdenses - eles viveram e morreram por ela. Eles foram torturados, exilados e martirizados e, ainda assim, a fé que os levou dos Vales Alpinos da Itália, para lugares tão longínquos como a Colônia Valdense do sudoeste do Uruguai, até o sopé das Montanhas Apalaches no oeste da Carolina do Norte, sempre sobreviveu. A Trilha da Fé é a sua história - cada exposição testemunhar a jornada que os levou, desde o tempo dos apóstolos, buscar a liberdade religiosa cristã e o bem estar para suas famílias.

Os valdenses acreditavam, e acreditam, que a Bíblia é aberta à interpretação por parte de todos e eles levaram a sério a missão de compartilhar a mensagem a todo o mundo. Durante séculos, eles procuraram a servir a Deus, compartilhando o seu amor e espalhando sua Palavra. Um povo pacífico, eles encontraram-se frequentemente em guerra, pois procuraram ser fiel à sua fé. Eles adoravam em segredo por medo de ser capturados e mortos, memorizando as Escrituras na preparação de que suas Bíblias podiam ser queimadas. Mais de uma vez na história, os governantes pensavam eles haviam sido erradicados, mas de tempos em tempos, surgiu um remanescente para continuar.

Os Valdenses


Durante toda a Idade Média, numerosos grupos de irmãos se separaram da cristandade oficial para procurar uma forma de cristianismo mais puro e apegado à simplicidade evangélica, dando preferência em respeitar a autoridade da Palavra de Deus, do que a dos decretos das autoridades eclesiásticas, por entenderem que a Bíblia é superior às tradições da Igreja.

Na primeira parte desta série de postagens, com o estudo sobre as irmandades dos cátaros e dos albigenses, pudemos conhecer o alto preço que muitos deles tiveram que pagar, por causa da sua fidelidade à Palavra de Deus ou, simplesmente, por querem viver separados da igreja oficial de Roma. Ao longo da história humana na era cristã, o caminho da fé tem sido regado, frequentemente, com o sangue do seu martírio.

Na Europa ocidental, tanto os albigenses, quanto os cátaros cresciam, especialmente na França e na Espanha. Já, nos vales alpinos, do norte da Itália e do sul da Suíça, por sua vez, por vários seculos prosperaram um outro grupo de irmãos de características um tanto quanto diferenciada dos primeiros, aos quais a história denominou pelo termo "Valdenses".

Na verdade, podemos afirmar que, diferente dos cátaros e albigenses, cujos remanescentes precisaram evoluir até aderirem a uma igreja surgida da reforma protestante no século XVI, quando não seguiram uma linha diferente que desembocou na formação de novas irmandades, tais como a Franco-maçonaria, os valdenses continuaram sempre existindo em linha direta, até os dias de hoje, como comunidade cristã de certo modo fiel, se comparados à sua forma original.

Aqueles que tiverem a oportunidade de visitar a cidade de Roma na atualidade, terá uma certa dificuldade de encontrar igrejas evangélicas ali: a maioria das pessoas que habitam de Roma, e que tenham alguma religião que possa ser considerada cristã são, em sua grande maioria, católicos romanos.

Igreja Evangélica Valdense da Praça Cavour - Roma
As poucas igrejas evangélicas existentes na Roma atual são, em geral, de cultos em língua inglesa, como a Batista, dos norte-americanos e a Presbiteriana, dos escoceses, ambas frequentadas, em grande parte, por pessoas que se encontram em trânsito pela velha cidade.

A única comunidade evangélica de Roma, onde se fala o italiano e onde se pode conviver com as pessoas do local é a Igreja Evangélica Valdense da Praça Cavour.

A Origem dos Valdenses


Por volta da mesma época em que Pedro de Bruys foi queimado vivo por uma multidão enfurecida por ter ousado criticar os costumes da Igreja católica (ver a postagem anterior: Cátaros, Albigenses e Valdenses (uma história que precisa ser contada ou, porque deixei de ser católico) – Parte 1/2), nascia um outro personagem que, tempos depois, exerceria uma forte influência na divulgação das verdades bíblicas pela Europa. O seu sobrenome era Valdès ou, também conhecido como Pedro Valdo.

A cidade de Lyon, fundada pelos romanos há mais de dois mil anos, é hoje a segunda maior cidade da França e importante centro econômico, cultural e gastronômico. Fica às margens do rio “Rhône” (Ródano) e tem cerca de quinhentos mil habitantes, que chegam a um milhão e meio, se considerarmos toda a área urbana ao seu redor. Pode-se dizer que foi em Lyon que teve origem o grupo que pode ser considerado hoje a denominação protestante mais antiga que existe, a chamada Igreja Evangélica Valdense.

Por volta do ano 1170, Pedro Valdo já havia se tornado um rico comerciante e banqueiro da cidade e, em 1173, teve contato com uma tradução do Novo Testamento para a dialeto francês da época passando a dedicar-se em estudá-la. Depois de uma atenta leitura foi impactado profundamente pelas palavras do Senhor Jesus em Mateus 19:21, "Se quer ser perfeito, vai, vende tudo o que tem e dê-o aos pobres e terás um tesouro no céu; e depois vêm e me segue".(1)

Assim, ele resolveu encomendar tradução manuscrita de partes da Bíblia do latim para o dialeto do sudoeste da França e começar a pregar o Evangelho pelas ruas de Lyon, mesmo sem ser sacerdote, para em seguida, abrir mão de todos os seus bens, vendendo-os e doando aos pobres, com exceção daquilo que fosse necessário para o sustento de sua família, deixando parte dos bens para sua esposa e prosseguindo no trabalho de pregação. Diferentemente de Pedro de Bruys e de Henrique de Lausanne, Pedro Valdo era completamente leigo.

Alguns habitantes de Lyon ficavam tão emocionados de ouvir a mensagem da Bíblia discursada na sua própria língua materna, que também decidiram renunciar a seus pertences e devotaram a vida à divulgação das verdades bíblicas e, com isso, foi sendo formado um grupo de seguidores. O grupo liderado por Valdo ficou conhecido como “os pobres de Lyon” (ou “homens pobres de Lyon”, ou ainda “os pobres de espírito”) e, posteriormente, viriam a ser denominados como “Os Valdenses”.

Nesse aspecto, o que Valdo fez não foi muito diferente daquilo que Francisco de Assis faria, no século seguinte, na Itália, renunciando aos bens materiais e se dedicando aos pobres. Todavia, desde o início, os valdenses afirmavam sobre o direito de cada comunidade de fieis de ter a Bíblia acessível em sua própria língua, sendo esta a ser considerada a fonte de toda autoridade eclesiástica.

O que chama atenção neles é a atitude que tinham diante da Bíblia. Estavam menos interessados em interpretar a Bíblia e mais em obedecê-la e pôr em prática o que eles entendiam como mandamento divino para eles. Tanto Valdo quanto os seus seguidores eram leigos, e, naquela época, era um monopólio da Igreja oficial a pregação e a interpretação das Escrituras. Mas eles insistiam em continuar pregando o Evangelho, apesar da proibição da Igreja e, em 1179 pediram ao Papa Alexandre III uma licença especial para continuar com os seus trabalhos, mas esta foi negada.

A Igreja achou esses eventos muito perturbadores e, em 1184, esse zeloso grupo composto de homens e mulheres da cidade de Lyon, que mais tarde passariam a ser chamados de valdenses, foram excomungados pelo papa e expulsos de suas casas pelo então bispo de Lyon. Como eles já eram desapegados de casas, essa medida, na realidade, serviu apenas para dar a oportunidade de divulgação da mensagem da Bíblia em outras regiões.

Por fim, não só os seguidores de Valdo, mas também de Pedro de Bruys e de Henrique de Lausanne, bem como outros dissidentes, podiam ser encontrados em muitas partes da Europa, antes mesmo do final do século XII. Ao serem expulsos de Lyon, Pedro Valdo e alguns de seus seguidores encontraram refúgio nos Alpes, na região italiana do Piemonte. Outros seguiram para a Alemanha, a Europa Central e Oriental. A perseguição fez os valdenses estabelecer-se, principalmente, em zonas rurais.

De fato, os numerosos irmãos perseguidos, conhecidos pelos diferentes nomes que lhes eram dados por seus perseguidores, chegaram, com o tempo, a constituir um testemunho unido e de vasto alcance, fora da cristandade organizada. Outros importantes defensores das verdades bíblicas surgiram nos séculos posteriores, tais como John Wycliffe (1330-1384), William Tyndale (1494-1536).

Mas os Valdenses não pretendiam, a princípio, se separar da igreja Católica, apenas buscavam profundamente saber como agradar a Deus, tanto que por mais de trezentos anos continuaram fazendo parte dela, apenas tendo seus próprios costumes de simplicidade evangélica e, sendo deixados a margem, faziam contraste com uma igreja corrompida, cujo maior costume era a opulência e a associação com a nobreza.

Segundo o historiador Euan Cameron, parece que os pregadores valdenses não se “opunham à Igreja Católica em si”. Eles apenas “queriam pregar e ensinar”. Historiadores dizem que o movimento foi praticamente impelido para a heresia por uma série de decretos, que progressiva e permanentemente o marginalizaram. As condenações feitas pela Igreja culminaram no anátema emitido pelo Quarto Concílio de Latrão contra os valdenses em 1215.

Só muito tempo depois, com a Reforma Protestante, no início do século XVI, é que eles se identificaram com os ensinamentos de Lutero e de Calvino e aderiram à Reforma. Quando se juntaram ao nascente protestantismo no Sínodo de Chanforan em 1532, desde então, os valdenses subscrevem ao Calvinismo.

No século XVII, no contexto das guerras de religião, os Valdenses foram exilados dos Alpes, onde estavam estabelecidos há séculos, e quase chegaram a ser eliminados completamente. Mas sobreviveram às perseguições, voltaram aos Alpes e mantiveram até hoje a fé evangélica. São hoje uma das principais igrejas protestantes na Itália e estão presentes, em menor número, em países como a Argentina, o Uruguai e os Estados Unidos.

