domingo, 18 de março de 2012

Os Cristãos Apostólicos e os Gnósticos Cristãos (Uma história de permanente sabotagem!)

“Gnosticismo” é um termo de origem grega que relaciona-se a um “conjunto de correntes filosófico religiosas sincréticas”. Já, por sua vez, o termo “sincréticas”, também originário do grego, refere-se, originalmente, à "coalização dos cretenses", que é uma fusão de doutrinas de diversas origens, seja na esfera das crenças religiosas, seja nas filosóficas.

A origem do emprego do termo “sincretismo”, se deve, muito provavelmente, a Plutarco no capítulo "amor fraternal" no seu "Moralidades", onde comenta que os cretenses esqueciam as suas diferenças internas a fim de, por exemplo, se unir para combater combater um mau maior.

Plutarco foi um filósofo e prosador grego do período greco-romano, que estudou na Academia de Atenas, e que viveu no período de 46d.C. até 126 d.C.. Ele foi um discípulo de Ammonius de Lamprae, um filósofo peripatético com profundo conhecimento de religião.

A Academia de Atenas (antiga) não deve ser confundida com a Academia de Atenas (atual), fundada em século passado, mais precisamente em 1926. A Academia de Atenas original foi fundada por Platão, aproximadamente em 387 a.C.. Por isso ela é também conhecida como Academia Platônica (ou de Platão) e estabeleceu-se nos jardins localizados no subúrbio de Atenas, consagrados à deusa Atena e que tradicionalmente haviam pertencido ao herói grego de nome Academo (de onde provem o termo “Academia”).

Por seu turno, "Peripatético", também do grego, é a palavra que designa 'ambulante' ou 'itinerante'. Peripatéticos (ou 'os que passeiam') eram os discípulos de Aristóteles, em razão do hábito do filósofo de ensinar ao ar livre, muitas vezes caminhando, enquanto lia e dava preleções, por sob os portais cobertos do Liceu de Atenas, conhecidos como “perípatoi”, ou sob as árvores que o cercavam. O Liceu de Atenas foi fundado por Aristóteles em 336 a.C., ou seja, aproximadamente 50 anos após Platão ter fundado a Academia de Atenas.

Aristóteles havia, então, abandonado a instituição que lhe formara, a Academia de Platão e, em moldes semelhante aos daquela Academia, fundou Aristóteles sua própria instituição, a que batizou de Liceu. Todavia, o Liceu sempre teve uma orientação essencialmente empírica (científica não religiosa), em oposição à Academia platônica, sempre muito mais especulativa. Tal característica se acentuou, ainda mais, quando Teofrasto assume a direção do Liceu, após Aristóteles.

O empirismo é descrito e caracterizado pelo conhecimento científico, técnico e tecnológico. Após a inauguração do Liceu, a Academia, por seu turno, passa a se orientar, ainda mais, de modo especulativo, se ocupando, basicamente, de estudos filosóficos religiosos, de modo que os termos “sincrético” e “sincretismo” são cunhados no âmbito desses estudos.

Então, voltando ao termo “sincretismo”, ele denota “agir como os cretenses agiam”, ou seja, unir coisas dispares, apesar das diferenças que tais apresentem, em favor daquilo que é semelhante (pretendendo denotar como os cretenses eram unidos antes das diferenças cretenses surgirem).

Apesar de a ilha de Creta, localizada no sul da Grécia, no mar Egeu, ser a maior ilha grega, ela tem uma área pouco menor que uma milésima parte do território do Brasil. Acredita-se que a ilha de Creta Creta esteve habitada desde a Pré-História, com vestígios de populações sedentárias desde o período neolítico.

No começo da Idade do Bronze, os cretenses criaram, ainda no 3° milênio a.C., uma grande civilização insular, calcada na chamada “cultura minóica”. Aquela civilização construiu palácios em Cnossos, em Festos, em Maliá e na localidade posteriormente conhecida como Santa Trindade – palácios cujas ruínas ainda hoje são vistas. Alguns séculos mais tarde, esta civilização irradiou para outras regiões do Mar Egeu, incluindo a Grécia continental.

