sábado, 13 de abril de 2013

Não tens a obra? Só tens a fama! ... Não terás problemas em ser importante no Brasil!



"Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu;" (Apocalipse 3:17)

Nunca passa pela cabeça de ninguém, digamos, dizer que Camões é um “escritor importante” – ele é, apenas, Camões. Não precisa ser chamado de “importante”; tem a fama porque tem a obra.

Mesmo Jesus Cristo, o maior homem que já viveu, a semente da linhagem do rei Davi, mesmo sendo rico, por amor de nós, se fez pobre, viveu pobre e morreu de um modo aparentemente miserável aos olhares humanos.

Já no caso das eminências com méritos desconhecidos, é o contrário: não têm a obra, só têm a fama. É um fenômeno muito comum na nossa cultura brasileira.

Não importa se uma pessoa tem ou não tem virtudes. Não importa, na verdade, o que tenha feito ou deixado de fazer. Basta conseguir que a chamem de “importante” – vai passar a vida inteira sendo adulada, sem que ninguém nunca saiba exatamente por quê, e sem que precise mostrar serviço.

É o que aconteceu com Eike Batista. Alguns anos atrás, ele começou a aparecer na mídia; logo ganhou dos jornalistas o certificado de “empresário importante”, e desde então é raro que se passem três dias seguidos sem que o seu nome seja citado em algum lugar.

Eike soube usar a credibilidade a seu favor para fazer grandes captações e se colocar entre os homens mais ricos do mundo. Todavia a casa caiu, porque no noticiário, ele permaneceu num eterno “vai” – vai fazer, vai investir, vai negociar, vai estudar, vai comprar, vender, associar-se, enquanto apenas captava. Não se falava, depois, nos resultados daquelas intenções todas. E quando bomba estoura, é o contribuinte que ainda paga o preço.


Por um lado, é a estatal brasileira Petrobras que está considerando lançar uma tábua de salvação para o atribulado magnata, na forma de contratos com o Grupo EBX, talvez por considerar que Eike Batista pode ser "grande demais para quebrar".

Uma intervenção do governo brasileiro, mesmo que indiretamente e, mesmo com os executivos da Petrobras alegando que as negociações com a EBX são parte de um negócio e não de uma ajuda, mostra como o Grupo EBX se tornou politicamente influente, mesmo sem apresentar os resultados prometidos e esperados.

Por outro é o "estranho caso" da licitação para a concessão da gestão do estádio Maracanã, que estava inicialmente prevista para ocorrer nesta quinta-feira (11/04) e que foi suspensa por uma liminar do TJ do Rio de Janeiro mas, que governo daquele estado informou na madrugada desta sexta-feira, 12, que a Justiça autorizou a licitação para a concessão, cassando a liminar.

Os promotores do M.P. alegam que a empresa IMX, de Eike Batista, não poderia estar como está, participando da licitação, porque teve acesso a informações privilegiadas. A companhia do empresário foi a responsável pelo estudo de viabilidade técnica do estádio.

Todo material que foi disponibilizado às outras licitantes foi produzido pela própria IMX, e é com base nisso que elas têm de se basear para apresentar suas próprias propostas. Isso é concorrência desleal.

No entanto, seus projetos personificam, politicamente, as ambições do Brasil de crescimento global para se tornar um grande exportador de petróleo, um moderno construtor de navios e outras ambições mais.

Pode ser por isso que o Brasil precisa que Eike triunfe. Todavia, em bases de tão baixos fundamentos de princípios, com decisões judiciais articuladas na calada das madrugadas, com atitudes de ética duvidosa, por mais que haja nos negócios a competência da visão em 360º, todo triunfo será sempre pífio.

Pobre Brasil!

Atualização:


A apresentação das propostas foi finalizada no início da tarde de 16/04, no Palácio Guanabara, sede do governo fluminense e, o consórcio Maracanã S.A., liderado pela empresa IMX, do empresário Eike Batista, apresentou a maior proposta financeira na licitação do complexo esportivo formado pelo Estádio Jornalista Mário Filho, o Maracanã, e pelo Ginásio Esportivo Gilberto Cardoso, o Maracanãzinho.

A proposta de maior valor não significa vitória automática do grupo liderado pela IMX. Segundo o edital de licitação, o preço tem peso de 40% e a parte técnica tem peso de 60%.  O vencedor, que administrará o equipamento por 35 anos.

O grupo, que também conta com as empresas Odebrecht Participações e AEG Administração de Estádios do Brasil, ofereceu R$ 5,5 milhões por ano para administrar e explorar o complexo, totalizando R$ 181,5 milhões durante os 35 anos da concessão (dos quais dois, isentos de pagamento).

Enquanto as propostas eram reveladas, do lado de fora do palácio um protesto formado por integrantes da organização Comitê Popular Rio, que lidera a campanha “O Maraca é nosso”, marcou o lançamento da Consulta Pública Popular do Maracanã, para discutir as propostas de uso do complexo.

Alguém me perguntou: Por que se preocupar com um negócio que parece ser tão pequeno diante da totalidade dos negócios de Eike batista? Não é pela pessoa, em si, do Sr. Eike Batista e nem é, tão pouco, pelo "tamanho relativo do negócio" mas, é para mostrar aos desinformados, com que "lisura" os negócios realizados entre os setores "públicos" e "privados" continuam a ser conduzidos neste país, apesar de todas as falsas proclamações em contrário.


Investimento


O vencedor terá ainda que investir cerca de R$ 594 milhões em obras para adequar o complexo esportivo. Dentre as mudanças necessárias, estão as derrubadas do estádio de atletismo Célio de Barros e do parque aquático Júlio Delamare. Os equipamentos, no entanto, devem ser construídos em um local próximo. (sugiro que fiquemos de olho nisso).

O Governo do Estado acredita que o retorno no investimento será feito em até 12 anos para o consórcio vencedor. A estimativa é que as receitas anuais superem os R$ 154 milhões, contra despesas de R$ 50 milhões. (Observem que se isso estiver correto, o lucro é de R$ 104 milhões por ano ... nada desprezível)

Se a prefeitura do Rio, consegue, com essa operação, "livrar-se de encargos", então me expliquem por que ela está decidindo cancelar um repasse de R$ 8 milhões que faria neste ano à OSB (Orquestra Sinfônica Brasileira), alegando ter interrompido o apoio financeiro para investir na preparação da cidade para os dois grandes eventos esportivos que acontecem no Rio - Copa do Mundo de 2014 e Jogos de 2016.

O valor do repasse corresponderia a um quinto do orçamento da orquestra, que é de R$ 40 milhões, para 2013. A OSB contava com a contribuição financeira do município há quase 20 anos. O prefeito Eduardo Paes formalizou a suspensão da parceria por meio de uma carta assinada no dia 18 de março. (considerem que a OSB poderia ser uma das poucas coisas boas que realmente poeríamos oferecer aos olhos do mundo durante os eventos da copa de 2014).
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Este trabalho de André Luis Lenz, foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.
 
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