Os Valdenses Dos Vales Alpinos


Típico Vilarejo das Encostas dos Alpes do Piemonte (atual)
Pedro de Valdo entrou em íntima relação com população dos vales alpinos que passaria a ser denominada como Valdenses, e, possivelmente por essa razão, muitos historiadores o consideraram o seu fundador. Todavia, existem razões para crer que, na verdade, Pedro Valdo encontrou ali um povo evangélico formado já em bom número, apesar da coincidência do seu sobrenome 'Valdo' e o nome 'Valdenses'.

Muitos creem que o suposto em contrário vem, senão, do costume das autoridades políticas e eclesiásticas de querer ver, sempre, um fundador ou líder na origem de todo movimento, seja este movimento espiritual ou, meramente social. De fato, o nome 'Valdenses' parece derivar melhor do francês 'Vallois' (pessoas dos vales), que aparece em muitos manuscritos dos valdenses do Piemonte, anteriores a Pedro de Valdo. De fato, os valdenses são uma congregação de cristãos dos Vales do Piemonte, cujas origens ainda são muito debatidas.

Próximo das montanhas, cerca de 45 quilômetro a sudoeste da cidade piemontesa de Turim (em Italiano, Torino),  abrindo-se diante do que parece ser um grande portal da montanha, encontra-se a entrada para o principal território dos vales Valdenses (ver imagem de satélite - Google Earth - mais adiante). Saindo de Turim, para chegar ali, o caminho passa pela pequena Pinerolo (que ainda não está em território valdense). A partir de Pinerolo, três vales levam a áreas valdenses: O Vale Chisone, para o noroeste (que leva sobre os Alpes para a França), o Vale Germanesca, e o Vale Pellice, a oeste de Torre Pellice e além.

Vista Panorâmica sobre parte de Torre Pellice, atual
Os vales dos valdenses tem montanhas íngremes separando-os e nem sempre é possível atravessar de carro a partir de um vale para o outro. Torre Pellice, na junção do Rio Pellice e do Vale do Angrogna, é um bom lugar para começar uma visita a esses vales. Elevando-se sobre a cidade encontramos Castelluzzo, o afloramento rochoso na montanha, e uma fortaleza para os valdenses nos momentos de luta.. As barras de la Tagliola é uma caverna no alto da montanha, ao pé do rochedo, utilizada em tempos passados ​​como um refúgio da perseguição. Ao lado do Museu Valdense existe uma escola Valdense.

Apesar de que, a Igreja Cristã na Gália (França), só aparecer pela primeira vez na história, em conexão com a perseguição contra os cristãos ocorrida em Lugdunum (atual Lyon, França), o então centro religioso da Gália romana, sob Marco Aurélio, no ano de 177 d.C., acredita-se que discípulos dos apóstolos semearam as boas novas de Cristo nos Vales Valdenses, provavelmente desde 58-59 d.C., quando eles viajavam através dos Alpes Cotianos, em direção a Gália e outras partes da Europa. O único registro daquela perseguição de 177 d.C., ocorrida não apenas na cidade de Lyon, mas também em Venne, é uma carta preservada em História Eclesiástica de Eusébio, livro 5, capítulo 1.

Quanto ao adjetivo 'Cotianos', associado ao substantivo Alpes, ele vem de Marcus Julius Cottius, um rei das tribos ligurianas, que eram os habitantes naturais daquela região montanhosa no primeiro século antes de Cristo. Essas tribos, de origem étnica Celto-Ligúria, foram os fundadores a cidade de Torino (ou Turim, que hoje é a quarta maior cidade da Itália).

De fato, a então pequena cidade de Turim já existia desde, pelo menos, 218 a.C, quando há registros de que ela foi atacada, e parcialmente destruída por Hannibal, o púnico comandante militar cartaginês, durante a sua campanha dos Alpes. Posteriormente, as tribos Celto-Ligúria que habitavam a região haviam estado, a princípio, em oposição mas, depois, fizeram as pazes com Júlio César.

Uma colônia romana foi estabelecida ali, em Turim, entre 28 a.C. e 27 a.C, com a criação de um acampamento militar de nome Castra Taurinorum, e a cidade, em si, foi nomeada Augusta Taurinorum, em homenagem ao inicio do reinado de Augusto (27 a.C a 14 a.C.), que marcou o começo da prática de adoração ao imperador como deidade.

Em especial nas províncias romanas de língua grega no Leste, muitos sentiam genuína gratidão por Augusto, que havia estabelecido prosperidade e paz após um longo período de guerras. As pessoas queriam proteção efetiva por meio de uma autoridade visível. Desejavam uma instituição que eliminasse as divergências religiosas, promovesse o patriotismo e unisse o mundo sob o comando de seu “salvador”. Assim, o imperador passou a ser tratado com honras conferidas a deuses.

Embora Augusto não permitisse que o chamassem de deus enquanto vivo, ele insistiu na adoração da personificação de Roma como deusa — Dea Roma. Augusto foi deificado postumamente. Depois disso, o sentimento religioso e o patriotismo nas províncias passaram a ser canalizados tanto para o centro do império como para seus governantes. O novo culto do imperador, que logo se espalhou a todas as províncias, tornou-se um meio de expressar homenagem e lealdade ao Estado.

O filho de Cottius, também chamado Marcus Julius Cottius, que havia sucedido a seu pai na chefia das tribos, recebeu o título de rei, concedido pelo imperador Claudius. Antes de sua morte, o imperador Nero anexaria esse reino ao Império Romano, como província de Alpes Cottiae, tendo Turim como sede provinciana.

Uma tese, que me parece bastante provável, é aquela que alega que o cristianismo dos valdenses do Piemonte teria, ao menos em parte, origem em escravos e cidadão romanos cristãos, que foragidos da metrópole, em pequenos grupos, escapavam das sucessivas perseguições ocorridas no Império, desde os dias logo após os apóstolos Pedro e Paulo entre eles semear as Boas Novas (época da primeira perseguição sob Nero, entre os anos de 64 a 68 d.C), até o tempo daqueles que rejeitaram o vínculo Igreja-Estado romano sob Constantino, tais como alguns dos novacianos (2).


O Porta Palatina foi a "Porta Principalis Dextera" (à Porta principal à Direita),
que permitia o acesso do norte ao Augusta Taurinorum,
ou a civitas romana agora conhecido como Turim.
Estes foragidos buscaram um refúgio de relativa segurança naquela região montanhosa inóspita e pouco acessível dos vales alpinos, se estabelecendo no campo, em locais afastados das rotas de passagem pelo Piemonte (que mais tarde ficariam conhecidos como Via Francigena), formando pequenos vilarejos, onde transmitiam o Evangelho de pai para filho e, com o tempo, foram convertendo e se misturando com os remanescentes das tribos Celto-Ligúria originais do região. Assim, desde de muito cedo haviam cristãos no Piemonte, tanto em Turim mas, principalmente fora dela, no campo.


O primeiro caso documentado de perseguição aos cristãos pelo Império Romano direciona-se a Nero. Em 64, houve o grande incêndio de Roma, destruindo grande parte da cidade e devastando economicamente a população romana. Nero era o suspeito de ter intencionalmente ateado fogo e, em seus Anais, Tácito afirma que:


"Para se ver livre do boato, Nero prendeu os culpados e infligiu as mais requintadas torturas em uma classe odiada por suas abominações, chamada cristãos pelo populacho"

Ao associar os cristãos ao terrível incêndio, Nero uma suspeita pública em cima de um preconceito pré-existente e, pode-se dizer, exacerbou as hostilidades contra os cristãos por todo o Império Romano. As formas de execução utilizadas pelos romanos incluíam crucificação e lançamento de cristãos para serem devorados por leões e outras feras selvagens.

Os Annales de Tácito informam:


"... uma grande multidão foi condenada não apenas pelo crime de incêndio mas por ódio contra a raça humana. E, em suas mortes, eles foram feitos objetos de esporte, pois foram amarrados nos esconderijos de bestas selvagens e feitos em pedaços por cães, ou cravados em cruzes, ou incendiados, e, ao fim do dia, eram queimados para servirem de luz noturna.

A morte de Nero, sem deixar herdeiros, em vez de trazer estabilidade ao império romano, desencadeou um ciclo de guerras civis conhecido como o ano dos quatro imperadores. No ano de 69 d.C., depois de assassinar Galba, Otão subiu ao trono de Roma, em Janeiro. Ele, imediatamente, teve que lidar com a revolta de Vitélio. Na guerra entre Otão e Vitélio, a cidade de Turim foi envolvida e quase totalmente incendiada e nenhum dos antigos monumentos romanos sobreviveu, exceto a Porta Palatina, vulgarmente conhecida como as Torres.

Isso ocorreu porque, simplesmente, por descuido, Vitélio fez com que fossem acantonados ali, juntos, soldados da XIV legião da Bretanha e soldados germânicos, que poucas semanas antes haviam estado em lados opostos da luta. Eles se desentenderam e houve confronto e, por fim, foi dada a ordem para que a XIV fosse retirada. Como vingança, na partida, eles queimaram a cidade.

Por fim, ainda no mesmo ano, Vespasiano é quem ascenderia em definitivo ao poder, proclamado imperador pelos seus próprios soldados, em Alexandria. Mesmo destruída pelo incêndio em 69 d.C, a cidade de Turim se reergueria e, ainda, futuramente, passaria por outras destruições no século IV e V.

Domiciano, imperador de 81 d.C a 96 d.C., foi o primeiro governante romano a exigir ser adorado como deus. À essa altura, os romanos já haviam distinguido os cristãos dos judeus e se opunham ao que era encarado como "novo culto judeu". É provável que tenha sido no reinado de Domiciano que o apóstolo João foi enviado ao exílio na ilha de Patmos por “ter dado testemunho de Jesus”. (Rev. 1:9).