A partir da primeira metade do 2º milénio a.C., Creta chegou a ser o centro cultural e comercial (graças ao domínio que a sua frota, dotada de homens grandes e fortes, estabeleceu no acúmulo de riquezas conquistadas e no comércio de produtos como o vinho, o azeite, as cerâmicas, os tecidos e a joalharia, e impôs no Mar Mediterrâneo, quer nos territórios vizinhos quer em locais mais afastados, como a Sicília), nas regiões da Idade do Bronze no Mediterrâneo Oriental, com a denominada "cultura do Egeu".

O seu predomínio terminou c. 1400 a.C., quando a ilha foi ocupada militarmente pelos aqueus. No século IV a.C. as cidades da ilha experimentaram guerrear entre si e no ano 67 a.C., depois de entrarem em conflito com os romanos, estes conquistam e saquearam a ilha, comandados por Quinto Cecílio Metelo.

Toda essa sucessão de eventos foi responsáveis por desenvolver uma forte cultura de “responsabilidade social” na população da ilha. Os cretenses, facilmente, abriam mão de toda e qualquer diferença entre eles, a fim de se unirem e defender os interesses coletivos de sua pequena, porém dotada de um povo forte e orgulhoso, ilha. Todavia, essa cultura passou a ser ameaçada, quando principiou o cristianismo, a penetrar na meio da população cretense, pois o cristão não é transigente em negociar com princípios e valores que norteiam a sua fé, como o eram os demais cretenses.

Da filosofia sincrética é que se origina um termo bastante utilizado em nossos dias atuais, que prega que “Tudo estará bem, enquanto os laços que nos unem forem mais fortes do que aqueles que nos afastariam”.

Este termo é muito empregado, notadamente, no âmbito das irmandades de ajuda mútua, como A.A. e N.A. (respectivamente alcoólicos, e narcóticos anônimos), de onde se crê no poder terapêutico de que, “é focalizando nossas semelhanças, e não nossas diferenças, que ajudamos uns aos outros”.

Na história das religiões, o sincretismo é uma fusão de concepções religiosas diferentes ou a influência exercida por uma religião nas práticas de uma outra religião.

Deste modo, o “gnosticismo”, chegou, vias de fato, a adaptar-se, a mudar-se consoante o meio, em função do cristianismo, ainda nos primeiros séculos de nossa era. Mas, visto que tal processo é sempre uma via de mão dupla, para efetivamente ocorrer, os cristão eram também, instados com intensidade, a aceitar adaptações em suas crenças e valores, a fim de completar o mimetismo buscado pelos gnósticos.

Após uma etapa em que conheceu prestígio entre os intelectuais cristãos, visto que, a fidelidade para com as suas crenças, historicamente herdada do judaísmo, foi desde sempre uma questão fundamental para o cristão, posteriormente, o gnosticismo veio a ser declarado como um pensamento herético e, tal sincretismo, passou a ser combatido pelas autoridades eclesiásticas da igreja de então, culminando, inclusive, com o fechamento definitivo da Academia Platônica, em 529 d.C., a mando do imperador Justiniano.

De fato, pode falar-se em um gnosticismo pagão e em um gnosticismo cristão, ainda que o pensamento gnóstico mais significativo tenha sido alcançado como uma vertente heterodoxa do cristianismo primitivo. Deste modo, o grupo autodenominado “Cristãos Gnósticos” constituíram, desde os primeiros séculos da era d.C., uma comunidade fechada, iniciática, que guardou os aspectos esotéricos dos evangelhos, principalmente das parábolas de Jesus, o Cristo, apresentando, segundo a própria visão da cultura filosófica, um cristianismo muito mais profundo e filosófico do que daqueles cristãos que ficaram conhecidos como a ortodoxia.