O livro de Apocalipse foi escrito durante o exílio de João. O livro menciona Ântipas, um cristão morto em Pérgamo, um importante centro de adoração do imperador. (Ap 2:12-13) É possível que nessa época o governo imperial tenha começado a exigir que os cristãos realizassem os rituais da religião estatal. Seja como for, por volta de 112 d.C., como indica a carta a Trajano, mencionada no início, Plínio exigia que os cristãos na Bitínia realizassem tais rituais.

O pensamento romano não podia conceber a ideia de uma religião que exigisse devoção exclusiva de seus fiéis. Os deuses romanos não exigiam isso, então, por que o exigiria o Deus dos cristãos? A adoração das divindades estatais era vista como simples reconhecimento do sistema político. Portanto, a recusa de adorá-las era considerada traição. Por isso, mais e mais cidadão e escravos romanos, uma vez convertidos ao cristianismo, não conseguiam mais continuar vivendo na capital e, por metida de segurança, partiam em pequenos grupos imigrando rumo ao norte.


Assim, todas essas destruições da cidade de Torino serviram, apenas, para reforçar a associação dos irmãos cristãos, que haviam sido em sua maioria, originalmente, foragidos de Roma, principalmente escravos estrangeiros, que preferiam viver nos campos, fora da cidade. Eles se sentiam seguros o bastante para expressar seu amor caridoso ao povo da cidade (muitos remanscentes das tribos ligurianas), sempre que esta sofria alguma contingência ou tribulação. Este era o embrião daquilo que se tornariam, mais tarde, no movimento espiritual denominado Valdense.

Em 177 d.C., quando ocorreu a perseguição e o martírio de  Lugdunum (Lyon), o cristianismo ainda era uma religião ilícita, porém, mais ou menos tolerada na prática. Concentrado, a princípio, principalmente nas cidades da parte oriental do Império Romano, o cristianismo era perseguido pelo Estado romano esporádica e assistematicamente, em repressões localizadas nas cidade por um curto período de tempo. Mesmo sob o imperador Trajano que, para muitos teólogos cristãos da idade média, pôde ser considerado como um "pagão virtuoso", figurando entre os "cinco bons imperadores" de Roma, uma perseguição notável foi localizada na Bitínia (atual Turquia).

Nesta ocasião, Trajano estabeleceu que apesar dos cristãos não deverem ser caçados, se denunciados, todos os cristão deveriam fazer declaração de abnegação da fé, que não podia ser anônima. De fato, os cristãos viviam num clima de permanente insegurança e, muitas vezes, enfrentavam a pena de morte se não negassem sua fé. Embora Trajano não perpetuasse a perseguição na mesma escala de Domiciano e outros imperadores, ele executou vários líderes cristãos importantes, incluindo Inácio, Bispo de Antioquia, e Simeão, bispo de Jerusalém. "Trigo de Cristo, moído nos dentes das feras"

Por volta de 156-157 d.C., um movimento cristão radical apareceu na Frígia (também atual Turquia), denominado montanismo, que caracterizou-se como uma volta ao profetismo, pretendendo revalorizar elementos esquecidos da mensagem cristã primitiva, sobretudo a esperança escatológica, anunciava o eminente fim do mundo, defendia o ascetismo de serviço, o martírio, e o desafio à hierarquia estatal e militar. Os intelectuais cristãos rejeitam montanismo como herege, mas para o mundo romano de então, isso não fazia a menor diferença.

Foi por essa mesma época que Photinus chegou a Lyon, vindo da Asia Menor, sob influência montanista mas, também, sob forte influência do exemplo e do zelo de Policarpo de Esmirna, ancião de uma importante congregação que teve importante papel na consolidação da Igreja Cristã, que havia sido discípulo do apóstolo João (o evangelista) e considerado um dos três principais Padres Apostólicos da Igreja. Photinus chegou a Lyon para ser o primeiro bispo daquela cidade (e o primeiro bispo da Gália), num clima onde havia uma crescente rivalidade religiosa entre cristão e pagãos, principalmente com os seguidores do culto de Cibele, cuja religião, em concorrência com o cristianismo, prometera salvação depois da morte de seus seguidores. A combinação de fatores como pressões políticas e militares devido as ameaças bárbaras nas fronteiras e a posição dos cristãos, se recusando em participar de cerimônias religiosas solicitadas por Marco Aurélio para apoiar o Império, além da rivalidade local com os seguidores do culto de Cibele, desencadeou a perseguição em 177 d.C.

As províncias do Império Romano em sua máxima extensão (governo de Trajano)
Acusados de alguns dos absurdos de praxe (canibalismo, incesto, "e fazer o que não é permitido dizer ou sequer imaginar"), os cristãos foram proibidos de frequentar o mercado, o fórum, os banhos, ou de aparecer em quaisquer locais públicos, onde estavam sujeitos a ser escarnecido, espancado e roubado pelas turbas. As casas dos cristãos foram vandalizadas. Quanto tempo tudo isso durou não é indicado, mas, eventualmente, as autoridades apreenderam os cristãos e questionou-os no fórum na frente da população. Eles foram, então, presos até a chegada do governador. De acordo com Eusébio, enquanto ainda era um presbítero ou ancião, Irineu (ou Ireneu, que mais tarde vivia a ser o segundo bispo de Lyon e, também, um dos primeiros grandes teólogos cristãos) foi enviado com uma carta, a partir dos membros da Igreja de Lyon à espera do martírio, para Eleutério, bispo de Roma (por isso Irineu escapou de ser preso e martirizado).

Quando o governador chegou a Lugdunum, ele interrogou os cristãos presos na frente do povo de novo, maltratando-os a tal ponto que Vettius Epagathus, um cristão e homem de alta posição social, pediu permissão para testemunhar em favor dos acusados. Este pedido foi recusado e, em vez disso, o governador prendeu, também, Vettius Epagathu,s quando ele confessou ser um cristão. Em maior ou menor grau, todos os presos foram torturados. Eusébio cita nomes importantes entre as vítimas e lista 47 indivíduos como o destino eles tiveram: 22 entre homens e mulheres, foram decapitados; 6, incluindo uma mulher, Sta Blandina, condenados à morte na arena; outros 18 morreriam durante o processo, por maus tratos nas prisões, incluindo o bispo Photinus de cerca de 90 anos.

Das vítimas em Lyons, pouco mais da metade era da etnia galo-romana e o restante de origem grega. O idoso Bispo Pothinus foi espancado e açoitado, e morreu pouco depois na prisão. Blandina, que era uma escrava cristã que foi presa juntamente com sua senhora. Blandina era originária da Ásia Menor, mais especificamente a região central da atual Turquia. Apesar dos temores que os outros cristãos alimentavam com relação à sua fidelidade na fé, ela mostrou uma firmeza bastante extraordinária ao enfrentar o martírio, em que não lhe foi poupada a crueldade. Ela repetia: "Eu sou um cristã e entre nós não há mal nenhum". Ela foi inicialmente exposta, pendurada em uma estaca, para servir de alimento dos animais soltos em volta dela, porém, como nenhum dos animais a tocava, ela foi levada para a arena, juntamente com outros fiéis, sobreviventes de várias torturas, onde ela foi forçada a testemunhar a terrível morte de seus companheiros, enquanto ela superava mais uma vez o tormento da grelha ardente. Levada de volta para a prisão, depois foi lançada presa a uma rede e jogada diante de um touro que a golpeou com os chifres, jogou-a para o ar várias vezes e, finalmente, foi morta pela espada.

A Carta das Igrejas de Lyon e de Vienne às Igrejas da Ásia e da Frígia, incluindo a história da Bem-aventurada Blandina, continha o seguinte prólogo: Os servos de Cristo residente em Vienne e Lyons na Gália com os irmãos em toda a Ásia e Frígia, que têm a mesma fé e esperança de redenção como a nós mesmos, a paz, a graça e a glória de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Senhor . . .

No ano de 312 d.C., os arredores da cidade de Turim foi palco de uma importante batalha, quando Constantino desceu, em 312 d.C., até a Itália para eliminar Magêncio. Na batalha de Turim, após Constantino ter enfrentado uma primeira resistência em Segusia (Susa, Itália), as tropas de Magêncio foram, mais uma vez, derrotadas e o povo de Turim se recusou a dar refúgio às forças em retirada, fechando as portas da cidade contra eles, facilitando que eles fossem eliminados pelos soldados de Constantino. Após a batalha, Constantino entrou na cidade com as aclamações de sua população. Outras cidades da planície norte italiana, como Milão (em Italiano, Milano), reconhecendo o gênio militar de Constantino e seu tratamento favorável da população civil, enviaram a Turim embaixadas de congratulações por sua vitória.

Apesar de fundada no século 4, a Igreja Católica Romana de Turim somente seria elevada a dignidade de Arquidiocese Metropolitana (como um território eclesiástico ou diocese da Igreja Católica Romana na Itália) em 1515. O primeiro bispo de Turim cujo nome há registro foi Maximus (São Máximo). Muitas das homilias de Maximus são existentes e nenhum outro bispo é conhecido antes dele. Ele morreu em 408 d.C (ou, pouco mais tarde).


Planície norte italiana e o Rio Po


Quando o Império Romano do ocidente caiu, Turim, que sempre foi valorizada pela sua terra fértil e acesso ao Rio Po, foi conquistada, sucessivamente, por diversas tribos bárbaras, incluindo os godos, os lombardos e os francos. Em 494 d.C. o bispo Victor de Turim foi com Santo Epifânio para a França para o resgate de prisioneiros de guerra. No início do século VII a Diocese de Moriana (Maurienne) foi separada da de Turim. Com a chegada da dominação da dinastia franca carolíngia, no final do 8º século, a cidade tornou-se a sede de um grande condado, que se estendeu até as encostas do Gran Paradiso e da Moncenisio, sendo limitada perto de Ivrea.

Cláudio de Turim foi bispo de Turim de 817 a 839 d.C, data da sua morte. Ele esteve na corte de Luis da Aquitânia sendo comissionado por esse a escrever comentários sobre quase todos os livros da Bíblia para educação dos clérigos. A maioria desses comentários eram baseados na obra de Agostinho, por quem Cláudio tinha grande admiração. Cláudio tornou-se conhecido por suas pregações iconoclastas, ele foi um escritor abundante e polêmico, famoso por sua oposição à veneração de imagens e em combate aos desvios da igreja medieval e pelos ensinos que prefiguravam aqueles da Reforma Protestante. 

Ele foi acusado de heresia em escritos de São Dungal e Jonas de Orleans. No ano de 839 d.C, Cláudio, bispo de Turim, foi queimado na fogueira, alegadamente por seus protestos apaixonados contra a Igreja. Quase mil anos depois disso, em 1805, quando Napoleão Bonaparte perguntou ao interlocutor moderador da Igreja Valdense: "Quanto tempo faz que vocês se tornaram uma igreja independente?"- a resposta dada foi: "Desde a época de Cláudio, bispo de Turim ".


Imagem de satélite com a cidade de Turim, a nordeste, na imagem, e os vales valdenses,
indicando algumas das principais igrejas valdenses (balões vermelhos) nos vales.
Em 888 d.C, contra a vontade da população, boa parte do Piemonte se tornou em marquesado, ficando assim, até a metade do século X, quando Turim passou a ter alguma autonomia, com a cidade sendo governada por seus próprios regulamentos comuns, muitos dos quais escritos, décadas antes, pelo bispo Regimirus. Todavia, contra essa independência havia uma ameaça dupla: por um lado o ascendente Império Germânico e por outro lado as metas estabelecidas pela Família Savoia, que se via como herdeira dos direitos do antigo marquesado, reivindicando a propriedade dos territórios.

As pessoas do Piemonte, principalmente da cidade de Turim, tentaram lutar contra essas duas ameaças, mas eles não puderam evitar o fato de que, em 1130 Amadeo III de Savoia, também chamado de "O Cruzado", com força militar, tomasse posse da cidade. Amadeus tinha uma tendência a exagerar seus títulos, e também alegava ser duque de Lombardia, duque de Borgonha, Duque de Chablais, e vigário do Sacro Império Romano, o último dos quais tinha sido dado a seu pai por Henrique IV, o imperador do Sacro Império Romano.

Em 1136, com o apoio de Lotario II de Supplimbergo, a cidade de Turim conseguiu excluir-se do condado dos Savoia e ser reconhecida e confirmada com o seu próprio sistema de direito comum. Já em 1155 Federico I, coroado imperador do Sacro Império Romano-Germânico pelo papa Adriano IV, mais conhecido como "Barbarossa" (Barba Ruiva) (1123-1190 d.C), depois de conquistar Milão,  onde chocou-se com a feroz resistência das cidades lombardas, apoiadas pelo papado, chegou a Turim, com a vontade de reforçar o Império com todo o seu poder e santidade, e em 1159, ele reconheceu a autoridade de Carlo, o bispo da cidade, que se viu proprietário de Turim e das áreas vizinhas.

O imperador entrou rapidamente em conflito com a Santa Sé, contra o Papa Alexandre III, eleito pelos cardeais e reconhecido na Itália, França e Inglaterra, suscitando o antipapa Vitor IV, que fez reconhecer no sínodo de Pávia. Os conflitos foram enormes e sangrentos em virtude da atitude anti Roma adotada pelo imperador Barbarossa. Assim, não foi nem tanto por diferenças na fé cristã exercida pelos dois povos, que surgiram as primitivas rivalidades entre as cidades de Turim e de Milão que perduram até hoje, mas, sim, porquanto o Papado, na Idade Média desempenhava um importante papel temporal, além de seu papel espiritual. O conflito entre o papa e o imperador do Sacro Império Romano era, fundamentalmente uma, disputa sobre qual deles era o líder da cristandade em assuntos seculares.

Não obstante ao fato de que Frederico foi finalmente vencido em Legnano, em 1176, pelas tropas da Liga Lombarda e teve de assinar a Paz de Veneza, em 1177, humilhando-se e prostrando-se aos pés do Papa, que apenas por este preço lhe concedeu o beijo da paz, com o tempo, o povo acabou assimilando, sobre e para si, tal rivalidade, como tradição. Um exemplo disso, é a Igreja Valdense, em Milão, que foi construída em 1949 incorporando parte da área e materiais da antiga basílica gótica demolida de San Giovanni in Conca. A Basílica de San Giovanni in Conca datava do século IV, e era localizada em um bairro residencial da cidade antiga. Vestígios do pavimento mosaico deste edifício originais estão agora no Museu Arqueológico de Milão, tendo restado no local, apenas, uma cripta, da antiga igreja basílica, que agora estrá localizada no centro da Piazza Missori.

A igreja havia sido reconstruída no século 11, mas foi destruída por tropas de Frederico Barbarossa em 1162. Ela foi novamente reconstruída no século 13 e, mais tarde tornou-se a capela privada dos governantes Visconti de Milan. Bernabò Visconti tinha ligado-a ao seu novo grandioso palácio através de um passeio elevado, e foi sepultado ali em um monumento por Bonino da Campione que agora está no Castelo Sforzesco, juntamente com a de sua consorte, Regina della Scala.
Fachada reconstruída de San Giovanni in Conca
na Igreja Valdense moderna em Milão. 

Em 1531, o Duque Francesco Sforza II doou-a aos Carmelitas, que erigiram um campanário que foi utilizado como observatório astronômico no século 19. A igreja foi desconsagrada pelos austríacos e fechada pelos franceses no final do século 18. Em 1879, a igreja foi encurtada para permitir a construção da atual Via Mazzini, na ocasião, a fachada gótica foi anexada ao abside. San Giovanni in Conca foi então vendida para os valdenses, que, quando a igreja foi demolida, em 1949, reconstruíram a fachada sobre a sua nova igreja na Via Francesco Sforza. As obras de demolição, porém, pararam pouco antes de seu fim, deixando apenas a cripta e restos da abside.

Restos atuais de parte da cripta de San Giovanni in Conca
visível da superfície.
Isso foi visto como uma forma dos Turineses, por meio dos valdenses, afirmarem sua superioridade sobre os Milaneses, vencendo-os em seu próprio território, da mesma forma como os Milaneses, e outros turistas católicos mantém a tradição de, ao visitarem a Galleria Vittorio Emanuele II, Milão, acreditarem na superstição de que dá sorte, trás prosperidade e fertilidade, pisar com o pé direito e “girar” os pés com os olhos fechados em cima dos testículos do touro representado em mosaico no piso do Ottagono da galeria que, na verdade, representam o brasão de armas e a bandeira da cidade de Turim.


O sacerdote dominicano e inquisidor Rainer Sacho, que morreu em 1259 escreveu: “Não há seita tão perigosa como os leonitas (hereges, chamados Valdenses mais tarde), por estas três razões: Primeira, porque é a seita mais antiga; alguns dizem que é tão antiga que data aos dias de Silvestre, ..." Repare que "leonitas" queria significar os originários da cidade de Lyon, ou seja, Pedro Valdo e seus primeiros seguidores. Todavia, é óbvio que estes não tinham, em si, uma história que remontasse ao tempo de Silvestre (o papa do tempo do imperador Constantino, canonizado santo pela igreja católica) mas, o povo que habitava as comunidades os vales Alpinos do norte da Itália, sudeste da França e sul da Suíça, este sim, pode ter tal história.

A destruição em dias de perseguição, de muitos documentos valdenses que poderiam ter contido material de ajuda às investigações de suas origens, complica ou mesmo impede de se fazer mais do que simplesmente indicar linhas de pesquisas. Todavia, muitos creem, que valdenses e judeus também tiveram algumas afiliações pessoais e literárias. Em 1532, durante o Sínodo de Chanforan, os pastores valdenses mostraram aos seus aliados, os reformadores franco-suíços presentes ao sínodo, as suas antigas Bíblias, todas escritas à mão, e em seu próprio dialeto. Os tradutores da Bíblia em latim e hebraico para as línguas vernáculas da Europa dá época, voltavam-se, quase sempre, para comentários e para a assistência de mestres nascidos em famílias judias.

Não obstante, o fato é que Pedro Valdo chegou ali, naquelas comunidades dos vales alpinos, por volta de 1185, em busca de abrigo e carregando o seu sonho de ver a Bíblia traduzida para línguas vernáculas e foi bem recebido, passando, com o tempo, a ser considerado como um dos seus apóstolos pelos próprios valdenses, a quem ele ajudou a sair do relativo isolamento em que se encontravam para lhes dar um notável impulso missionário. Realizou numerosas viagens e espalhou a fé em muitos países.


Assim, os Pobres de Lyon (os valdenses do Piemonte) e os pobres lombardos puderam unir forças em Bergamo, ganhando uma maior solidariedade para o Movimento Valdense e um forte quadro organizacional evangelizador. Em última análise, a Escola dos Barbes foi estabelecida para melhor servir a essa missão apostólica. Diversas congregações de irmãos floresceram por toda a Europa ocidental, e se converteram em refúgio e em meio de orientação para outros irmãos perseguidos, tais como albigenses e cátaros.

Pedro de Valdo morreu provavelmente na Boêmia, no ano de 1217, onde trabalhou ardentemente para semear a semente do Evangelho, que floresceria mais tarde entre os Irmãos Unidos e João Huss.

Em 1229, a Igreja Católica havia completado sua sangrenta cruzada contra os cátaros, ou albigenses, no sul da França. Em breve, os valdenses tornar-se-iam os próximos objetos dos mesmos semelhantes esforços. A Inquisição, em pouco tempo, se voltaria impiedosamente contra todos os opositores da Igreja. Infelizmente, o temor fez com que os muitos valdenses passassem a agir às ocultas. Em 1230, eles já não mais pregavam, sistematicamente, em público.