Dentre os grupos mais ativos nos dois primeiros séculos de nossa era destacam-se os naassenos (palavra em aramaico com o mesmo significado de ofitas, de origem grega), setianos (de orientação judaica), docéticos (que propunham que a natureza exterior do Cristo era ilusória), carpocracianos, basilidianos e valentianos. Assim, bem cedo na história do cristianismo, antes mesmo do fim do primeiro século, começou-se a estabelecer o contraposição entre cristianismo apostólico e cristianismo agnóstico, haja vista que, a tão sonhada miscigenação unificadora entre ambos nunca se realizou, mas, sim, de um modo geral, uma parcela de conversos cristãos apostólicos era reconvertida ao cristianismo agnóstico, sendo que, até os dias de hoje, a segunda conversão exclui a primeira.

O conjunto de correntes filosófico religiosas sincréticas do Gnosticismo é bastante complexa e eu não tenho a intenção de me alongar muito ao expor sobre isso, mas alguns conhecimentos mínimos são necessários, de modo que gastarei não mais que seis parágrafos tentando explicá-la, segundo os próprios autores gnósticos. Alguns desses autores fazem uma distinção entre os termos "gnoses" e "gnosticismo".

Segundo os próprios autores gnósticos, a “gnose” é “uma experiência baseada, não em conceitos e preceitos, mas na sensibilidade do coração”. Já, para os mesmos autores, o “gnosticismo” é a “visão de mundo baseada na experiência de Gnose”, que tem por origem etimológica o termo grego gnoses, que significa "conhecimento".

O conceito de que algo tão grandioso como o Reino de Deus está no coração — por exemplo, tendo o poder de mudar e enobrecer a pessoa —, pode parecer atraente, mas será que isso realmente faz sentido? Nesse conceito, diferem notadamente os gnósticos dos cristãos apostólicos, que acreditam que “O coração é mais traiçoeiro do que qualquer outra coisa e está desesperado. Quem o pode conhecer? Eu, Jeová, esquadrinho o coração, examino os rins, sim, para dar a cada um segundo os seus caminhos, segundo os frutos das suas ações”. Je 17:9,10. “Deleita-te também no Senhor, e te concederá os desejos do teu coração.” Sl 37:4. Alguns acreditam que o próprio Jesus foi o primeiro a promover o conceito de que o Reino de Deus está no coração das pessoas. Na verdade, ele disse: “Eis que o reino de Deus está no vosso meio.” Lc 17:21. Mas alguns tradutores verteram esse texto assim: “O reino de Deus está dentro de vocês” ou “dentro de cada um”.

Ainda segundo os autores gnósticos, o conhecimento, a que se refere, “não é racional, científico, filosófico, teórico e empírico (a "episteme" dos gregos), mas de caráter intuitivo e transcendental; Sabedoria, usada para designar um conhecimento profundo e superior do mundo e do homem, que dá sentido à vida humana, que a torna plena de significado porque permite o encontro do homem com sua essência eterna, centelha divina, maravilhosa e crística, pela via do coração.”

Aqui, mais uma vez vemos gritar diferenças, pois, o gnóstico não busca, essencialmente, ao Deus dos cristãos, ao Deus da promessa de Abraão, de Isaque e de Jacó e ao seu messias, Jesus Cristo. Eles buscam, tão somente, terapias psico comportamentais, ou seja, o que dá sentido a vida, essência eterna e, mais uma vez, a via de concretização disso é o falho e traiçoeiro coração humano. A fé no sacrifício resgatador do Senhor Jesus parece ser, mais uma vez, simplesmente evitada. Todavia, o Espírito santo de Deus só poderá habitar o coração de alguém que antes, creu e foi remido. A intimidade com o Espirito é uma graça que advém de nossa justificação perante Deus.

Historicamente, é possível se verificar que o gnosticismo já vinha sendo formatado até mesmo antes da era cristã e trazia como base uma já bastante variada gama de elementos das filosofias e ocultismos que floresciam na Babilônia, no antigo Egito, na Síria e na Grécia antiga, combinando, ainda, elementos da astrologia e mistérios das religiões gregas como os do Elêusis, do Zoroastrismo, do Hermetismo, do Sufismo, do Judaísmo (Cabala).