Audisio explica: “Em vez de procurarem novas ovelhas . . . , dedicavam-se a cuidar dos que já eram convertidos, mantendo-os na fé em face da pressão externa e da perseguição.” Ele acrescenta que “a pregação continuou essencial, mas mudara completamente na maneira em que era realizada”.

Em 1487 o Papa Inocêncio VIII emitiu uma bula para o extermínio dos valdenses. Alberto de 'Capitanei, arquidiácono de Cremona, respondeu organizando uma cruzada para concluir o processo e lançaram uma ofensiva nas províncias de Dauphiné e Piemonte. A ofensiva devastou a área, e muitos dos valdenses fugiram, principalmente para a Provença e para o sul da Itália, até que, por fim, Charles I, duque de Savoia (ou Saboia), interveio para trazer a paz às suas terras.

A Fé e as Práticas dos Valdenses


Os Valdenses reconheciam nas Escrituras a única autoridade final e definitiva para sua fé e práticas. Criam na justificação pela fé e rejeitavam as obras meritórias como fonte de salvação. Em 1212 um grupo de 500 Valdenses de várias nacionalidades foram detidos em Estrasburgo e queimados em fogueira. Então, um dos seus pastores declarou pouco antes de morrer: "Nós somos pecadores, mas não é a nossa fé a que nos faz tais; tampouco somos culpados da blasfêmia pela qual somos acusados sem razão; mas esperamos o perdão dos nossos pecados, e isto sem a ajuda do homem, e tampouco através dos méritos ou de nossas obras".

Além das Escrituras, não sustentavam nenhum outro credo ou confissão de fé particular. Apesar disso, conseguiram conservar quase intactas a sua fé e as suas práticas ao longo de vários séculos, a qual prova que o melhor remédio contra a heresia e o engano é a espiritualidade apoiada em uma profunda fidelidade e apego às Escrituras.

Tinham, em particular, a mais alta avaliação pelas palavras e obras do Senhor Jesus Cristo nos Evangelhos. A sua meta principal era seguir a Cristo, guardando as suas palavras e imitando o seu exemplo. Não davam muita importância ao conhecimento meramente teológico e mental da verdade, pois insistiam que isto só podia ser entendido por meio da luz que o Espírito Santo concede ao coração daqueles que obedecem as palavras de Deus. Da mesma maneira, colocavam em um lugar central da sua vida os ensinos do Sermão do Monte, e as consideravam como uma regra de vida para todos os filhos de Deus.

Além disso, rejeitaram as disputas doutrinarias como infrutíferas, e aceitavam os ensinos dos homens de Deus de toda época e lugar, caso estas se conformassem às Escrituras. O seu maior interesse estava em uma espiritualidade real e prática.

O inquisidor Passau disse a respeito deles: "As pessoas podem conhecê-los por seus costumes e suas conversações. Ordenados e moderados evitam o orgulho nas vestes, que não são de tecidos baratos nem luxuosos. Não se metem em negócios, a fim de não se verem expostos a mentir, a jurar nem enganar. Como obreiros vivem do trabalho das suas mãos. Os seus próprios mestres são tecelões ou sapateiros. Não acumulam riquezas e se contentam com o necessário. São castos, sobre tudo os lioneses, e moderados em suas comidas. Não frequentam os botequins nem os bailes, porque não amam essa classe de frivolidades. Procuram não se zangar. Sempre trabalham e, no entanto, acham tempo para estudar e ensinar. São conhecidos também por suas conversações que são ao mesmo tempo sábias e discretas; fogem da maledicência e se abstêm de conversas vãs e zombadoras, assim como da mentira. Não juram e nem sequer dizem 'é verdade', ou 'certamente', porque para eles isso equivale a jurar".

Quanto à ordem da igreja, não tinham nenhuma classe de organização centralizada, nem hierarquia superior. No entanto, em vez de fazerem tanto homens como mulheres se empenhar na pregação, os valdenses, no século XIV, haviam criado uma distinção entre pregadores e crentes. A essa altura, apenas homens bem treinados se empenhavam na obra pastoral. As suas assembleias eram dirigidas por anciões ou presbíteros a quem chamavam 'Barbas' (barbes, que significa, literalmente, tios no dialeto deles). Celebravam juntos a Ceia do Senhor, sem excluir a nenhum crente dela.

Os barbes, que visitavam famílias valdenses nos seus lares, empenhavam-se em manter o movimento vivo, em vez de difundi-lo. Todos os barbes sabiam ler e escrever, e seu treinamento, que durava até seis anos, baseava-se na Bíblia. O uso da Bíblia no vernáculo ajudava-os a explicá-la aos seus rebanhos. Até mesmo os opositores admitiam que os valdenses, inclusive seus filhos, tinham uma forte cultura bíblica e podiam citar grandes partes das Escrituras.

Entre outras coisas, os primeiros valdenses rejeitavam a mentira, o purgatório, missas pelos mortos, perdões e indulgências papais, e a adoração de Maria e de “santos”. Realizavam também celebrações anuais da Refeição Noturna do Senhor, ou Última Ceia. Segundo Lambert, sua forma de adoração, “na realidade, era a religião do leigo comum”.

Mas eles também reconheciam a necessidade da existência de um ministério apostólico extra-local e itinerante. Assim, os apóstolos Valdenses viajavam continuamente entre as igrejas para ensinar, encorajar e ganhar novos convertidos. Os barbes não possuíam bens econômicos nem famílias, já que nessas andanças as suas vidas estavam em contínuo perigo e aflição.

As suas necessidades eram supridas pelos demais irmãos, os quais os tinham na maior estima e reconhecimento. Viajavam de dois em dois, sempre com um mais velho acompanhado de um mais jovem, como aprendiz. Muitos tinham conhecimentos rudimentares de medicina para ajudar os necessitados. Também havia entre eles homens altamente educados e eruditos. Frequentemente as pessoas os chamavam 'Amigos de Deus' devido a sua profunda espiritualidade e simplicidade. Pedro de Valdo, como vimos, foi um deles.

As comunidades dos valdenses eram muito unidas. As pessoas se casavam com outros membros do movimento e, no decorrer dos séculos, isto criou sobrenomes próprios valdenses. Na sua luta para sobreviver, porém, os valdenses procuravam não chamar a atenção sobre si e, consequentemente muitas vezes ocultar seus conceitos aos que eram estranhos. O segredo mantido sobre suas crenças e práticas religiosas facilitou aos opositores lançar contra eles acusações absurdas, por exemplo, dizendo que praticavam a adoração do Diabo.

Um modo de os valdenses combaterem essas acusações foi por transigirem e praticarem o que o historiador Cameron chama de “conformidade mínima” com o culto católico. Muitos valdenses se confessavam a sacerdotes católicos, assistiam à missa, usavam água benta e até participavam em peregrinações.

Lambert observa: “Em muitos sentidos, faziam o mesmo que seus vizinhos católicos.” Audisio declara francamente que, com o tempo, os valdenses “levavam vida dupla”. Ele acrescenta: “Por um lado, ao que tudo indica, comportavam-se como católicos para proteger sua relativa tranquilidade; por outro lado, observavam alguns ritos e hábitos entre eles para garantir a continuidade da comunidade.”

Igreja Valdense de 1798 - época em que os Valdenses já estavam livres para construir suas igrejas em Pra Del Tor (Pradeltorno)
considerada a zona mais sagrada de todos os Vales Valdenses - próximo ao antigo Colégio dos Barbes

Perseguições e martírios


Apesar do seu relativo e tranquilo isolamento nos vales de Piemonte, as constantes atividades missionárias dos seus apóstolos atraíram, finalmente, para si a atenção e o ódio da cristandade organizada. Os numerosos santos perseguidos em outras partes encontravam refúgio em suas assembleias, que se tinham espalhado por vários países da Europa. Este fato muito em breve atraiu sobre eles o olhar implacável dos inquisidores e os interesses de autoridades políticas.

Em 1192, alarmado pelo crescente número dos Valdenses na Espanha, o Rei Alfonso de Aragón emitiu um decreto contra eles nos seguintes termos: "Ordenamos a todo valdense que, já que estão excomungados da santa igreja, inimigos declarados deste reino, têm que abandoná-los, e igualmente a outros estados dos nossos domínios. Em virtude desta ordem, qualquer que a partir de hoje receber em sua casa os mencionados Valdenses, assistir os seus perniciosos discursos, dar-lhes mantimentos, atrairá por isso a indignação do Deus todo-poderoso e a nossa; os seus bens serão confiscados sem apelação, e será castigado como culpado do crime de lesa-majestade ... Além disso, qualquer nobre ou plebeu que encontre dentro dos nossos estados a um destes miseráveis, saiba que se os ultrajar, maltratá-los e os perseguir, não fará com isto nada que não nos seja agradável". Muitos irmãos sofreram o martírio durante a perseguição que desencadeou a partir desse decreto real.

Já em 1199, o bispo de Metz, no nordeste da França, queixou-se ao Papa Inocêncio III de que pessoas estavam lendo e considerando a Bíblia no vernáculo. Muito provavelmente, o bispo estava fazendo uma referência, mesmo que indireta, aos valdenses.

Mais adiante, em 1380, um emissário da igreja oficial foi enviado para ocupar-se com eles nos vales de Piemonte. Durante os próximos 30 anos, 230 irmãos foram queimados na fogueira e seus bens repartidos entre os seus perseguidores. A perseguição se agravou em 1400 e, então, muitas mulheres e crianças procuraram refúgio nas altas montanhas dos Alpes. Ali a maior parte deles morreu de fome e frio.

Em 1486 se emitiu uma carta pontifícia em oposição a eles e os vales foram invadidos por um exército de 8000 soldados de Arquidiácono de Cremona, cujo objetivo era extirpar os hereges. Mas desta vez os pacíficos camponeses Valdenses tomaram as armas para defender-se, por isso o sangrento e desigual conflito se estendeu por quase 100 anos. A resistência dos irmãos foi então tão heroica, naquele período, que receberam o nome de Israel dos Alpes.

Passando da Heresia Para o Protestantismo


No século XVI, a Reforma mudou radicalmente o cenário religioso europeu. Vítimas de intolerância podiam procurar reconhecimento legal no seu próprio país ou emigrar em busca de condições mais favoráveis. A ideia de heresia também se tornou menos importante, visto que muitos haviam começado a questionar a ortodoxia religiosa estabelecida.

Obelisco Valdense comemorativo do Sínodo de 1532
(Sínodo de Chanforan ou Sínodo de Angrogna)
Já em 1523, o bem conhecido reformador Martinho Lutero mencionou os valdenses. Em 1526, um dos barbes valdenses levou aos Alpes as notícias sobre os acontecimentos religiosos na Europa. A isto se seguiu um período de intercâmbio, durante o qual comunidades protestantes compartilhavam ideias com os valdenses.

Durante o Sínodo de Chanforan, realizado entre os valdenses e os reformadores da Suíça (em 12 de setembro 1532), os protestantes incentivaram os valdenses a patrocinar a primeira tradução da Bíblia, a partir das línguas originais para o francês. Impressa em 1535, ela ficou mais tarde conhecida como a Bíblia Olivétan (veja o texto adiante). Ironicamente, porém, a maioria dos valdenses não entendia o francês, pois eles tinham uma língua materna diferente (idioma piemontês que na época era muito próximo do dialeto occitano). De fato, a língua da região do Piemonte, Piemontese, ainda hoje contém muitas palavras de origem celta e é mais do que um dialeto: é de fato uma língua separada falado até hoje pelo povo de Torino e da região do Piemonte, dando-lhes uma senso de identidade unitário e afinidade com a sua antiga herança ancestral.

Com a continuação da perseguição causada pela Igreja Católica, grande número de valdenses se estabeleceu na região mais segura da Provença, no sul da França, assim como fizeram muitos imigrantes protestantes. As autoridades foram logo alertadas sobre esta imigração. Apesar de muitos relatórios positivos a respeito do estilo de vida e da moral dos valdenses, alguns questionavam sua lealdade e os acusavam de serem uma ameaça para a boa ordem.

Neste momento da história, os exércitos da igreja organizada aproveitaram para tomar vingança contra os Valdenses, e arrasaram literalmente várias das suas aldeias e povos. Em Provença, no sul da França, floresciam 30 aldeias Valdenses que tinham começado a fazer contato com os líderes da Reforma.

A Reforma já havia dividido a Alemanha, quando o rei católico Francisco I, da França, preocupado com a expansão do protestantismo, fez indagações a respeito de supostos hereges no seu reino. Em vez de encontrar uns poucos casos isolados de heresia, as autoridades na Provença descobriram aldeias inteiras de dissidentes religiosos. Inteirados, os seus inimigos convenceram mediante ardis e mentiras Francisco I. Pressionado pelo Cardeal Tournon, o rei emitiu o edito de Mérindol, para “eliminar a heresia”, ordenando que todos os Valdenses fossem exterminados (19 de janeiro de 1545), que resultou no horrível derramamento de sangue.

Na bela região de Lubéron, da Provença, no sul da França, ali se reunira um exército para cumprir aquela terrível missão, instigada pela intolerância religiosa. Seguiu-se uma primeira semana de derramamento de sangue: aldeias foram arrasadas, e os habitantes foram presos ou mortos. Soldados brutais praticaram atrocidades cruéis num massacre que fez a Europa estremecer.

Depois de semanas de matanças, haviam sido mortos cerca de 3 a 4 mil homens e mulheres. A brutalidade e o horror se estenderam pela região. Vinte e duas aldeias ficaram totalmente destruídas. Os poucos sobreviventes, uns 600 homens, foram mandados trabalhos forçados em galés, para servir de remadores nas galeras por toda a vida e apenas um reduzido número conseguiu escapar para a Suíça. O comandante militar que executou esta campanha sanguinária foi elogiado pelo rei francês e pelo papa.

As relações entre os católicos e os valdenses continuaram a piorar. Reagindo aos ataques contra eles, os valdenses recorreram à força das armas para se defender. Este conflito os levou a acelerar o seu ingresso no rebanho protestante. De modo que os valdenses se aliaram à corrente principal do protestantismo.

No decorrer dos séculos, estabeleceram-se igrejas valdenses em países tão distantes da França como o Uruguai e os Estados Unidos. Todavia, a maioria dos historiadores concorda com Audisio, que diz que “o valdismo acabou na época da Reforma”, quando foi “absorvido” pelo protestantismo.

Colônia Valdense no Uruguai atual
Essa conclusão deriva do fato de que, na realidade, o movimento valdense havia perdido muito do seu zelo inicial séculos antes. Isto se deu quando os seus membros, pressionados por medo da perseguição, abandonaram, em boa parte, a pregação pública do ensino orientado pela Bíblia.

Olivétan, “O simples e humilde tradutor” da Bíblia Francesa


Era 13 de setembro de 1540. A polícia estava fazendo uma busca na casa de um homem chamado Collin Pellenc. Num aposento secreto eles encontraram alguns documentos suspeitos, entre eles um grande livro. Na segunda página estava escrito: “P. Robert Olivetanus, o simples e humilde tradutor.” Era uma Bíblia valdense. Collin Pellenc foi preso, condenado por heresia e queimado vivo.

Naquela época, na França, assim como em toda a Europa, a Igreja Católica estava a caça dos reformadores, num esforço de erradicar suas “doutrinas insidiosas”. Um dos reformadores, o entusiástico Guillaume Farel, estava determinado a fazer com que os países de língua francesa adotassem os conceitos de Martinho Lutero, uma figura de destaque na Reforma Protestante.

Farel, da província de Delfinado, sudeste da França, sabia que um fator-chave para mudar os conceitos das pessoas era o uso da página impressa. Para cumprir sua missão, ele precisava de panfletos e tratados, bem como de Bíblias. Mas quem poderia financiar esse empreendimento? Por que não os valdenses, um grupo religioso independente dedicado à pregação da Bíblia?

Em meados de setembro de 1532, os barbes (pastores valdenses) realizaram um sínodo, ou conferência, em Chanforan, uma pequena vila perto de Turim, na Itália. Durante muitos anos, os valdenses e os líderes da Reforma trocaram ideias. Assim, Farel e vários outros foram convidados para o sínodo. Os valdenses queriam saber se suas doutrinas se harmonizavam com as doutrinas pregadas por Lutero e seus discípulos.

Em Chanforan, a eloquência de Farel foi convincente. Quando os pastores valdenses lhe mostraram suas antigas Bíblias escritas à mão em seu próprio dialeto, ele os convenceu a financiar a impressão de uma Bíblia em francês. Em contraste com a versão de 1523 de Lefèvre d’Étaples, baseada no latim, essa Bíblia era para ser traduzida do hebraico e do grego. Mas quem seria capaz de realizar essa tarefa?

Farel sabia exatamente quem chamar. Tratava-se de Pierre Robert, mais conhecido pelo codinome Olivétan, um jovem professor nascido na região de Picardia, norte da França. Olivétan, primo de João Calvino, foi um dos primeiros reformadores e era um homem de confiança. Ele também havia passado vários anos em Estrasburgo, estudando diligentemente os idiomas bíblicos.

Assim como Farel e muitos outros, Olivétan havia se refugiado na Suíça. Seus amigos imploraram para ele aceitar esse projeto de tradução. Depois de recusar várias vezes, ele finalmente aceitou a comissão de traduzir a Bíblia “com base nos idiomas hebraico e grego para o francês”. Ao mesmo tempo, os valdenses deram 500 das 800 moedas de ouro — uma fortuna — necessárias para financiar uma gráfica.

No começo de 1534, Olivétan se isolou nos Alpes e começou seu trabalho cercado de seus “professores silenciosos”, seus livros. Sua biblioteca causaria inveja a qualquer erudito de nossos tempos. Ela incluía versões da Bíblia em siríaco, grego e latim, comentários rabínicos, livros de gramática caldeus (aramaicos) e muitos outros livros. Mais importante ainda, Olivétan tinha uma edição veneziana atualizada do texto original da Bíblia em hebraico.

Olivétan baseou sua tradução do que muitos chamam de Novo Testamento no texto francês de Lefèvre d’Étaples, embora o texto grego desenvolvido pelo erudito holandês Erasmo tenha sido consultado com frequência.

A escolha de palavras de Olivétan muitas vezes tinha o objetivo de afrouxar o domínio exercido pelo catolicismo. Por exemplo, ele preferiu usar “superintendente” em vez de “bispo”, “segredo” em vez de “mistério” e “congregação” em vez de “igreja”.

No caso da parte conhecida por muitos como Velho Testamento, Olivétan estava determinado a traduzir o hebraico original palavra por palavra. Ele dizia em tom de brincadeira que traduzir do hebraico para o francês era como “ensinar ao doce rouxinol o canto estridente da gralha”.

No texto hebraico, Olivétan se deparou centenas de vezes com o nome divino na forma do Tetragrama. Ele decidiu traduzi-lo por “O Eterno”, uma expressão que mais tarde se tornou comum nas Bíblias protestantes em francês. No entanto, ele optou por usar “Jeová” em vários lugares, como em Êxodo 6:3.

Por incrível que pareça, em 12 de fevereiro de 1535, apenas cerca de um ano depois, esse tradutor declarou o término de sua obra. Visto que ele admitiu que tinha ‘já por muito tempo se empenhado por conta própria nesse trabalho árduo [de tradução]’, tudo indica que o ano de 1534/1535 foi o clímax de um processo contínuo e meticuloso. “Fiz o melhor que pude”, disse modestamente o tradutor. Agora só faltava imprimir a primeira Bíblia francesa traduzida com as línguas originais em mente.

Pierre de Wingle, também conhecido como Pirot Picard, amigo de Farel e impressor dos reformadores, entrou em cena. Depois de ser banido de Lyon pela Igreja Católica, ele se estabeleceu em Neuchâtel, Suíça, em 1533.