Num texto hermético, lê-se que a gnoses da mente é a "visão das coisas divinas". Já, no início do século XX, o membro da Sociedade Teosófica (gnóstica) George Robert Stowe Mead acrescentou que "gnoses não é conhecimento sobre alguma coisa, mas comunhão, conhecimento de Deus". Para ele, este é o grande objetivo, “conhecer Deus, a realidade em nós”. Segundo ele, não é a crença, a fé ou o simples conhecimento o que importa. O fundamental é a comunhão interior, o religar da mente individual com a mente universal, a capacidade do homem "transcender os limites da dualidade que faz dele homem e tornar-se uma consciência divina".

Seria então o Deus dos cristãos tão somente “a realidade em nós mesmos” ? Decerto que não! Então eu constato que nós cristãos e os gnóstico, nada temos em comum. Nem ao menos adoramos a um mesmo Deus, muito embora, os atrativos gnósticos tenham, ao longo da história, logrado exito em apostatar alguns cristãos.

No complicado mundo em que vivemos, precisamos tomar muitas decisões que envolvem nossa obediência a Deus. Como podemos ter certeza de que essas decisões se harmonizam com a sua vontade? Jeová nos deu uma dádiva que pode nos ajudar muito na questão da obediência. É a consciência. O que é consciência? É um tipo especial de autoanálise. Ela age como juiz interno, habilitando-nos a analisar as escolhas com que nos deparamos na vida, ou a avaliar se as ações já tomadas são boas ou más, certas ou erradas. (Rom. 2:14, 15).

No entanto, a nossa consciência tem também as suas limitações. Por exemplo, se dermos excessivo valor aos desejos do nosso coração, nossas tendências egoístas poderão aflorar e distorcer a nossa consciência. (Jer. 17:9) Se não confiarmos, antes de tudo, na correta e imutável orientação da Palavra de Deus, a Bíblia, a nossa consciência poderá se tornar a bem dizer inútil. — Sal. 119:105 “Guarda com toda a diligência o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida”. Pv 4:23.

Mais uma vez, segundo os autores gnósticos, a “posse da Gnoses” significa a habilidade para receber e compreender a revelação. O verdadeiro gnóstico é aquele que conhece a revelação interior ou oculta desvelada e que também compreende a revelação exterior ou pública velada. Ele não é alguém que descobriu a verdade a seu respeito por meio de sua própria desamparada reflexão, mas alguém para quem as “manifestações do mundo interior” são mostradas e tornaram-se inteligíveis. “O início da perfeição é a Gnoses do Homem, porém a gnoses de Deus é a perfeição aperfeiçoada”. "Aperfeiçoamento" é um termo técnico para o desenvolvimento na gnoses, sendo o gnóstico realizado, conhecido como o "perfeito", "parfait".

Repare, mais uma vez, que os gnóstico preferem o uso da expressão “manifestação do mundo interior” do que “manifestação do mundo espiritual”. Manifestação do mundo espiritual remete nos, de um ponto dentro do homem, para fora deste e além, para o céu, para o universo da criação de Deus, e, por fim para a parte desse universo que é imaterial, ao passo que, manifestação do mundo interior, sugere aquilo que é limitado ao “eu”, ao coração e / ou a mente de um único e determinado homem!

As disparidades de crenças e valores são de tal modo tremendas, que chega ao ponto de eu considerar inadequado, até mesmo, o uso do termo “cristãos agnósticos”, sendo mais correto e justo o uso da designação, “agnosticismo cristão”, que é uma religião com a qual o verdadeiro cristianismo (o apostólico), não tem que ter parte alguma.

Portanto, fica claro que não há apoio bíblico para o conceito de que o Reino de Deus está no coração das pessoas. Em vez disso, ele é um governo real, que virá e fará mudanças reais na Terra e na humanidade, assim como predito pelos profetas. O ensino equivocado de que “o Reino está literalmente dentro das pessoas” é resultado do fato de o cristianismo apostólico ter sido, historicamente, sempre sabotado pelo pensamento do gnosticismo cristão.
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Este trabalho de André Luis Lenz, foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.
 
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