Com o dinheiro dos valdenses, ele começou a imprimir “material subversivo” em abundância. Tinha sido a sua gráfica, por exemplo, que anteriormente havia produzido os folhetos que condenavam a Missa, alguns dos quais chegaram às mãos do rei católico Francisco I, da França.

Assim, novamente De Wingle colocou suas impressoras em ação, dessa vez para produzir uma Bíblia. A fim de acelerar o processo, uma equipe de quatro ou cinco trabalhadores operava cada uma das duas impressoras, compondo os tipos e imprimindo as folhas. Por fim, no “ano de 1535, no dia 4 de junho”, De Wingle assinou a página do impressor da Bíblia de Olivétan. No seu prefácio, o tradutor dedicou sua obra aos pobres crentes “esmagados e oprimidos” por “tradições vãs”.

O resultado final atingiu todas as expectativas. A elegante e legível escrita gótica, disposta em duas colunas e com divisões em capítulos e parágrafos, davam beleza e simplicidade ao texto francês. As notas marginais atestam a erudição do tradutor. Os comentários introdutórios, os apêndices, as tabelas e os poemas também embelezam a obra. No fim do volume, há um poema acróstico que revela o seguinte verso rimado: “Os valdenses, que o Evangelho pregam, este tesouro ao público entregam.”

A Bíblia de Olivétan de 1535

A Fé Destemida dos Valdenses


“Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas; vendo-as, porém, de longe, e saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a Terra.” Heb. 11:13.

Em 1655 Charles Emmanuel II, duque de Savoia renovou a perseguição. Ele deu-lhes 20 dias para os valdenses venderem suas terras e deixar a cidade ou passar a assistir missa católica. Quando ele descobriu que muitos dos habitantes da cidade tinham fugido, ele criou uma falsa revolta para enviar tropas. Como parte do decreto, exigia que o povo da cidade abrigasse as tropas em suas casas. A ordem de aquartelamento não foi necessária, mas era uma maneira de obter as tropas perto das pessoas, sem levantar suspeitas.

Em 24 de abril de 1655, houve uma ordem dada para começar o ataque contra o povo, no qual as forças católicas foram além da razão para atacar os valdenses, desencadeando uma campanha não-provocada de saques, estupros, tortura e assassinato. O número estimado de vítimas foi de cerca de 2.000 pessoas mortas e outras 2.000 foram convertidos à força à fé católica. A noticia dos assassinatos espalhou-se rapidamente por toda a Europa e grandes esforços foram feitos para remover quaisquer sobreviventes da área e trazê-los para a segurança. Os eventos associados a este massacre são o que levaram a inspiração e escrita do soneto de John Milton "Sobre o massacre tardio no Piemonte" (On the Late Massacre in Piedmont)

Avenge, O Lord, thy slaughtered saints, whose bones
Lie scattered on the Alpine mountains cold,
Even them who kept thy truth so pure of old,
When all our fathers worshiped stocks and stones;
Forget not: in thy book record their groans
Who were thy sheep and in their ancient fold
Slain by the bloody Piedmontese that rolled
Mother with infant down the rocks. Their moans
The vales redoubled to the hills, and they
To Heaven. Their martyred blood and ashes sow
O'er all th' Italian fields where still doth sway
The triple tyrant; that from these may grow
A hundredfold, who having learnt thy way
Early may fly the Babylonian woe.

Cromwell, Protetor dos valdenses - pintura por Ford Madox Brown que retrata
Oliver Cromwell , em conversa com John Milton, ditando uma carta para
Andrew Marvell, protestando contra o massacre da Páscoa no Piemonte (1655)
Por conta desse massacre e desapropriações de valdenses na Itália, o então governante "Lord Protector" inglês Oliver Cromwell organizou uma ação internacional, escrevendo uma série de cartas, levantando contribuições financeiras para as vítimas e ameaçando uma ação militar. Durante sua vida, os perseguidores refrearam os seus ataques, mas depois de sua morte os valdenses foram perseguidos repetidamente.

O lider valdense Henri Arnaud nasceu em Embrun, nos Altos Alpes da França, em 1641. Por volta de 1650, sua família retornou para o seu vale de origem de Luserna San Giovanni, onde Arnaud foi educado em La Tour (a aldeia principal), posteriormente, frequentou o colégio em Basileia (1662 e 1668) e a faculdade em Genebra (1666). Retornou depois para a sua cidade natal, foi pastor em várias aldeias dos vales valdenses antes de se fixar em La Tour (1685).

Henri Arnaud e seus companheiros valdenses eram cristãos fervorosos, que ousavam ser diferentes, rejeitando os decretos da Igreja estatal. Para eles, os mandamentos de Deus eram mais importantes do que as tradições humanas. Mas a Igreja oficial enviou um exército para destruí-los e, assim, o pastor dos valdenses no Piemonte, se viu forçado a se tornar também um militar a fim de livrar seus correligionários da perseguição de Vítor Amadeu II, o duque de Savoia.

Em 1685, o rei Luis XIV revogou o Édito de Nantes de 1598, que havia garantido a liberdade de religião a seus súditos protestantes na França. Tropas francesas foram enviadas para as áreas valdenses francesas do Vale Chisone e do Vale Susa, no Dauphiné, causando a "conversão" de 8000 valdenses a aceitar o catolicismo, e obrigando outros 3.000 a partir para a Alemanha.

No Piemonte, o primo de Luis, o recém ascendido Duque Savoia, seguiu o rei na remoção da proteção dos protestantes no Piemonte. Na perseguição renovada e, em um eco do Massacre de Páscoa do Piemonte, que ocorrera apenas três décadas antes, o Duque emitiu um decreto em 31 de janeiro de 1686, que decretou a destruição de todas as igrejas valdenses e que todos os habitantes dos Vales deviam anunciar publicamente o erro na sua religião no prazo de quinze dias, sob pena de morte e banimento. Mas os valdenses permaneceram resistentes. Depois de 15 dias, um exército de 9.000 soldados franceses e piemonteses invadiram os Vales, contra os estimados 2.500 valdenses, mas descobriu que cada aldeia tinha organizado uma força de defesa que mantinha os soldados franceses e piemonteses na baía.

Em 9 de abril, o duque de Savoia emitiu um novo decreto, que obrigava os valdenses a depor as armas dentro de oito dias e ir para o exílio entre 21 e 23 de abril. Se possível, eles eram livres para vender suas terras e posses para o maior lance.

Igreja Valdense em Turim
Pastor Valdense Henri Arnaud, que havia sido expulso do Piemonte nos expurgos anteriores, retornou da Holanda. Em 18 de abril, ele fez um apelo inflamado diante de uma assembléia em Roccapiatta, conquistando a maioria em favor da resistência armada. Quando a trégua terminou em 20 de abril, os valdenses estavam preparados para a batalha.

Eles travaram uma corajosa luta ao longo das próximas seis semanas. Mas quando o duque retirou-se para Turim, em 08 de junho, a guerra parecia decidida: 2000 valdenses haviam sido mortos; outros 2000 tinham "aceitado" a teologia católica do Concílio de Trento, enquanto outra 8000 foram presos, dos quais mais da metade iria morrer de fome, deliberadamente imposta, ou da doença dentro de seis meses .

Mas cerca de duzentos ou trezentos valdenses fugiram para as colinas e começaram a levar a cabo uma guerra de guerrilha ao longo do próximo ano contra os colonos católicos que chegaram para assumir as terras valdenses. Estes "Invencíveis", continuaram com seus ataques até que o Duque finalmente cedeu e concordou em negociar.

O "invencíveis" ganharam o direito para que os valdenses presos fossem libertados da prisão, e que fosse fornecida passagem segura para eles até Genebra. Mas o Duque, concedendo a permissão em 3 de janeiro de 1687, exigia que os valdenses partissem imediatamente ou que se convertessem ao catolicismo romano. Este decreto levou a algo próximo de 2800 valdenses deixando o Piemonte, indo para Genebra (Suíça), dos quais apenas 2.490 sobreviveria a viagem.

Henri Arnaud era o líder natural de seus correligionários durante e depois que Vítor Amadeu II de Savoia os expulsou de seus vales e, ao visitar a Holanda, o seu governante, Guilherme de Orange, muito provavelmente forneceu-lhe ajuda e dinheiro, com o qual Arnaud ocupou-se de organizar seus três mil compatriotas que haviam se refugiado na Suíça, e que por duas vezes (1687-1688) tentaram recuperar suas casas.

Arnaud, acompanhado de cerca de mil seguidores, armado com armamento moderno fornecido pelos holandeses, deram início em 17 de agosto de 1689, próximo a Nyon, às margens do lago de Genebra ao seu regresso para a terra natal. No dia 27 de agosto, o grupo, depois de muitas dificuldades e perigos, chegou ao vale de São Martinho, tendo passado por Sallanches e atravessado o passo de Véry (6.506 pés), o enclave de la Fenêtre (7.425 pés), o passo do Bonhomme (8.147 pés), o passo do monte Iseran (9.085 pés), o Grand Mont Cenis (6.893 pés), o passo do Pequeno Monte Cenis (7.166 pés), os passos Clapier (8.173 pés), Coteplane (7.589 pés), e Piz (8.550 pés).

Mais de 30% daquela força de 1000 homens pereceu durante essa caminhada de 210 quilômetros pelos Alpes, todavia, eles obtiveram sucesso em ter restabelecida a sua presença no Piemonte e expulsaram os colonos católicos, mas eles continuaram a ser sitiados por tropas francesas e piemonteses.

Eles logo se refugiaram na alta e segura cidadela rochosa localizada no alto do pico de Balsille (Balsiglia), onde foram sitiados de 24 de outubro de 1689 a 14 de maio de 1690, por soldados (cerca de 4000 em número) do rei da França e do duque de Saboia. Nesta fortaleza natural eles conseguiram resistir aos muitos ataques ferozes e durante todo o período de inverno.

Em certa manhã de primavera, do alto de uma montanha, os valdenses ouviram gritos. Era o coronel DePerot e suas tropas se preparando para atacar. “Vamos dormir lá em cima, esta noite”, gritou o coronel, enquanto convidava o povo para ver o enforcamento que ocorreria no dia seguinte. “Venham ver o fim dos valdenses,” proclamava.

Encurralado no topo da montanha, o líder valdense Henri Arnaud, com apenas 300 soldados valdenses restante, abriu a Bíblia e leu Salmo 124:2 e 3 para seus companheiros: “Não fosse o Senhor, que esteve ao nosso lado, quando os homens se levantaram contra nós, e nos teriam engolido vivos, quando sua ira se acendeu contra nós.”

DePerot e os quatro mil soldados, armados com canhões, começaram a subida. Tudo ia bem e seus melhores escaladores já estavam prestes a alcançar os troncos do forte montanhês. Então, os homens de Arnaud atiraram uma saraivada de pedras sobre eles. Os soldados de DePerot caíram e o próprio DePerot ficou ferido e teve que pedir refúgio no forte valdense.

Conforme ele havia predito, passou a noite no alto da montanha – mas em um abrigo gentilmente cedido pelos próprios valdenses. Não houve a perda de um único homem do lado valdense. Na noite seguinte, os soldados de DePerot voltaram e cercaram o forte. O comandante francês estava tão confiante de completar o seu trabalho na manhã seguinte a este cerco ele havia enviado uma mensagem a Paris, dizendo que a força Valdense já havia sido destruída. 

Porém os valdenses silenciosamente escaparam no meio da densa neblina que se formou em seguida e, quando os franceses acordaram na manhã seguinte, eles descobriram que as valdenses, guiados por um dos seus que era familiarizado com o Balsiglia, já tinha descido desde o pico durante a noite, e agora estavam a vários quilômetros de distância, seguindo pelas colinas até o vale de Angrogna, acima de La Tour.

Mas mas semanas seguintes, houve um dia em que um grupo de 250 valdenses foram cercados pelos soldados, refugiando-se em uma caverna. Uma fogueira foi armada na entrada da caverna, e, enquanto a fumaça enchia o lugar, sufocando-os, os capturados cantavam louvores a Deus, até o último suspiro. Seu testemunho nos impele a um compromisso com Deus. O Senhor nos chama a uma experiência de lealdade inabalável à Sua Palavra. Sejamos fiéis a Ele, até o fim.

Somente após os eventos da Revolução Francesa, os valdenses do Piemonte tiveram asseguradas a liberdade de consciência e, em 1848, o governador de Savoia, o rei Carlos Alberto da Sardenha concedeu-lhes direitos civis.

Como vimos, a história valdense é cheia de episódios marcantes, que mostram uma tradição de fidelidade e de compromisso com o Evangelho, mesmo em circunstâncias adversas. Mas para nós, que vivemos no século XXI, sob a égide da pós-modernidade, que relevância pode ter o que Pedro Valdo e seus seguidores começaram na Lyon medieval do século XII?

Deixo para você a tarefa de encontrar uma resposta, mas suspeito que a história dos Valdenses pode – e deve – servir de inspiração para todos os que hoje, mesmo sem serem religiosos profissionais, querem ter um estilo de vida que seja coerente com a fé em Jesus Cristo.

Graças aos escritos que os Valdenses conseguiram perdurar apesar da perseguição, hoje podemos saber que aqueles grupos de irmãos, unidos por estreitos laços de comunhão, não eram absolutamente hereges gnósticos ou maniqueus, tal como pretendiam provar os que os perseguiam e matavam, mas sim verdadeiros crentes ortodoxos em sua fé e bíblicos em suas práticas.

Assim o Papa Gregório IX declarava: "Nós excomungamos e anatematizamos a todos os hereges, cátaros, patarinos, Homens Pobres de Lyon (Valdenses), arnaldistas ... e outros, qualquer que seja o nome pelo qual são conhecidos, já que têm de fato diferentes rostos, mas estão unidos por suas caldas e se reúnem no mesmo ponto, levados por sua vaidade".

Também o inquisidor Davi de Augsburgo reconhecia o fato de que em princípio as seitas, que resistiam juntas na presença dos seus inimigos, "eram uma só seita".

Considerações finais


Apesar de tudo, os Valdenses, diferente dos outros grupos perseguidos, sobreviveram. Nos dias da Reforma muitos passaram a formar parte das filas protestantes, enquanto que outros se uniram a assim chamada Reforma Radical dos Anabatistas.

Junto com eles sobreviveram importantes escritos que nos ajudam a entender a fé daqueles irmãos cujos testemunhos foram calados pelo martírio, tais como os cátaros e albigenses, com quem os Valdenses compartilharam o mesmo tipo de perseguição.

Por eles aprendemos que um remanescente fiel lutou, sofreu e morreu por Cristo durante vários séculos de escuridão e apostasia, quando parecia que a fé bíblica tinha desaparecido da terra. E agora um quadro inteiramente diferente surge diante dos nossos olhos. Não se tratavam de hereges, mas sim de verdadeiros irmãos e irmãs em Cristo.

Aqui e lá, em todas as partes da Europa onde homens e mulheres fiéis buscavam o Senhor, a luz da sua palavra resplandecia e um testemunho se levantava no meio da escuridão. Mas o inimigo que enfrentavam era formidável, ardiloso e cruel. As suas armas preferidas eram a difamação e o martírio. Diante delas, todos os seus esforços pareciam destinados ao fracasso e a aniquilação. As fogueiras se multiplicavam e os horrores pareciam não ter fim. No entanto, a sua fé sobreviveu e prevaleceu através de toda aquela imensa maré de malignidade que ameaçou inundá-los por completo.

E a luz alçou no final daquela época de trevas ainda invicta e resplandecente. Desta maneira, junto a albigenses e cátaros, e outros cujo testemunho foi silenciado e apagado da história, os Valdenses mantiveram erguido a chama e a fizeram chegar até os nossos dias, para falar por todos os irmãos cujo invencível testemunho de fé e amor por Cristo creram ter feito calar para sempre; e nos dizer que em todos eles brilhou de maneira clara e singular a luz invencível de Cristo e o seu Evangelho eterno, no meio da adversidade mais implacável. Por isso, o seu legado espiritual resulta imperecível.

"Ouvi uma voz do céu que me dizia: Escreve: Bem-aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, descansarão dos seus trabalhos, porque as suas obras com eles seguem" (Ap. 14:13).

Talvez o leitor também se interesse em ver um vídeo documentário, em Português do Brasil, sobre a história dos valdenses:


Igreja Valdense Moderna:


Infelizmente, as pressões do mundo moderno têm afetado, de modo negativo, também os valdenses. Tal qual homens perversos que existem em outras congregações, que "dizendo-se sábios, tornaram-se loucos" (Romanos 1:22), de modo insólito e lamentável, o Sínodo da Valdense da Itália decidiu dizer sim, para casais homossexuais em apenas dois dias de reunião, no final de agosto de 2010. Pela primeira vez na Itália, a "comunidade cristã" tem uniões legítimas entre homossexuais "abençoadas". Reunida a cada ano em Torre Pelicano (Torre Pellice), perto de Turim, representantes de mais de 30 mil fiéis de todo o mundo têm dado luz verde para a bênção de casais homossexuais, mesmo num país onde não há, sequer, legislação sobre o assunto, como a Itália. Triste posicionamento da Igreja evangélica valdense, com abandono da escritura e inversão de valores cristãos.

Linques Relacionados:


La Società di studi valdesi


The english committee of the waldensian church missions


Linque Externo (Recomendado): 



A HISTÓRIA DOS VALDENSES - Por J. A. Wylie

 

HISTORIA DE LOS VALDENSES (Ernesto Comba)



Veja também:


Cátaros, Albigenses e Valdenses (uma história que precisa ser contada ou, porque deixei de ser católico) – Parte 1/2


Nota:


  1. Uma diferente versão sobre a motivação que levou Pedro Valdo a iniciar o seu movimento de pregação do Evangelho, narra que ele ficou muito comovido uma história ouvida na canção de um menestrel na saída de uma missa na igreja que ele frequentava em Lyon. Tal história teria sido o que desencadeou uma crise espiritual dentro dele. Tratava-se de um balada sobre um cristão do século IV chamado Alexis. Alexis era o filho de um rico senador romano, e ele era um rico, pagão mimado. No entanto, no dia em que Alexis deveria estar se casando, Cristo de repente irrompeu junto a ele. Tocou a sua própria alma pela sua conversão, Alexis deixou tudo, sua família, sua riqueza e sua noiva pretendida. Com poucos pertences e as roupas em suas costas, ele viajou por toda a Europa para a Síria. Lá, ele passou a maior parte de sua vida orando e jejuando, servindo aos outros, e compartilhando o amor de Jesus. Ele suportou pobreza e grande sofrimento para a causa de Cristo. Anos mais tarde, com sua saúde e seu corpo quebrado e desfigurado, Alexis regressou a Roma. No entanto, "a família e amigos Alexis não o reconheceram, como ele parecia ser apenas algum mendigo sujo. Então Alexis decidiu manter sua identidade em segredo. Ele aceitou um emprego subalterno de seu pai (que não o reconheceu), e ele viveu em uma pequeno quartinho da casa de sua família. Viveu assim durante 17 anos, tentando servir os outros em espírito de Cristo. Quando Alexis morreu, sua família encontrou seu diário entre seus poucos pertences, e depois eles perceberam que ele realmente era.
  2. Novacionismo ou Novacianismo foi um movimento, ocorrido durante o cristianismo primitivo formado pelos seguidores de do Padre Novaciano, que se recusavam a readmitir a comunhão os lapsi (os cristãos batizados que tinham renegado a sua fé e realizado sacrífícios aos deuses pagãos) durante a perseguição de Décio em 250 d.C. Eles foram posteriormente declarados como heréticos.

Veja Também:

 

A Bíblia (que nós amamos!)


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Este trabalho de André Luis Lenz, foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.
 
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